Percebe-se a ideia da involução cultural actual, na qual parece haver um culto à imbecilidade, onde pessoas como Trump conseguem chegar a presidente.
Mas a analogia acaba aqui. Valter Hugo Mãe (Hugo Lemos), traça aqui um perfil genealógico incorrecto para a nossa espécie. Não viemos dos macacos, somos macacos. Ou, num sentido mais lato, somos todos primatas, desde o Aye-Aye ao orangotango.
Mas nem todos os macacos são iguais. A nossa evolução remonta a cerca de 90 milhões de anos, ainda no tempo dos dinossauros, quando um pequeno primata do tamanho de um rato evoluiu a partir de um grupo semelhante aos musaranhos e toupeiras. Mais tarde, há cerca de 63 milhões de anos, o grande ramo dos prossímios, que incluem o aye-aye e os lémures, separou-se e teve evolução própria, e um pouco mais tarde (58 milhões de anos), separavam-se os tarsos, continuando o nosso antepassado comum com o mico-leão, gibões, babuínos, chimpanzés, gorilas, entre outros, a evoluir. A esse grupo chama-se na gíria de símios, ou seja, todos os macacos, nós incluídos.
Mas a história não acaba aqui. Há cerca de 15-20 milhões de anos, os hominóides separavam-se em dois grupos: os gibões e os "macacos sem cauda", ou hominídeos, que tem hoje como representantes o orangotango, o gorila, o chimpanzé, o bonobo e nós. Ao contrário dos ingleses, que chamam a estes parentes próximos de "apes", ou macacos sem cauda, não temos uma palavra que agregue este grupo dos primatas nossos parentes próximos. A evolução é uma árvore que se ramifica e no tronco comum desses macacos sem cauda e os humanos separaram-se dos seus parentes mais próximos, os chimpanzés e bonobos há cerca de 6-7 milhões de anos. Por isso nosso ancestral comum não era um chimpanzé ou um bonobo mas um macaco ou símio chamado, até ver, Sahelanthropus tchadensis. O antepassado comum com os gorilas é mais antigo e com os orangotangos mais antigo ainda. Já se sabe que a linhagem humana seguiu depois um ramo/rumo independente, tal como os chimpanzés e bonobos, que foi paralelo e não sucessivo. Quer isto dizer que nunca fomos chimpanzés mas temos tetravós comuns. E os nossos antepassados a partir dessa divergência com os chimpanzés seguiram o seu próprio caminho evolutivo, desde a famosa Lucy (Australopithecus afarensis) ao Homem de Pequim (Homo erectus), com contribuições de Homem de Neanderthal ou de Denisova.
Desmond Morris chamou-nos macacos-nus. Mesmo que haja alguns poucos humanos extremamente peludos, talvez seja essa a característica que melhor nos define, não a genética, que partilhamos em mais de 98,6% com o chimpanzé, não a cultura, porque estes também a têm, nem sequer a paz, a guerra ou o sexo porque sim, porque eles também o têm. Se os chimpanzés não conseguem pintar e pendurar quadros numa sala para marcar o território, tal como fazem os humanos, são ciosos do seu domínio e defendem a família. Se não sabem ler, transmitem cultura uns aos outros a usar instrumentos para comer uma banana ou formigas. Somos todos símios, somos todos macacos, mas uns mais estúpidos que outros, na verdade.
Por Nuno Gomes
Fontes:
1. Artigos científicos:
Brunet, M et al (2022) Human origins
Goodman, M., et al. (1998). Toward a Phylogenetic Classification of Primates Based on DNA Evidence. Molecular Phylogenetics and Evolution
Johanson, D. C., & Taieb, M. (1976). Plio-Pleistocene hominid discoveries in Hadar, Ethiopia. Nature.
Pozzi, L., et al. (2014). Primate phylogenetic relationships and divergence dates inferred from complete mitochondrial genomes. Molecular Phylogenetics and Evolution
Whiten, A., et al. (1999). Cultures in chimpanzees. Nature
2. Livros
Desmond Morris (1967) - O Macaco Nu
Richard Dawkins (2004) - The Ancestor's Tale
3. E-livros

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