quarta-feira, 16 de maio de 2012

The Amish


O documentário The Amish (2012), produzido pela PBS para a prestigiada série American Experience, propõe uma viagem extraordinária e sem filtros ao quotidiano, à história e à mentalidade de uma das comunidades mais herméticas e incompreendidas dos Estados Unidos da América. Longe da visão idealizada e comercial alimentada pelo turismo de massas, a obra constrói um retrato profundo sobre a constante tensão entre a preservação de uma fé ancestral e as inevitáveis pressões da modernidade capitalista. Ao dar voz tanto a especialistas como a membros e ex-membros da própria comunidade, o filme humaniza este povo, revelando que o seu isolamento não resulta de uma ignorância ingénua, mas sim de uma escolha coletiva consciente, diária e, por vezes, profundamente dolorosa.

No âmago da identidade Amish reside o princípio teológico de estar no mundo, mas não ser do mundo. Encarando-se como peregrinos de passagem pela Terra, onde a existência terrena é apenas um sopro face à eternidade, estruturam toda a sua vida em torno da comunidade, da humildade e da submissão a Deus, rejeitando o individualismo e o consumismo que definem o Ocidente. Historicamente ligados à agricultura, que consideravam a forma mais pura de ligação ao Criador, os Amish enfrentam hoje uma grave crise de espaço devido ao custo astronómico dos terrenos, o que tem empurrado as novas gerações para o trabalho assalariado em fábricas modernas. Esta transição económica é vista com grande apreensão pelos líderes, pois obriga os jovens a conviver de perto com a sociedade secular e com ritmos de trabalho que ameaçam a coesão do grupo.

A vida comunitária é estritamente regulada pelo Ordnung, um código de conduta não escrito que dita desde as regras de vestuário até aos limites no uso da tecnologia. O documentário desmistifica a ideia de que os Amish consideram a tecnologia intrinsecamente pecaminosa; eles rejeitam-na, sim, quando esta ameaça os laços familiares. O automóvel é proibido porque permite uma dispersão geográfica excessiva, e o telefone é mantido fora de casa para que o mundo exterior não invada o espaço doméstico, priorizando-se o contacto face a face. Esta rejeição do progresso estende-se à educação: as crianças apenas frequentam a escola até à oitava classe, aprendendo o essencial da leitura e da aritmética, por se considerar que o ensino secundário promove a competitividade e ideias que afastam os jovens da fé. Esta postura chegou a desencadear uma forte perseguição legal na década de 1960, culminando num julgamento histórico no Supremo Tribunal que acabou por salvaguardar o direito dos pais Amish a retirarem os filhos do sistema de ensino oficial.

A transição para a vida adulta é marcada pelo Rumspringa, um período a partir dos dezasseis anos em que os jovens gozam de maior liberdade para explorar o mundo exterior antes de tomarem a decisão mais importante das suas vidas: o batismo. Sendo uma promessa eterna e voluntária de fidelidade à igreja, o batismo acarreta uma responsabilidade tremenda. O documentário expõe com coragem o reverso desta moeda através do conceito de Meidung (excomunhão ou isolamento). Aqueles que decidem quebrar os votos e abandonar a comunidade sofrem um corte radical nas relações familiares e sociais; os pais e irmãos ficam proibidos de partilhar a mesma mesa ou fazer negócios com o dissidente. Através de relatos comoventes de quem partiu, o filme ilustra a brutalidade psicológica deste afastamento, bem como a rigidez de uma estrutura patriarcal que, nalguns casos reportados, silenciou mulheres vítimas de violência doméstica em nome da submissão feminina.

Apesar destas sombras, o documentário alcança o seu auge emocional ao abordar a capacidade de transcendência espiritual deste povo, exemplificada no trágico tiroteio na escola de Nickel Mines, em 2006, onde um homem da região sequestrou e baleou dez meninas, matando cinco delas antes de se suicidar. A resposta da comunidade chocou e comoveu o mundo: poucas horas após o massacre, os Amish visitaram a família do homicida para expressar um perdão sincero e oferecer apoio financeiro à viúva. O filme explica que, para os Amish, o perdão não implica esquecer a dor, mas sim abdicar voluntariamente do direito à vingança e ao ressentimento, entregando o julgamento a Deus. Como toda a sua cultura assenta na autossupressão e no sacrifício do ego, o perdão - embora imensamente sofrido -surge como uma extensão natural da sua vivência religiosa.

Em suma, The Amish é uma análise brilhante e multifacetada que foge à romantização bacoca e ao julgamento fácil. Ao expor os paradoxos de uma sociedade que alcança uma paz e uma solidariedade comunitária admiráveis à custa da anulação da liberdade individual e da punição severa dos que divergem, o documentário deixa no espetador uma inquietação profunda. Confronta-nos com as escolhas extremas que a preservação de uma utopia espiritual exige e, simultaneamente, funciona como um espelho crítico que nos questiona sobre o que a sociedade moderna, na sua pressa e emancipação individual, poderá ter perdido pelo caminho.

Sem comentários: