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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Fotopoema da semana- António Botto

Silena Lambertini
Se eu pudesse fazer com que viesses 
Todos os dias, como antigamente, 
Falar-me nessa lúcida visão 
- Estranha, sensualíssima, mordente; 
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses, 
Meu pobre e grande e genial artista, 
O que tem sido a vida - esta boemia 
Coberta de farrapos e de estrelas 
Tristíssima, pedante, e contrafeita, 
Desde que estes meus olhos numa névoa 
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma:
Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo. . .
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes. . .
E a mesma intriga; as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver
- Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me: transformemos
A nossa natural angústia de pensar
- Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!

António Botto / À Memória de Fernando Pessoa

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