sábado, 20 de junho de 2026

O macaco vai nu


Percebe-se a ideia da involução cultural actual, na qual parece haver um culto à imbecilidade, onde pessoas como Trump conseguem chegar a presidente.
Mas a analogia acaba aqui. Valter Hugo Mãe (Hugo Lemos), traça aqui um perfil genealógico incorrecto para a nossa espécie. Não viemos dos macacos, somos macacos. Ou, num sentido mais lato, somos todos primatas, desde o Aye-Aye ao orangotango. 
Mas nem todos os macacos são iguais. A nossa evolução remonta a cerca de 90 milhões de anos, ainda no tempo dos dinossauros, quando um pequeno primata do tamanho de um rato evoluiu a partir de um grupo semelhante aos musaranhos e toupeiras. Mais tarde, há cerca de 63 milhões de anos, o grande ramo dos prossímios, que incluem o aye-aye e os lémures, separou-se e teve evolução própria, e um pouco mais tarde (58 milhões de anos), separavam-se os tarsos, continuando o nosso antepassado comum com o mico-leão, gibões, babuínos, chimpanzés, gorilas, entre outros, a evoluir. A esse grupo chama-se na gíria de símios, ou seja, todos os macacos, nós incluídos.
Mas a história não acaba aqui. Há cerca de 15-20 milhões de anos, os hominóides separavam-se em dois grupos: os gibões e os  "macacos sem cauda", ou hominídeos, que tem hoje como representantes o orangotango, o gorila, o chimpanzé, o bonobo e nós. Ao contrário dos ingleses, que chamam a estes parentes próximos de "apes", ou macacos sem cauda, não temos uma palavra que agregue este grupo dos primatas nossos parentes próximos. A evolução é uma árvore que se ramifica e no tronco comum desses macacos sem cauda e os humanos separaram-se dos seus parentes mais próximos, os chimpanzés e bonobos há cerca de 6-7 milhões de anos. Por isso nosso ancestral comum não era um chimpanzé ou um bonobo mas um macaco ou símio chamado, até ver, Sahelanthropus tchadensis. O antepassado comum com os gorilas é mais antigo e com os orangotangos mais antigo ainda. Já se sabe que a linhagem humana seguiu depois um ramo/rumo independente, tal como os chimpanzés e bonobos, que foi paralelo e não sucessivo. Quer isto dizer que nunca fomos chimpanzés mas temos tetravós comuns. E os nossos antepassados a partir dessa divergência com os chimpanzés seguiram o seu próprio caminho evolutivo, desde a famosa Lucy (Australopithecus afarensis) ao Homem de Pequim (Homo erectus), com contribuições de Homem de Neanderthal ou de Denisova.
Desmond Morris chamou-nos macacos-nus. Mesmo que haja alguns poucos humanos extremamente peludos, talvez seja essa a característica que melhor nos define, não a genética, que partilhamos em mais de 98,6% com o chimpanzé, não a cultura, porque estes também a têm, nem sequer a paz, a guerra ou o sexo porque sim, porque eles também o têm. Se os chimpanzés não conseguem pintar e pendurar quadros numa sala para marcar o território, tal como fazem os humanos, são ciosos do seu domínio e defendem a família. Se não sabem ler, transmitem cultura uns aos outros a usar instrumentos para comer uma banana ou formigas. Somos todos símios, somos todos macacos, mas uns mais estúpidos que outros, na verdade.

Fontes: 
1. Artigos científicos:
Brunet, M et al (2022) Human origins
Goodman, M., et al. (1998). Toward a Phylogenetic Classification of Primates Based on DNA Evidence. Molecular Phylogenetics and Evolution
Johanson, D. C., & Taieb, M. (1976). Plio-Pleistocene hominid discoveries in Hadar, Ethiopia. Nature.
Whiten, A., et al. (1999). Cultures in chimpanzees. Nature

2. Livros
Desmond Morris (1967) - O Macaco Nu
Richard Dawkins (2004) - The Ancestor's Tale

3. E-livros

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