domingo, 14 de junho de 2026

“Paradoxo da biodiversidade”: Investigação portuguesa avisa que, por vezes, mais pode ser menos


Um novo estudo liderado por Vasco Vieira, investigador do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente/ARNET (Universidade NOVA de Lisboa), ajuda a esclarecer um dos paradoxos clássicos da ecologia: porque é que comunidades muito diversas podem perder espécies à medida que crescem.

A investigação, publicada recentemente na revista ‘Communications Earth & Environment’, mostra que as comunidades vegetais naturais atingem um limite físico de compactação de biomassa a partir do qual já não conseguem acomodar mais indivíduos.

Dizem os autores deste trabalho que esse limite, conhecido há décadas para povoamentos monoespecíficos, é agora demonstrado também ao nível comunitário e envolvendo múltiplas espécies.

Quando mais passa a ser menos
O estudo agora publicado dá a conhecer a relação entre biodiversidade e biomassa, e indica que a mesma não é linear, aumentando até um máximo e diminuindo depois, o que aponta para um “paradoxo da biodiversidade”.

Explicam os investigadores que esta relação, definida para comunidades vegetais naturais, permitiu demonstrar o mecanismo que leva comunidades diversas a perder espécies quando atingem densidades elevadas.

Especificamente, o estudo revela a existência de self-thinning ao nível comunitário, um processo em que a competição por espaço elimina os indivíduos e espécies menos competitivas. Até agora, o self-thinning tinha sido demonstrado apenas para povoamentos monoespecíficos, mas esta investigação mostra, pela primeira vez, que o mesmo fenómeno ocorre também em comunidades naturais multiespecíficas.

Água, o fator invisível que dita as regras
Realizado na Charneca de Caparica, o estudo monitorizou um total de 17.089 plantas de 46 espécies, ao longo de 2021 e 2022.

Os investigadores descobriram que a disponibilidade de água é o principal mediador desta dinâmica. Em 2021, com mais chuva, as plantas cresceram mais e ocuparam o espaço com máxima eficiência, o que levou à diminuição da diversidade por exclusão competitiva dos indivíduos e espécies menos competitivas. Em contrapartida, a menor pluviosidade de 2022 travou o crescimento e reduziu a ocupação do espaço, o que se traduziu numa menor competição e consequente aumento da diversidade.

Os resultados confirmaram um padrão bem estabelecido na ecologia, o de que condições ambientais mais favoráveis e estáveis reforçam o domínio de algumas espécies, o que acaba por reduzir a diversidade global do ecossistema.

A este respeito, Vasco Vieira explica que “a um máximo de abundância de vida não corresponde um máximo de diversidade de vida”. Salienta o primeiro autor do estudo que “abundância e diversidade não são sinónimos, e podem mesmo ser antagónicas em caso de extrema abundância”.

Para o cientista do MARE, “a diversidade não pode ser tomada como um bioindicador universal da qualidade ambiental, contrariando a perceção dominante pela sociedade não-especializada, pois a um máximo de diversidade não correspondem máximos de abundância nem de qualidade e estabilidade ambientais”.

Teoria de Allan Savory posta em causa
Uma das conclusões mais surpreendentes do estudo contraria parte da teoria de “Gestão Holística” proposta por Allan Savory. Esse ecólogo, nascido no Zimbabué em 1935, defende que a desertificação de pastagens (particularmente em África) pode também resultar da acumulação de talos secos de plantas mortas por falta de pastoreio, que, ao ocuparem espaço, impediriam o nascimento de novas plantas.

A equipa do MARE testou este cenário ao analisar parcelas cobertas por uma camada espessa de relva morta e seca, com uma média de 354 gramas de matéria seca por metro quadrado.

Os resultados demonstraram o oposto do defendido por Savory. Isto é, que a acumulação de biomassa morta não impediu o desenvolvimento de uma comunidade vegetal diversa. Aliás, mostraram mesmo que essa camada serviu como protetora e promotora do crescimento de plantas mais suscetíveis à herbivoria e dissecação.

O Espaço como indicador ecológico e o combate a invasoras
O estudo aplicou uma métrica ecológica que mede quão perto cada comunidade vegetal está do seu limite máximo de biomassa, que os investigadores dizem ser uma forma objetiva de avaliar a eficiência com que as plantas ocupam o espaço disponível.

Ao calcularem esta eficiência separadamente para a comunidade autóctone e para a invasora Oxalis pes-caprae (também conhecida por nomes vulgares como erva-azeda, trevo-azedo ou erva-canária), comum no sul da Europa, a equipa identificou a principal vantagem competitiva dessa espécie invasora: a capacidade de surgir muito cedo no inverno e ocupar rapidamente o espaço antes das espécies nativas. Esta antecipação ajuda a explicar o seu sucesso em ecossistemas mediterrânicos.

Os autores deste estudo acreditam que as suas descobertas fornecem “ferramentas robustas para decisores políticos e engenheiros ambientais”. E consideram que, ao compreender como a biodiversidade e o espaço interagem em diferentes condições de stress hídrico, torna-se possível desenhar melhores estratégias de restauro ecológico e planos de controlo de espécies invasoras num cenário de alterações climáticas.

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