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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Francesco Tonucci - “Gastamos muito para encher nossos filhos de brinquedos, convertendo-os de brincadores para possuidores”


“As crianças precisam de mais liberdade e alguns brinquedos, devem ser autónomos, brincar com os amigos e, na medida do possível, ir para a escola, caminhando, sozinhos e a pé.” É assim que Francesco Tonucci, pedagogo e pensador italiano resume sua filosofia e agenda política. Ele, que é autor e promotor do conceito “Cidade das Crianças”, um projeto que aposta na transformação das cidades por meio das crianças que nela habitam, defende que todas as políticas urbanas deveriam se estabelecer para garantir o direito ao brincar das crianças.

Célebre por ser “radical na defesa da infância”, o autor também publica sob o pseudônimo Frato uma série de quadrinhos em que discute, de forma irônica, o cenário escolar e a estrutura familiar contemporânea, que muitas vezes, impede a criatividade e a possibilidade de criação e reinvenção das crianças.

Em entrevista ao site El Intransigente, periódico Argentino, Tonnucci, que esteve no país em agosto deste ano, afirmou que os pais precisam deixar de superproteger seus filhos e permitir que desenvolvam suas próprias experiências de autonomia, entendendo o brincar para o pleno desenvolvimento das pessoas.

El Intransigente: É fundamental que as crianças brinquem, mas quão importante isso é?

Francesco Tonucci: O brincar está conectado de uma maneira muito forte com o movimento e com a autonomia. Temos que ajudar os adultos a entender a importância disso. Para explicar, lhe conto uma anedota; meu filho mais novo chegou do seu primeiro dia na escola primária e me contou “a professora nos disse que agora é hora de parar de brincar, temos que levar as coisas a sério.” Essa foi a mensagem da escola ao meu filho. E, desde então, venho tentando dizer às pessoas que esta é uma frase absurda, equivocada e perigosa. Não tenho dúvidas que os primeiros anos são os mais ricos e importantes na vida de uma pessoa; é o período em que se fundam todos nossos cimentos.

A “Cidade das Crianças” é uma iniciativa que nasceu em 1991, em Fano, na Itália, e apresentou uma nova filosofia de governança dos municípios, tomando as crianças como parâmetro e como garantia das necessidades de todos os cidadãos. Inspirados no projeto, nasceu a rede de cidade das crianças. Em Roma, na Itália, as crianças passaram a compor um parlamento infantil, capaz de incidir sobre as políticas públicas locais.

El Intransigente: E o jogo ajuda…

Tonucci: Nestes anos iniciais não existem professores no sentido público, não existem métodos. Simplesmente há uma criança que brinca com o mundo. Essa é a importância do jogo; ele é uma experiência em que as crianças vivem no nível espontâneo e não é necessário ensiná-las isso. É brincando que as crianças têm sua primeira relação com o mundo.

El Intransigente: Todo tipo de brincar é valioso? Brincar ao ar livre é o mesmo que brincar no computador?
Tonucci: Brincar é uma experiência que tem algumas características: sair no sentido de não ficar sob controle direto dos adultos, encontrar-se com amigos, aproveitando um tempo livre para viver a experiência da aventura, do descobrimento, da surpresa, da maravilha, do risco. Tendo estes elementos, todos os jogos são bons. Inclusive os tecnológicos.

El Intransigente: Por que é importante que as crianças brinquem sozinhas?

Tonucci: Não é possível brincar acompanhado de adultos. Quando os pais dizem, “acompanho meus filhos todos os dias para que brinquem na praça” é uma contradição. O verbo brincar só se conjuga com o verbo deixar. Na Europa é impressionante, mas aqui [na Argentina] também creio que acontece, em especial nas classes sociais mais ricas; para uma criança é quase impossível sair sozinho pelas ruas. E isso os impede essa experiência básica.

Muitas vezes nós, adultos, pensamos em substituir esta experiência que desfrutamos nós mesmos e parece que as crianças não conseguem viver. Substituímos isso comprando muitos brinquedos, dando instrumentos que permitem que a criança passe muito tempo se entretendo sozinho em casa, especialmente com as novas tecnologias, e os acompanhando em todos os lugares. Todas respostas inadequadas. Estamos gastando muito dinheiro para encher nossos filhos de brinquedos, convertendo-os de “brincadores” para consumidores, “possuidores”. Para brincar bem, é preciso ter poucos brinquedos, mas amigos para aproveitá-los.

El Intransigente: O que oferece o brincar a uma criança?
Tonucci: Lhe permite descobrir o mundo. É uma maneira de encontrar-se com o desconhecido. Significa viver a experiência do risco, de saltar o obstáculo, viver o desafio de superá-lo ou não. Ver se hoje posso fazer o que antes não podia, se posso superar meu medo de viver esta experiência.

El Intransigente: Por que é importante viver a experiência do risco?

Tonucci: Se não é possível, vamos criar uma acumulação de desejos e de necessidade de transgressão que se expressarão mais tarde, na adolescência, quando um garoto tem autonomia suficiente como as chaves de casa no bolso ou quando essa expressão de seu desejo se converte em uma explosão perigosa.

Muitas das questões que hoje tratamos como os dramas da adolescência, como abuso de álcool, de drogas, acidentes de moto, – até os casos de suicídio juvenil -, tem a ver com a falta de experiências de autonomia nos primeiros anos de vida da criança. É vivendo a experiência do obstáculo que nos damos conta de que não podemos superá-lo e é aí que vivemos a desilusão. E a desilusão também é uma experiência que as crianças não vivem porque seus pais os superprotegem.

Após a entrevista, o professor proferiu palestra organizada pela Fundação Arcor em parceria com o governo argentino. Como indicado pelo portal Latin Lab de experiências de valorização e promoção da infância na América Latina, Tonnucci discute que os grandes devem escutar as crianças para transformar positivamente as comunidades em que vivem.

Veja em dois vídeos, a palestra completa em espanhol.



Fonte: Educação Integral

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