quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Jacques Delors: Mais do que Europa


Conheci Jacques Delors antes de se tornar mito. Foi a militância cristã que acompanhei desde os anos setenta. Conheci-o pessoalmente na passagem dos anos noventa para 2000. Falámos então sobre a herança de Emmanuel Mounier, sobre a Educação para o século XXI e sobre questões candentes na construção europeia, que muito o preocupavam, como o alargamento, o défice democrático e a perda na coesão económica e social. Em outubro de 2000, celebrámos na UNESCO em Paris, com Paul Ricoeur e Guy Coq os cinquenta anos da morte de Mounier.

Nascido em 20 de julho de 1925, era filho de um funcionário qualificado do Banco de França, com militância cristã e com enraizados valores liberais e democráticos. Aluno do Liceu Voltaire de Paris e do Liceu Blaise Pascal de Clermont Ferrand, ingressou cedo nos quadros do Banco de França, por conselho dos pais, a quem ficou eternamente agradecido, como diz nas suas “Memórias”. Aí forma-se no Centro de Estudos Superiores do próprio Banco com elevada classificação, passando a exercer funções de diretor geral dos títulos e mercado monetário. Contudo, mantém sempre uma intensa atividade de militância social e nos grupos de cristãos inconformistas, em especial na JOC – Juventude Operária Católica, fundada pelo futuro Cardeal Cardjin. Casa-se com Marie Lephaille, também militante cristã. Têm dois filhos Martine Aubry, Maire de Lille, e Jean-Paul, já falecido. Ambos têm uma ação marcante, em especial na “Vie Nouvelle”, nascida do movimento escutista e próxima do pensamento de Emmanuel Mounier.

É sindicalista na Confederação Francesa dos Trabalhadores Cristãos (CFTC), onde integra o grupo “Reconstruction”, que se demarca de uma posição conservadora, militando a favor de uma perspetiva social-democrata sob a orientação de Paul Vignaux e próxima da independência política de Pierre Mendès France. Entretanto, segue os grupos próximos das revistas “Esprit”, após a morte de Mounier em 1950, e “Temoignage Chrétien”. O grupo “Reconstruction” na CFTC passa de minoritário a maioritário o que leva à transformação em 1964 da CFTC na atual Conféderation Française Democratique des Travailleurs (CFDT) , mercê da desconfessionalização, que Delors defende como modo de alargar a sua influência. Partidário do associativismo político, dirige de 1959 a 1965 a revista “Citoyens 60” do movimento “La Vie Nouvelle”. Continua próximo dos discípulos de Mounier e de Jean-Marie Domenach e trabalha com o Club Jean Moulin em defesa dos direitos fundamentais e da autodeterminação dos países africanos. Em 1974 criará no mesmo espírito o Club Échange et Projets, de relevante influência política e social. Em virtude do seu empenhamento solidário, foi membro da secção do Plano e Investimentos no Conselho Económico e Social.

Em 1962, entra no Comissariado Geral do Plano, como chefe de serviços na secção das questões sociais e culturais, onde permanecerá até 1969. A partir desta data colabora com Jacques Chaban-Delmas, primeiro-ministro até 1972, sendo um dos principais artífices no projeto “Nova Sociedade” – em especial na preparação dos Contratos de Progresso, sendo inspirador da Lei de Formação Profissional Contínua (1971). De 1969 a 1974, exerce funções na Administração Pública nos domínios da formação profissional e da promoção social. De 1973 a 1979, é membro do Conselho Geral do Banco de França. É docente de Gestão na Universidade Paris-Dauphiné (1974-79). É diretor do Centro de Investigação Trabalho e Sociedade (1975-79). Em 1974, tinha aderido ao Partido Socialista Francês, a convite de François Mitterrand, onde exerce funções de delegado para as relações económicas internacionais (até 1981).

Em 1979, é eleito deputado ao Parlamento Europeu, deixando o lugar em 1981 por ter sido nomeado Ministro da Economia e Finanças no governo presidido por Pierre Mauroy (até 1984). Defende então o equilíbrio entre o Estado e a sociedade civil, e uma pausa nas nacionalizações. É eleito Maire de Clichy (1983-84). É reconduzido como Ministro da Economia e Finanças no Governo de Laurent Fabius, mas em 1985 torna-se Presidente da Comissão Europeia sucedendo ao luxemburguês Gaston Thorn. É notável a sua ação desenvolvida na Presidência da Comissão Europeia, até 1994. É marcante o conjunto de avanços que conseguiu para a União Europeia, como: celebração do Ato Único Europeu, consagração da Coesão Económica e Social, criação do programa Erasmus de mobilidade de estudantes, Tratado de Maastricht, adoção do Euro como moeda europeia no âmbito do Sistema Europeu de Bancos Centrais. Tratou-se de cumprir: “a concorrência que estimula, a cooperação que reforça e a solidariedade que une”.
 
Em 2006, nas Semanas Sociais realizadas em Braga, afirmou estar demonstrado  “como o social se tornou, além das suas características intrínsecas um fator de desenvolvimento da economia”. E acrescentou: “Alguns querem, hoje, impor erradamente a tese contrária: o social seria um travão ao crescimento e à competitividade.” A responsabilidade do Estado nesta matéria deve ter correspondência no plano internacional, para permitir a regulação. Não é simples, admitia, mas importa experimentar um “mecanismo de reflexão em comum, não apenas no quadro da Organização Mundial do Comércio”, para ultrapassar os mais graves desequilíbrios e, em última análise, garantir a paz. A economia ao serviço da pessoa permanece “central” no pensamento social católico. Por isso, não podemos “aceitar que apenas os mecanismos do mercado determinem ao mesmo tempo o útil e o justo” – ou seja, a economia de mercado não pode transformar-se numa sociedade de mercado.

Além desta preocupação permanente, Jacques Delors coordenou para a UNESCO o relatório sobre a Educação para o século XXI, com a participação do português Roberto Carneiro. Aí se formula a necessidade de aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser.

Com uma personalidade incansável, mantinha ainda uma atividade intensa, tendo escrito nos últimos dias uma mensagem entusiástica de elogio à democracia portuguesa e de saudação nos cinquenta anos da revolução portuguesa de 25 de abril de 1974.

Notre Europe – Instituto Jacques Delors”, dirigida por Enrico Letta, mantém o espírito de cidadania europeia ativa, em nome da paz e do desenvolvimento social. Uma Europa aberta e justa é mais necessária que nunca. O exemplo de Jacques Delors continua, assim, vivo.

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