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| Löwy: crise climática pede a ruptura do capitalismo |
O grande erro dos movimentos ecológicos atuais é continuarem a agir como se estivéssemos em meados do século passado, acreditando que basta organizar marchas, erguer cartazes e divulgar relatórios científicos para despertar a consciência das pessoas. Essa abordagem ignora uma mudança profunda: a praça pública de outrora foi substituída por um ecossistema digital desenhado ao milímetro para manter a população num estado de anestesia e distração permanentes. Esperar por uma revolução ética de baixo para cima quando a sociedade passa o dia a consumir dopamina rápida em ecrãs hipervigilados é uma ilusão ingénua - e um luxo que o relógio climático não nos concede.
Como já tinha referido aqui e aqui, para que o Ecologismo e o Humanismo Activo deixem de ser uma carta de intenções morais e se tornem uma força política real, a estratégia tem de deixar de ser pedagógica e passar a ser infraestrutural. Se a consciência coletiva está bloqueada pela arquitetura do capitalismo de vigilância descrita por Shoshana Zuboff, o primeiro passo não é tentar convencer o indivíduo sedado, mas desmontar a engenharia do vício. Isso exige tratar o assalto ao tempo e à cognição analisado por Jonathan Crary ou Bernard Stiegler como uma ameaça direta à própria capacidade de organização política. Sem resgatar o tempo e a lucidez roubados pelas plataformas digitais, qualquer tentativa de mobilização dilui-se inevitavelmente no ruído algorítmico.
Ao mesmo tempo, perante a paralisia cultural do "realismo capitalista" teorizada por Mark Fisher - em que se tornou mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do sistema económico -, o movimento precisa de abandonar a mera protestação simbólica. Como defende o historiador Andreas Malm, a escassez de tempo exige uma transição para a ação direta de alta fricção, focada no desmantelamento tático e financeiro das infraestruturas fósseis. O foco deixa de ser agradar à opinião pública e passa a ser tornar a atividade poluidora economicamente inviável. Essa disrupção física deve ser acompanhada por aquilo a que Ivan Illich chamava "ferramentas de convivência": a criação de redes locais e analógicas de sobrevivência alimentar, energética e comunitária. É na junção entre o resgate da atenção, a paralisação do capital ecocida e a construção de resiliência no terreno que a ética ambiental encontra a sua tradução em poder político efetivo.
Os Autores e Teóricos Subjacentes a Esta Tese
- Shoshana Zuboff (A Era do Capitalismo de Vigilância): Dá-lhe o argumento central sobre como as plataformas digitais não são meros meios de comunicação, mas indústrias de modificação comportamental que destroem a autonomia e a capacidade de organização coletiva.
- Andreas Malm (Como Salvar um Planeta em Chamas / How to Blow Up a Pipeline): Fundamenta a crítica ao pacifismo estratégico tradicional. Malm defende que, perante a urgência, o movimento ecológico tem de ultrapassar os protestos simbólicos e adotar a sabotagem tática de infraestruturas fósseis (sem violência contra pessoas) para encarecer o capital poluidor.
- Mark Fisher (Realismo Capitalista): Sustenta a tese da alienação e da paralisia: a ideia de que o sistema criou uma anestesia cultural onde é "mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", transformando o sofrimento e a ansiedade em consumo passivo.
- Ivan Illich (Tools for Conviviality): Alimenta a ideia da construção de "cidadelas analógicas" — a necessidade de criar tecnologias e redes de escala humana, locais e desvinculadas dos megassistemas industriais e digitais para devolver a autonomia às comunidades.
- Cédric Durand ou Nick Srnicek (Capitalismo de Plataforma / Feudalismo Digital): Em vez de olhar para a psicologia do ecrã (como Han faz), estes autores explicam a arquitetura económica real de como as grandes plataformas extraem renda e capturam o comportamento humano.
- Bernard Stiegler: Para uma crítica da tecnologia incomparavelmente mais rigorosa e profunda. Stiegler concilia a filosofia da técnica com a neurobiologia e a economia política, explicando como a tecnologia digital nos priva do "saber-fazer" e do "saber-viver", gerando uma proletarização da mente.
- Bernard Stiegler (24/7: O Capitalismo Tardio e os Fins do Sono): Examina como o capitalismo do século XXI tenta eliminar as pausas humanas naturais (como o sono e a reflexão), transformando o tempo contínuo num mercado de consumo e vigilância.
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