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terça-feira, 12 de julho de 2016

Simplicidade voluntária, por Filipe Duarte Santos



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É interessante observar e refletir sobre a capacidade de a humanidade reformular e expressar de modo diferente, sob o impulso de novas situações e razões, conceitos que caracterizam a essência do seu comportamento milenar. Em 1936, o filósofo americano Richard Gregg (1885-1974) introduziu o conceito de “simplicidade voluntária” num artigo publicado na revista indiana Visva-Bharati Quaterly. Para o autor, a simplicidade voluntária era uma forma de reagir ao consumismo então emergente nos EUA, contrariando a ideia de Henry Ford de que a civilização progride por meio do aumento do número dos desejos das pessoas e da sua satisfação. Nas suas próprias palavras, a simplicidade voluntária significa “unicidade de objetivos, sinceridade e honestidade interior e evitar a desordem exterior associada à acumulação de possessões irrelevantes para o objetivo principal da vida”. Gregg não defende o ascetismo como finalidade, mas uma forma de vida simples, sem procurar acumular bens materiais, embora compatível com o mundo moderno.

A essência destes propósitos é muito antiga, com exemplos tanto no domínio secular como religioso, mas as razões que os motivam são agora novas. Sócrates, condenado por Atenas a beber cicuta, deu-nos provavelmente o primeiro registo do exemplo de uma vida simples, sem bens materiais, do controlo de si próprio e da dedicação ao conhecimento e à sabedoria. Diógenes de Sinope, a figura central dos filósofos cínicos, levou a doutrina ao seu limite vivendo em Atenas como um mendigo em pobreza extrema, o que, segundo Diógenes Laércio, levou Platão a dizer que era um “Sócrates louco”.

No domínio religioso, a vida simples ou o ascetismo foram defendidos e praticados pelos fundadores das principias religiões, tanto na Era Axial, entre 800 a.C. e 200 a.C. – Sidarta Gautama (o Buda), Zaratustra, Lau Zi e Confúcio –, como no período que se seguiu – Jesus Cristo. No Cristianismo, a simplicidade, a pobreza, o desprendimento dos bens materiais, a ascese, têm sido preocupações recorrentes, num contexto dinâmico de avanços e recuos, embora reconhecendo sempre que a ascese não deve obliterar todo o desejo, porque este é o motor da vida. O movimento dos Padres do Deserto, no Egito, a partir do século III, liderado por São Paulo de Tebas e Santo Antão do Deserto, que serviu de modelo ao monasticismo cristão, e a Ordem dos Franciscanos, fundada por São Francisco de Assis, no século XIII, são dois dos exemplos mais notáveis.

Depois da Revolução Industrial, Henry David Thoreau (1817-1862) defendeu, antes de Gregg, uma vida simples e sustentável no seu célebre livro Walden or Life in the Woods (1854), onde descreve as suas experiências ao viver cerca de dois anos numa cabana construída por ele numa floresta do Massachusetts, à beira do lago Walden, propriedade do seu amigo e mentor Ralph Waldo Emerson. Thoreau advoga abrandar o ritmo da vida até estarmos plenamente disponíveis para usufruir o valor existencial da consciência plena de cada momento e libertar o pensamento, sem limites de tempo. O objetivo não é o ascetismo, mas a otimização da possibilidade de florescimento humano por meio de uma vida simples, com as necessidades básicas asseguradas e voltada para o que é verdadeiramente essencial.

Há razões plenamente justificadas para nos preocuparmos com o atual paradigma de desenvolvimento, baseado na aceleração da tecnologia e no consumismo, gerador de desigualdades crescentes, escassez de recursos naturais, acumulação de resíduos e degradação ambiental. Foi nos EUA, depois da Segunda Guerra Mundial, que se inventou a economia movida pelo consumismo massificado descrito eloquentemente por Lizabeth Cohen no seu livro Consumers’ Republic. Os seus promotores tinham a convicção de que ela geraria uma sociedade mais próspera, mais equitativa e mais democrática. O modelo teve um sucesso enorme, tornou-se global e criou mais prosperidade e bem-estar, mas também mais desigualdades e insustentabilidade.

A tecnologia alicerçada num conhecimento científico em expansão contínua é actualmente, para a humanidade, um veículo não só imprescindível como incontrolável. Por um lado, é o motor dos nossos sonhos mais arrojados e o único verdadeiro mito que ainda nos resta e, por outro, é o agente de profundas transformações sociais e económicas que lança para o desemprego ou para salários desvalorizados centenas de milhões de trabalhadores que se tornam progressivamente desnecessários para a economia.


A simplicidade voluntária carrega o estigma de renegar a supremacia do mito da tecnologia e de poder ser interpretada como um regresso ao passado ou a negação daquilo que frequentemente se considera ser a nossa irreversível e vitoriosa ascensão na modernidade.

