
As instituições democráticas foram desenhadas para um mundo analógico onde a informação fluía lentamente através de canais controlados, onde o poder económico estava relativamente disperso, onde o Estado-nação era a unidade política primária
As democracias liberais não estão a ser destruídas por tanques ou golpes militares. Isto é dito, mais ou assim, por Anne Applebaum, historiadora e jornalista premiada, que nos tem alertado consistentemente para a erosão das democracias liberais. Ainda muito recentemente o fez em entrevistas a órgãos de comunicação portugueses como o "Público" e o "Expresso", e no seu mais recente livro "Autocracy, Inc..". As suas análises sobre a aceleração autoritária, o papel destrutivo das plataformas digitais e os riscos existenciais para a Europa fornecem um quadro interpretativo essencial para compreender o momento histórico que atravessamos. A reflexão que se segue parte dessas conversas e da urgência que transmitem: as democracias ocidentais enfrentam uma ameaça sem precedentes, e a janela para a resistência eficaz fecha-se rapidamente. Não se trata de alarmismo, mas de diagnóstico rigoroso sobre por que razão as instituições democráticas estão a falhar na contenção de forças autocráticas que operam com velocidade e coordenação inéditas.
Estão a desintegrar-se por dentro, corroídas por forças que exploram as suas vulnerabilidades estruturais com precisão cirúrgica. O que presenciamos – dos Estados Unidos à Europa – não é um ataque frontal às instituições democráticas, mas a sua captura e esvaziamento gradual. Um processo que mantém aparências formais enquanto destrói a substância. A velocidade desta transformação revela algo perturbador: os mecanismos de defesa que as democracias construíram ao longo de décadas revelam-se trágica e surpreendentemente inadequados.
A questão central já não é se as democracias podem resistir aos avanços autocráticos, mas por que razão estão a falhar tão espetacularmente. A resposta encontra-se num desalinhamento estrutural profundo: as instituições democráticas foram construídas para um mundo que já não existe.
Durante gerações, operámos sob uma premissa reconfortante: as instituições funcionariam como barreiras automáticas contra a concentração autoritária de poder. Tribunais independentes, imprensa livre, separação de poderes – estas estruturas seriam suficientes. Esta confiança institucional transformou-se na nossa principal vulnerabilidade.
Estamos perante um colapso da arquitetura institucional das democracias liberais. As instituições democráticas foram desenhadas para um mundo analógico onde a informação fluía lentamente através de canais controlados, onde o poder económico estava relativamente disperso, onde o Estado-nação era a unidade política primária. Nenhuma destas premissas se mantém. A informação flui instantaneamente através de redes globais algoritmicamente mediadas. O poder económico concentrou-se em corporações tecnológicas que operam acima de qualquer jurisdição nacional. Os fluxos financeiros atravessam fronteiras em milissegundos, tornando a regulação nacional obsoleta.
Mais fundamentalmente, as instituições democráticas pressupõem boa-fé dos atores políticos. A separação de poderes funciona se todos os poderes aceitarem limitações mútuas. O escrutínio parlamentar funciona se o executivo reconhecer a autoridade do parlamento. A independência judicial funciona se as decisões judiciais forem respeitadas. Quando um ator político decide operar deliberadamente fora deste quadro, explorando sistematicamente brechas e zonas cinzentas, as instituições revelam-se surpreendentemente frágeis.
O Congresso americano tem poder constitucional imenso sobre o Presidente. Mas todo este poder depende da vontade de o exercer. Quando a maioria parlamentar decide não confrontar o executivo, por medo de retaliação, por pressão nas redes sociais, por cálculo político de curto prazo, o poder constitucional torna-se irrelevante. As instituições não se defendem sozinhas; dependem de pessoas dispostas a fazer escolhas que envolvem perdas ou sacrifícios para as preservar.
A fragmentação da realidade constitui o golpe mais profundo nas fundações democráticas, isto é, estamos perante a destruição da realidade partilhada. As democracias sempre conviveram com divergências ideológicas intensas, mas partilhavam um terreno factual comum. Essa base desapareceu. Não estamos perante cidadãos com opiniões diferentes; estamos perante populações que habitam realidades factuais incompatíveis.
