A quietude que se sente no solo da floresta ao anoitecer não é uma ilusão provocada pela penumbra, mas sim um processo biológico ativo. Cenoura-brava (Daucus carota), prestes a despertar no matagal: rodeada por botões no meio de uma densa folhagem, uma única flor branca suspendeu o seu desabrochar até ao amanhecer, repousando lado a lado com pequenas flores roxas companheiras (talvez violetas) no sub-bosque húmido e sombreado.
Esta reação dinâmica à transição entre o dia e a noite ocorre através da nictinastia - um movimento funcional em resposta à ausência de luz e à descida de temperatura. As células das plantas da família Apiaceae alteram a sua pressão de turgor (a pressão da água no seu interior), fazendo com que a umbela e os seus botões imaturos se dobrem ou se fechem hermeticamente. Este mecanismo protege os delicados órgãos reprodutivos contra o frio e a humidade noturnos. Enquanto o mundo dorme, toda a flora parece descansar e desacelerar, respeitando em silêncio os ciclos ancestrais da Terra.
Entre o Sinal e o Silêncio
Enquanto a rede pulsa em cabos de luz,
e o ecrã consome o olhar distraído,
a terra, em segredo, a si se reduz,
num ritmo antigo, calmo e esquecido.
Procuramos o mundo num brilho irreal,
hiperconectados, em febre e desterro,
esquecidos do sopro do chão ancestral,
presos à ilusão do vidro e do ferro.
Mas lá fora, na sombra, a flor sabe esperar.
A cenoura-brava dobra o seu manto,
suspende o desabrochar até o sol voltar,
coberta de orvalho, de noite e de encanto.
Sem pressa, sem rede, sem código ou sinal,
a vida recolhe na sua quietude profunda.
O verdadeiro mistério do mundo real
é o silêncio da terra quando a noite o inunda.
Poema de João Soares, 03.08.2026
«A ilusão da falta de vida é apenas isso: uma ilusão. Em todo o lado há a garantia de que o ciclo se cumpriu, contendo em si os meios para a sua própria renovação.» - Rachel Carson in O Mar que Nos Cerca

Sem comentários:
Enviar um comentário