A poluição do ar é considerada o maior risco ambiental para a saúde humana, segundo entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e a Agência Europeia do Ambiente.
Contudo, persistem lacunas no conhecimento de como a poluição do ar se relacionada com outras dimensões centrais para a compreensão devida do problema, como o facto de nem todas as pessoas e comunidades são afetadas da mesma forma.
Grupos humanos mais vulneráveis podem estar mais expostos à poluição do ar do que outros, os impactos podem ser mais fortemente sentidos em certas áreas ou regiões e não tanto noutras, levantando questões relacionadas com desigualdades e justiça ambientais.
Foi essa constatação que levou um grupo de investigadores, liderado por membros de instituições académicas e centros de investigação portugueses, a rever o conhecimento existente para perceber se, e também como, conceitos relacionados com desigualdades e justiça ambientais são tidos em conta em avaliações dos impactos da poluição do ar na saúde.
O trabalho, liderado pela Universidade de Aveiro em colaboração com a Universidade de Coimbra, o Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes (LASI), sediado na Universidade do Minho, e também a University of the West of England (Reino Unido), analisou 99 artigos científicos. Nesse exame, foram tidos em conta diferentes aspetos como o enquadramento conceptual, a região estudada, a escala temporal, os dados e indicadores utilizados e os métodos de análise aplicados, sejam estatísticos, numéricos ou baseados em inquéritos.
Os resultados, revelados num artigo publicado na revista ‘Heliyon’, mostram que os estudos sobre justiça ambiental associados à poluição do ar foram realizados em 21 países, sendo os Estados Unidos da América responsáveis pela maioria das investigações (53%). Seguem-se Canadá (6%) e China (5%).
Em termos temporais, mais de metade dos estudos foram publicados nos últimos cinco anos, o que os investigadores dizem refletir “um crescimento recente do interesse científico neste tema”. A maioria das investigações analisa impactos de longo prazo da poluição atmosférica.
Relativamente aos dados que são utilizados, a maior parte dos trabalhos centra-se nas partículas finas PM2.5, um dos poluentes mais associados a riscos para a saúde. No entanto, apenas cerca de metade dos estudos inclui explicitamente dados sobre saúde ou níveis de exposição, avança esta equipa.
Todos os artigos analisados abordam questões de justiça ambiental relacionadas com estatuto socioeconómico ou raça/etnia. Entre os indicadores socioeconómicos mais utilizados, mostra este estudo, destacam-se os dados de rendimento (99%), seguidos de indicadores de caracterização populacional e de habitação.
O método de análise mais frequente é a análise estatística, utilizada em 71% dos estudos. Cerca de 14% recorrem a inquéritos e 15% utilizam modelos de simulação para explorar cenários.
Com base na revisão, os autores deste artigo consideram que ainda existe margem para o desenvolvimento de novos estudos, especialmente na Europa e noutras regiões menos representadas. Os investigadores, é avançado em comunicado da Universidade de Aveiro, defendem a utilização de modelos estatísticos “mais robustos e métodos mistos”, que sejam capazes de lidar com “a complexidade das múltiplas variáveis envolvidas neste tipo de investigação”.
Em escalas geográficas mais pequenas, os autores recomendam também a realização de estudos apoiados por inquéritos, que permitam “integrar indicadores socioeconómicos tanto individuais como contextuais”. A revisão destaca ainda que poucos estudos abordam perceções sociais ou o envolvimento dos cidadãos nas questões relacionadas com a poluição do ar.
A equipa conclui que é preciso aprofundar o conhecimento sobre as dimensões sociais da poluição atmosférica, algo que permitirá contribuir de forma importante para políticas ambientais e de saúde pública mais equitativas.

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