Contudo, analisando melhor, não existe uma incompatibilidade insanável entre a simplicidade voluntária e a tecnologia. Há um largo espetro de formas de vida simples desde um comportamento radical próximo da pobreza extrema forçada até uma simplicidade livre de consumos e posses supérfluas e em harmonia com a natureza. Por exemplo, o uso das tecnologias da informação e comunicação, que nos permitem aceder em nossas casas ao conhecimento, à atualidade mundial e nacional e às redes sociais, não é incompatível com a simplicidade voluntária.

Há vários testemunhos escritos da transição para e experiência de uma vida simples. No livro Downward Mobility for Conscience’s Sake encontra-se o relato de Charles Gray que resolveu viver em 1977 com o dinheiro correspondente ao PIB mundial per capita dessa época, ou seja, 142 dólares (EUA) por mês. A pobreza severa provocou-lhe um divórcio, o isolamento e a depressão, mas acabou por se adaptar. Menos radical, Colin Beavan descreve no seu livro No Impact Man a redução incremental (incremental downscaling) a que ele, a mulher e a filha se submeteram num apartamento de Nova Iorque reduzindo praticamente a zero o lixo, deslocando-se apenas a pé ou de bicicleta, reduzindo ao mínimo o consumo de eletricidade e comendo só comida produzida localmente e nunca para lá de um raio de cerca de 400 km.

A simplicidade voluntária permite explorar e promover os valores da frugalidade material, da vontade e autocontrolo, da consciência ecológica, da dimensão humana na ordem universal e do florescimento intelectual. Será que estas iniciativas individuais poderão contribuir para resolver os problemas de larga escala da pobreza, das desigualdades sociais e económicas, do consumismo, da acumulação de resíduos, da escassez de recursos e da degradação ambiental?

Creio que a resposta a esta pergunta não é simples. Os avanços e os recuos da humanidade resultam de uma rede complexa e dinâmica de influências e interações entre os comportamentos individuais e sociais. Há exemplos individuais notáveis que tiveram influência na grande escala, entre os quais se destaca Mahatma Gandhi, no domínio político. Mais recentemente, em 2010, o milionário austríaco Karl Rabeder resolveu consumir a sua fortuna na criação da MyMicroCredit, uma organização sem fins lucrativos de microcrédito que apoia pessoas carenciadas nas regiões pobres da América Latina, África e Ásia, passando ele a viver com simplicidade.

O desenvolvimento das iniciativas de transferência de riqueza para os mais pobres deu origem ao movimento do “altruísmo eficaz” defendido pelo filósofo Peter Singer, que se distingue da intemporal caridade ao procurar otimizar tal transferência por meio de uma análise criteriosa dos meios disponíveis e das carências atuais à escala global, nacional, regional e local.

Estas iniciativas individuais são exemplos inspiradores que necessitam de ser complementados e replicados ao nível dos comportamentos coletivos. O homem é eminentemente social, pelo que os comportamentos individuais constituem sempre uma forma de influenciar os mais próximos ou até a sociedade. O grande desafio do nosso tempo é pôr em prática modelos sociais sustentáveis do ponto de vista económico e ambiental. É ao nível da comunidade que podemos partilhar com os mais carenciados os bens que prescindimos ao aderir a uma vida de simplicidade voluntária.

O biorregionalismo pretende recuperar alguns dos valores das sociedades pré-industriais ao promover a continuidade da vida humana em equilíbrio com a natureza numa determinada região, a autossuficiência apenas com os recursos naturais dessa região, a interdependência, a coesão social, a partilha e a solidariedade entre os membros da comunidade regional.

Há, hoje em dia, um mundo fervilhante e diverso de “comunidades intencionais”. Os seus membros partilham visões comuns, sejam de natureza, social, política, ambiental, religiosa ou espiritual e, em geral, praticam estilos de vida alternativos. É o caso, por exemplo, das ecovilas, cujo principal objetivo é tornarem-se sustentáveis do ponto de vista social, económico e ambiental. Muitos destes exemplos são valiosos e promissores, mas, entretanto, o motor imparável da tecnologia continua indiferente a rugir por todo o mundo e a alimentar um consumismo e uma degradação ambiental crescentes. Mais ainda, continua a suportar o atual modelo de crescimento, considerado imprescindível.

Na história da humanidade tudo passa e não conseguimos adivinhar o que vem a seguir. Contudo, estou convencido que será nas zonas urbanas que irão nascer os novos modelos sociais sustentáveis que poderão replicar-se à escala da cidade e à escala global. É apenas uma esperança face às projeções recentes de cerca de 66% da população mundial, ou seja, mais de 6000 milhões de pessoas, a viver em zonas urbanas em 2050. Cem anos antes, em 1950, eram 30%!

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