Esta fragmentação não é acidental, é o modelo de negócio das plataformas digitais. Os algoritmos foram deliberadamente desenhados para favorecer conteúdo que provoca reações emocionais intensas, porque essas reações se traduzem em métricas que sustentam modelos publicitários. As democracias ocidentais permitiram que esta arquitetura de manipulação fosse construída sem regulação significativa. Mais grave: permitiram que empresas americanas e chinesas se tornassem os principais mediadores do debate político. Vista retrospetivamente, esta abdicação parece incompreensível.
Desde os anos 90, as democracias ocidentais facilitaram a saída de dinheiro saqueado de países autocráticos, permitindo que fosse escondido em paraísos fiscais. Este dinheiro não desapareceu em cofres offshore, foi investido em imobiliário em Nova Iorque, Londres, Miami, Lisboa. Os efeitos foram múltiplos e devastadores. Este dinheiro corrompeu o sistema financeiro democrático, criando indústrias inteiras que lucram com o branqueamento de capitais autocráticos.
As democracias tornaram-se dependentes de fluxos financeiros ilícitos que minam a sua própria legitimidade. Quando esses fluxos começaram a financiar campanhas políticas, a captura do sistema tornou-se inevitável. Os oligarcas não precisaram de invadir as democracias ocidentais – compraram participações nelas.
As autocracias contemporâneas articulam-se através de três vetores: interesses financeiros partilhados, manipulação narrativa coordenada e cooperação militar. Esta é uma rede pragmática de interesses autocráticos que opera através das mesmas estruturas financeiras que as democracias construíram.
O que Putin levou duas décadas a consolidar está a ser tentado em meses nos Estados Unidos. Esta aceleração explora uma vulnerabilidade específica das democracias: a lentidão da resposta institucional. Instituições democráticas operam através de processos deliberativos que, pela forma como foram estruturados, são lentos. Quando confrontada com um ator que toma múltiplas decisões disruptivas simultaneamente, a lentidão transforma-se em paralisia.
Enquanto os tribunais analisam a legalidade de uma ação, três outras já foram implementadas. Esta sobrecarga cognitiva é precisamente o objetivo: fazer tantas coisas simultaneamente que a resistência se fragmente. A militarização atual de cidades cria imagens de conflito, habitua a população à presença militar, testa capacidades de resposta, provoca reações que justificam medidas ainda mais extremas. Cada ação prepara o próximo passo numa escalada calculada.
A desintegração da liderança americana cria, paradoxalmente, uma oportunidade para a Europa. Mas aproveitá-la exigiria coordenação que raramente demonstrou. As instituições europeias dependem de unanimidade que transforma decisão em paralisia. Quando um único país pode bloquear respostas coordenadas, a capacidade de ação coletiva evapora-se. Não será necessário dar exemplos, vejam-se as cimeiras e reuniões dos líderes europeus, sobre a Ucrânia, sobre Gaza ou sobre as taxas que Trump impõe.
A Europa permitiu que plataformas externas se tornassem mediadores primários do debate político europeu. Quando algoritmos amplificam mensagens que minam coesão europeia, a soberania democrática está materialmente comprometida. Regulação tecnológica torna-se questão de sobrevivência democrática, não de política industrial.
A transformação autoritária não é ainda irreversível, mas a janela fecha-se rapidamente. A Polónia (outubro de 2023) demonstrou que a reversão é possível através de mobilização política que transcende divisões partidárias. Mas exigiu reconhecimento claro de que o regime representava ameaça existencial à democracia.
O “resgate” não virá de instituições que magicamente começam a funcionar, mas de cidadãos que compreendem que defendem não um partido, mas as condições de possibilidade da democracia. Exige abandonar ilusões: que instituições existentes são suficientes, que processos normais produzirão resultados normais, que a ordem liberal pode ser preservada sem luta.
O momento histórico não oferece escolhas fáceis. Mas a escolha fundamental permanece binária: resistir ativamente à erosão autocrática ou acomodar-se gradualmente. A experiência histórica não oferece conforto à segunda opção. Nunca uma captura institucional se auto-reverteu sem resistência organizada.
Ainda não chegámos ao ponto de não-retorno. Mas podemos vê-lo no horizonte, aproximando-se à velocidade que só a inércia democrática permite. A resposta será escrita nos próximos meses por escolhas concretas. Cada decisão de resistir ou acomodar escreve mais uma linha nessa resposta. E quando o texto estiver completo, já não será possível reescrevê-lo. A história não oferece rascunhos.
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