De um lado da balança, a autarquia e os proprietários dos terrenos, como a Santa Casa da Misericórdia do Porto (dona do espaço junto ao Hospital Conde Ferreira), justificam a desocupação com a necessidade de avançar com planos de reestruturação interna. No caso da Misericórdia, o argumento oficial não é a venda dos terrenos para a especulação imobiliária, mas sim a modernização e requalificação do complexo hospitalar, além da reorientação da horta para fins puramente terapêuticos e sociais da própria instituição. Sob o ponto de vista da gestão de ativos, trata-se de rentabilizar e ordenar o património para garantir a sustentabilidade das suas próprias obras de assistência.
Do outro lado da balança, o custo deste ganho institucional é inteiramente social e ambiental. O encerramento do projeto destrói uma das maiores redes de hortas comunitárias da Europa, retira o sustento e o passatempo de mais de duas centenas de famílias e elimina focos essenciais de biodiversidade e coesão social no meio do asfalto da cidade. É precisamente aqui que o trade-off se torna mais evidente para Pedro Duarte: ao focar-se na gestão rigorosa de ativos, na reavaliação de cedências antigas e na aplicação estrita da lei sobre a ocupação dos terrenos, o executivo municipal prioriza a eficiência e o ordenamento do património público. Contudo, assume o pesado custo reputacional e político de ser criticado pela oposição por falta de sensibilidade social e pela ausência de alternativas viáveis de realojamento para os produtores locais.
Mesmo que o objetivo declarado não seja o lucro imediato através de imobiliário, a decisão mexe com feridas abertas na cidade. O receio da oposição e dos hortelãos de que a libertação destes espaços centrais acabe por abrir portas à pressão imobiliária a longo prazo é o que alimenta o conflito. A atuação do executivo neste caso não se resume a um acerto ou erro absoluto, mas sim à escolha consciente de um dos lados da balança; é uma escolha ideológica e de gestão. Optou-se pelo ordenamento e requalificação dos equipamentos, aceitando como "dano colateral" o desalojamento de uma comunidade que ali tinha criado raízes.
2 comentários:
Morreu o biólogo Paulo Talhadas dos Santos, referência da conservação da natureza
"Investigador e professor da Universidade do Porto, Paulo Talhadas dos Santos faleceu aos 66 anos, deixando um legado de ensino, ciência e defesa da biodiversidade."
https://www.publico.pt/2026/07/13/azul/noticia/morreu-biologo-paulo-talhadas-santos-referencia-conservacao-natureza-2181447
Estimado Manuel Pinto. Eu soube, no sábado, este fim de semana. Paulo Talhadas dos Santos, foi talvez o meu melhor Professor dos meus tempos do curso de Biologia. Embora especializado em Pescas e Limnologia, nunca mais esqueci de uma aula de Laboratório, era ainda Assistente, em que trouxe-nos uma amostragem da variedade de fauna dos nossos rios: exemplares tritões, rãs, cobra de água, etc. Também recordo o pioneirismo das visitas de estudo. Raríssimas nos anos 80. Fomos a Vigo e percebemos as diferenças gritantes das infraestruturas laboratoriais e como estavam muito mais avançados os Galegos na área de Gestão de Pescas. Foi também um pioneiro no ativismo ambiental na Zona Norte do País. Recordo com saudades a série de programas "Temas Ambientais" na RTP2. A doença que o atingiu, infelizmente, foi implacável. A Ecologia em Portugal está de luto. Descanse em Paz. Os meus sentidos pêsames à família enlutada.
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