sábado, 1 de outubro de 2022

Música do BioTerra: HOLYGRAM - Still There

Hoje celebra-se em todo o mundo o Dia Mundial da Música

Melhor som aqui

Letra
I saw you there 
We started walking in lines 
The sea was wild 
It left a taste in my mouth 
And I don’t know why 
We started falling apart 
So ease my mind 
With your dystopian hands 
And I’m still there 

And I don’t know why 
We started falling apart 
I saw you change 
In our dandelion grave 
And I’m still there 
I’m still there… 

I saw you there 
We started walking in lines 
The sea was wild 
It left a taste in my mouth 
And I’m still there 
Standing there 
You started walking away 

I saw you 
You started walking away 
The sea was wild

A letra de "Still There" é minimalista, poética e intencionalmente ambígua, mas carrega uma forte carga de isolamento urbano e desilusão amorosa. A música narra um distanciamento, no qual o eu lírico descreve um momento em que ele e outra pessoa "começaram a caminhar em linhas" - uma metáfora para uma rotina rígida e sem conexão real - até que, de repente, tudo começou a desmoronar sem que ele consiga compreender o motivo real.

Este cenário de ambientes distópicos e cinzentos é reforçado pelo uso de termos como "dystopian hands" (mãos distópicas) e "dandelion grave" (túmulo de dentes-de-leão), que traduzem perfeitamente a identidade do álbum Modern Cults, focado na exploração da vida nas grandes metrópoles, na solidão moderna e na forma como as relações humanas se tornaram frias, mecânicas e quase industriais.

Por fim, o refrão e o próprio título da canção entregam o verdadeiro peso psicológico da narrativa através da frase "And I'm still there" (E eu ainda estou lá). Enquanto a outra pessoa seguiu em frente e mudou, o narrador permanece estático, preso mentalmente ao exato momento e lugar em que o relacionamento acabou, transformando a faixa numa obra sobre a incapacidade de superar o passado e sobre como a memória se pode tornar uma espécie de assombração ou um "holograma" que se repete indefinidamente na mente.

Inspirações Filosóficas, Romancistas e Poéticas
No plano filosófico, a faixa ancora-se fortemente no conceito de Hauntology (Hantologie), teorizado por Jacques Derrida e mais tarde transposto para a cultura pop por Mark Fisher. Esta linha de pensamento aborda a persistência de fantasmas do passado que continuam a infetar e a moldar o presente, uma ideia que o Holygram traduz na dor de viver num loop temporal onde o ontem nunca morre. Esta suspensão do tempo remete também para o filósofo Henri Bergson e o seu conceito de "Duração" (Durée), que defende o tempo psicológico da mente — onde as memórias se sobrepõem à realidade cronológica do relógio — como a verdadeira experiência humana.

Na romancística, "Still There" bebe diretamente da literatura da memória involuntária de Marcel Proust em Em Busca do Tempo Perdido, onde pequenos fragmentos do quotidiano desencadeiam recordações avassaladoras, embora aqui despovoadas de doçura e transformadas numa prisão psicológica. A narrativa da canção aproxima-se ainda da literatura gótica de suspense de autores como Henry James, em A Volta do Parafuso, ou Daphne du Maurier, em Rebecca, obras onde os espaços físicos e as habitações estão permanentemente impregnados e assombrados pelo eco de traumas e de relações passadas, tornando o quarto do protagonista num espelho da sua própria ruína emocional.

Por fim, a fundação poética da canção assenta na melancolia e na decadência do Spleen de Charles Baudelaire e dos poetas simbolistas franceses do século XIX, que encontravam uma beleza trágica na agonia do isolamento. No entanto, é a obsessão de Edgar Allan Poe com a perda da mulher amada e a eterna vigília dos amantes face à morte — como nos poemas O Corvo ou Annabel Lee — que ressoa de forma mais pungente na lírica da canção, condenando o eu lírico a habitar a penumbra, crente de que aquela presença intangível continua, obstinadamente, ali.

Sem comentários: