Minha arte digital.
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domingo, 31 de agosto de 2025
Sobre a Arte
Minha arte digital.
Anna von Hausswolff — The Whole Woman (ft. Iggy Pop)
sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Cartel da banca: bancos não têm de pagar nada pelas infrações cometidas em 11 anos
O Tribunal Constitucional rejeitou uma segunda tentativa da Autoridade da Concorrência (AdC) no caso conhecido como 'cartel da banca' para reverter a anulação das coimas de 225 milhões de euros aos bancos.
Num acórdão de 25 de agosto, a que a Lusa teve acesso, a conferência do Tribunal Constitucional (TC) indefere a reclamação do regulador da concorrência contra o facto de, em junho, o juiz-conselheiro Afonso Patrão ter rejeitado admitir o recurso que a AdC submeteu para apreciar a constitucionalidade do processo.
Com esta segunda decisão, o TC recusa de forma definitiva apreciar se o acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa (TRL) que declarou o processo prescrito é, ou não, conforme com a Constituição da República Portuguesa e com o direito da União Europeia (UE).
O litígio chega agora ao fim com este acórdão, fazendo transitar em julgado a decisão do TRL que declarou a prescrição e que anulou as coimas aos 11 bancos condenados pelo Tribunal da Concorrência.
Para o TC, a questão de inconstitucionalidade colocada pela AdC "não tem natureza normativa, sendo, por isso, inidónea a fiscalização concreta da constitucionalidade".
Segundo o acórdão, o tribunal entende que a AdC não lhe solicitou "que interprete a Constituição em consonância com o direito da União Europeia", antes que analisasse "a alegada desconformidade da interpretação seguida pelo tribunal a quo [Relação de Lisboa] com o direito da União Europeia num problema de inconstitucionalidade com referência, por um lado, ao valor que a Constituição atribui ao direito da UE e, por outro, à eficácia jurisdicional do direito da UE". Por isso, entendeu rejeitar analisar a decisão tomada pelo TRL.
A 20 de setembro de 2024, o Tribunal da Concorrência deu como provado que, de 2002 a 2013, os principais bancos do mercado português agiram em "conluio" para falsear a concorrência e confirmou as coimas aplicadas pela AdC em 2019.
Nessa instância ficou provado que as instituições trocavam informação de forma regular por telefone e por email para enviar dados aos concorrentes sobre os 'spreads' que iam praticar e sobre os volumes de crédito já concedidos.
Os bancos recorreram da decisão da primeira instância para o TRL, onde um coletivo de juízes declarou a contraordenação prescrita, por considerar que no período em que o processo esteve a ser analisado no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) o processo não ficava suspenso para efeitos de contagem da prescrição.
A decisão no TRL foi tomada sem unanimidade, com um dos três juízes do coletivo a discordar que o processo estivesse prescrito.
A AdC e o Ministério Público recorreram para o TC para tentarem travar a anulação das coimas, mas logo num primeiro momento o tribunal rejeitou o pedido.
Foi contra essa decisão que a AdC apresentou a reclamação agora rejeitada.
Tal como o TC, o TRL também não analisou se a conduta dos bancos infringiu, ou não, a concorrência, porque, no ponto de partida, considerou os autos prescritos.
À Lusa, fonte oficial da AdC reagiu à decisão do TC afirmando que "fez tudo o que pôde para que esta infração à lei da concorrência fosse punida, até porque foi confirmada" por duas instâncias judiciais (o Tribunal da Concorrência e o TJUE).
"Esta decisão da conferência do TC não retira razão à AdC", afirma a instituição liderada por Nuno Cunha Rodrigues, lembrando que o TCRS "confirmou os factos" e que o TJUE confirmou que se tratava de "uma infração por objeto (expressão do direito da concorrência que qualifica as infrações como tão graves que dispensam a prova de efeitos nos consumidores)".
Os bancos que veem as coimas anuladas são a CGD (82 milhões de euros), BCP (60 milhões), Santander (35,65 milhões), BPI (30 milhões) Banco Montepio (13 milhões de euros), BBVA (2,5 milhões), BES (700 mil), BIC (500 mil), Crédito Agrícola (350 mil), UCI (150 mil). O Barclays também foi condenado, mas sem ter de pagar coima por ter denunciado o caso à AdC.
A Autoridade da Concorrência (AdC) afirmou ter feito todos os esforços para que os bancos envolvidos no ‘cartel da banca’ fossem sancionados pelas infrações cometidas entre 2002 e 2013.
quinta-feira, 28 de agosto de 2025
A Doutrina Invisível - A História Secreta do Neoliberalismo
O neoliberalismo (eu sugeria anarco-capitalismo) instalou-se nas nossas vidas como se fosse algo natural. Geralmente temos dificuldade em defini-lo e em perceber o mal que nos pode trazer. Este livro vem mudar isso.
Que somos nós? Éramos cidadãos, mas, hoje, parece que fomos reduzidos a consumidores. Da década de 1930 para cá, a ideia de que é a competição que nos define como espécie foi sendo adoptada e alimentada por elites, determinadas em preservar as suas fortunas e o seu poder. Think tanks, corporações, os media, as universidades e os políticos tornaram-se a força motriz para difundir e cristalizar uma ideologia que nos esvazia enquanto pessoas, que exclui direitos e promove o neoliberalismo como doutrina que regula, secreta e silenciosamente, a nossa existência. Mas o que é o neoliberalismo? Por que razão estamos subjugados a ele?
George Monbiot e Peter Hutchison traçam a história do nascimento e da ascensão do neoliberalismo. Os autores argumentam que o neoliberalismo está por trás de crises como as alterações climáticas, a precariedade dos serviços públicos, as catástrofes financeiras e a pobreza infantil, tudo isso enquanto enfraquece a democracia em favor do poder económico.
O livro também conecta o neoliberalismo ao ressurgimento de formas autoritárias de governo e propõe uma alternativa de democracia participativa baseada no conceito de "suficiência privada, luxo público".
quarta-feira, 27 de agosto de 2025
Alterações climáticas podem estar a enfraquecer dentes de tubarões

Pesquisadores alemães da Universidade Heinrich Heine Düsseldorf afirmam que a acidificação dos oceanos está enfraquecendo os dentes afiados dos tubarões, tornando-os quebradiços e frágeis. As descobertas, publicadas no dia 27 de agosto na revista Frontiers in Marine Science, levantam preocupações quanto à sobrevivência de um dos principais predadores do oceano, à medida que o dióxido de carbono continua a reduzir o pH da água do mar.
As more of the greenhouse gas carbon dioxide (CO2) is released into the atmosphere, more of this gas is also absorbed by the oceans. The consequence: The so-called pH-value of seawater decreases, making it more acidic. The acidity has a potentially corrosive effect on minerals – including those in the tooth material of marine organisms.
Sharks are known for being able to replace their teeth, with new ones growing to replace older ones when they wear down. This is crucial for their survival as they rely on their teeth to catch their prey.
A research team headed by Professor Dr Sebastian Fraune from the Institute of Zoology and Organismic Interactions at HHU has, in collaboration with biologists from the Sealife Oberhausen marine aquarium, examined the impact of ocean acidification on shark teeth. They placed shark teeth in containers of water at different levels of acidity: at the current pH of the oceans and at the expected pH in 2300.
“Shark teeth comprise highly mineralised phosphates, but they are susceptible to corrosion. The more acidic water in the simulated 2300 scenario damaged the shark teeth, including roots and crowns, much more than the water at the current acidity level. Global changes are thus so far-reaching that they can impact the microstructure of shark teeth,” says Maximilian Baum, former HHU student and now a freelance diver, photographer and speaker. He is the lead author of the study.
Corresponding author Professor Fraune: “The teeth are highly sophisticated weapons designed to cut flesh, but not to withstand the acidification of the oceans. Our results show how fragile even nature’s sharpest weapons can be. It is possible that the ability of sharks to replace their teeth on an ongoing basis will not be able to keep up with the changes in their environment.”
Teeth shed naturally by blacktip reef sharks (Carcharhinus melanopterus) kept at Sealife Oberhausen were used for the study. These teeth were divided between separate containers – one holding seawater with a pH of 8.1 (the current level) and the other with a pH of 7.3 (what is expected in 2300) – and incubated for eight weeks. Baum: “This pH corresponds to an almost tenfold increase in acidity compared with today.”
The teeth were then examined under the microscope at the Center for Advanced Imaging at HHU. Fraune: “At a pH-value of 7.3, we observed surface damage such as cracks and holes, increased root corrosion and structural deterioration. In addition, the surface morphology was more irregular, which can weaken the structure of the teeth and make them more susceptible to breaking.”
Timo Haussecker, Aquarium Curator at Sealife Oberhausen and co-author of the study: “As we only examined naturally shed teeth, the study does not take account of any repair processes, which may occur in living organisms. The situation may therefore be more complex in living sharks as they may be able to remineralise damaged teeth, albeit with greater energy expenditure.”
“Even moderate decreases in pH-values can impact more sensitive species with slow tooth replacement cycles or have a cumulative effect over the course of time,” adds Baum. “For sharks, it is certainly of great importance that the pH-value of the oceans remains near the current average of 8.1.”
Maximilian Baum and Professor Fraune conclude: “Our research reminds us that anthropogenic changes can impact entire food webs and ecosystems.”
Esta é uma notícia preocupante e um exemplo de como a química atmosférica impacta diretamente a biologia marinha. O estudo da Universidade Heinrich Heine Düsseldorf toca em um ponto crítico: a integridade estrutural da fluorapatita, o mineral que compõe o esmalte dos dentes de tubarão.
Aqui está uma análise do que está acontecendo quimicamente e por que isso é tão vital para esses predadores:
O Processo de Acidificação
Normalmente, o oceano é levemente alcalino. No entanto, à medida que absorve o CO2 da atmosfera, ocorre uma reação química que forma o ácido carbônico (H2CO3), reduzindo o pH da água.
A Estrutura do Dente: Diferente dos humanos, cujos dentes são feitos de hidroxiapatita, os tubarões possuem dentes revestidos de fluorapatita. Isso os torna naturalmente mais resistentes e "pré-fluoretados".
A Corrosão: O estudo mostrou que a exposição prolongada (cerca de 9 semanas) a um pH mais baixo causa uma corrosão visível na superfície dos dentes.
O Impacto Mecânico: Com a superfície danificada, os dentes perdem sua "afiação" e tornam-se propensos a rachaduras e quebras durante a caça.
Abaixo, veja como essa fragilidade afeta o ecossistema como um todo:
| Impacto | Consequência para o Tubarão | Efeito no Ecossistema |
| Eficiência de Caça | Menor capacidade de segurar e cortar presas. | Desequilíbrio nas populações de peixes menores. |
| Gasto Energético | Tubarões precisam trocar de dentes com mais frequência. | O animal gasta mais energia metabólica para regeneração. |
| Sobrevivência | Maior risco de inanição ou infecções bucais. | Perda de predadores de topo, essenciais para a saúde dos recifes. |
Palestina - Música como Resistência
O professor de música Palestiniano Ahmed Muin lidera os seus alunos da Cidade de Gaza com canções a cappella. Em Gaza, até as vozes resistem, erguendo-se acima do zumbido incessante dos drones.
Carry, carry the camel, oh camel driver
Sheel ya hawatak b’Allah
I protect you by God
Dem Al shaheed mutaar bil hael
The martyr’s blood is scented with cardamom
Leel ya Leelo
Night, oh night
Wael wael al thaleme
Woe, woe to the oppressor
Wael Wello min Allah
Woe to him from God
La Ishar ala nujoom el leel
Who stays up with the stars of the night
Ana da wellu
I will heal him
No dia 14 de agosto de 2025 o Cardeal Matteo Zuppi, presidente da Conferência Episcopal Italiana e arcebispo de Bolonha. , conduziu um vigília de oração que durou cerca de sete horas, durante a qual leu em voz alta, nome por nome, 12.211 crianças palestinianas e 16 crianças israelitas mortas desde o início da guerra entre Israel e Hamas, a partir de 7 de outubro de 2023. O registo continha 469 páginas, e os nomes foram lidos num local simbólico: as ruínas da igreja de Casaglia, em Monte Sole de Marzabotto, palco de um massacre nazi em 1944.
terça-feira, 26 de agosto de 2025
Constantes ondas de calor estão a acelerar o envelhecimento humano
Os investigadores acompanharam 25.000 adultos em Taiwan durante 15 anos e descobriram que mesmo aumentos modestos na exposição a ondas de calor fizeram com que a sua idade biológica ultrapassasse a idade real, particularmente para os trabalhadores manuais que passam mais tempo ao ar livre.
Em apenas dois anos, a experiência de quatro dias extra de onda de calor correlacionou-se com um aumento de nove dias na idade biológica e, para alguns trabalhadores, este aumento saltou para 33 dias.
Os cientistas afirmam que as descobertas marcam uma “mudança de paradigma” na nossa compreensão dos efeitos a longo prazo do calor na saúde, colocando os seus danos em pé de igualdade com o tabagismo, o consumo excessivo de álcool ou uma dieta inadequada.
A investigação concluiu que à medida que as ondas de calor se tornam mais intensas e frequentes devido às alterações climáticas, milhares de milhões de pessoas- especialmente as comunidades mais desfavorecidas, sem acesso a aparelhos de refrigeração e quem trabalha ao ar livre, ou a habitação segura - são mais afetadas por esta exposição e enfrentam um maior risco de envelhecimento precoce e de doenças crónicas. Os danos começam cedo na vida e podem persistir durante toda a vida, agravando as disparidades na saúde. Esta investigação realça a necessidade urgente de ações climáticas globais e de estratégias locais de saúde pública para proteger as populações dos efeitos ocultos e permanentes do aumento das temperaturas.
Outro estudo muito semelhante e complementar foi publicado na Science Advances em fevereiro de 2025 por investigadores da USC, que se concentrou especificamente em adultos mais velhos nos EUA e utilizou relógios epigenéticos para mostrar que aqueles em regiões quentes (como Phoenix) envelheciam biologicamente até 14 meses mais rápido ao longo de alguns anos.
Sobre a trilogia de Margaret Atwood
Estive a ler a trilogia de Margaret Atwood: "Órix e Crex", "O Ano do Dilúvio" e "Maddaddman". Excelente. Temos que ler os 3 livros porque há interconexão narrativa. Sem ser desmancha-prazeres, eis alguns tópicos que podem despertar-vos para a sua leitura.
1. Órix e Crex
Narrado sobretudo por Jimmy (também chamado "Homem das Neves"), sobrevivente de uma catástrofe global.
Explora a amizade de Jimmy com Crake, um génio da biotecnologia que cria os "crakers", seres humanos geneticamente modificados para viver sem violência, religião ou competição.
Órix, figura misteriosa, é uma mulher marcada pela exploração sexual e torna-se chave na relação entre os dois amigos e na criação dos crakers.
O romance aborda bioengenharia, extinção, consumismo e desumanização.
2. O Ano do Dilúvio
Corre em paralelo temporal a Órix e Crex, mas com outra perspectiva. Segue Toby e Ren, membros de uma eco-seita chamada "Os Jardineiros de Deus", que defendem a preservação da vida e uma ética ecológica em contraste com o mundo corporativo e destrutivo em redor.
Mostra a degradação ambiental, a exploração animal e a desigualdade social.
O "Dilúvio Secular" anunciado pelos Jardineiros (uma catástrofe biotecnológica/pandémica) concretiza-se.
3. MaddAddam
Conclui a trilogia, unindo as linhas narrativas anteriores.
Mostra os sobreviventes humanos a tentar conviver com os crakers e outras espécies geneticamente alteradas.
Inclui a narrativa de Zeb e da sua ligação com Toby, trazendo à luz histórias sobre fanatismo, violência e resistência.
Explora como mitos e narrativas são criados para dar sentido ao mundo e como podem fundar novas sociedades.
Temas centrais da trilogia
Biotecnologia e manipulação genética – questiona os limites éticos da ciência.
Colapso ecológico e social – crítica ao capitalismo corporativo, à exploração ambiental e ao consumismo.
Religião e mito – mostra como as histórias moldam identidades e sobrevivência.
Humanidade vs. pós-humanidade – pergunta o que significa ser humano num mundo de criações artificiais.
Esperança e reconstrução – apesar da distopia, abre espaço para reinvenção e novas formas de vida.
Em resumo, a Trilogia de Margaret Atwood, é uma poderosa reflexão sobre o futuro da humanidade perante as crises ecológicas e tecnológicas que ela própria engendra. Ao explorar a manipulação genética, o colapso ambiental e o poder das corporações, a autora expõe os riscos de um progresso sem ética. Mas, para além da distopia, a obra sublinha a necessidade vital das narrativas: são as histórias — mitos, memórias e lendas — que permitem aos sobreviventes reinventar-se e encontrar sentido. Em última análise, Atwood mostra que contar histórias é uma forma de resistir, de criar comunidade e de sobreviver.sábado, 23 de agosto de 2025
Entre o negro das cinzas e as cores de uma borboleta: o pouco que resta do “vazio” da Bio-Reserva do Vale da Aveleira
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| Logo no primeiro dia em que foi à Bio-Reserva verificar os estragos do incêndio, Manuel Malva captou em fotografia uma das "tristezas" que lhe passou pelas mãos: uma borboleta morta, perdida no meio do cinzento que ainda há poucos dias tinha sido verde. O vice-presidente da Milvoz acredita que a borboleta noturna quadripunctaria tenha morrido devido à onda de calor enquanto voava, caindo depois no solo já ardido. |
Um incêndio devastador consumiu, na passada sexta-feira, grande parte da Bio-Reserva Integral do Vale da Aveleira, situada na encosta norte da Serra da Lousã, no distrito de Coimbra. Manuel Malva, biólogo e vice-presidente da Milvoz - Associação de Proteção e Conservação da Natureza -, revela em entrevista à SIC Notícias, que arderam entre 55 a 60 hectares de um total de 70 hectares que compõem a área total da reserva.
Reconhecida pela “elevada importância de conservação” e integrada na rede Natura 2000, a Bio-Reserva Integral do Vale da Aveleira “tem, ou tinha” (como Manuel Malva ainda hesita em afirmar), uma vegetação representativa de séculos, tornando-se um bosque raro, uma vez que são cada vez menos aqueles que conseguem resistir.
O fogo começou no dia 14 de agosto no Candal, uma aldeia de xisto no coração da Serra da Lousã, e “em poucas horas, assumiu uma dimensão e violência avassaladoras”. Ao final da manhã do dia seguinte, a Bio-Reserva já se encontrava cercada pelas chamas, “num cenário marcado por temperaturas muito elevadas e fenómenos extremos de vento”, descreve o comunicado da Milvoz.
Ainda numa primeira avaliação, foi possível perceber que se preservaram algumas das zonas mais nucleares do bosque, mas “uma percentagem muito grande, na sua totalidade, foi completamente perdida ou está severamente afetada”, lamenta o biólogo.
Num cenário de “verdadeira calamidade ecológica”, como descreve a associação, “grande parte dos habitats maduros sucumbiu ao fogo", incluindo os inúmeros castanheiros centenários, o medronhal climácico, os azinhais, os adernais e parte dos bosques de azereiro.
“As dezenas de castanheiros centenários que tínhamos eram absolutamente monumentais. Eram uma das joias da Bio-Reserva. Íamos iniciar um projeto para datar algumas dessas árvores, que poderiam ter 400 ou até 500 anos, mas apesar de ainda não termos conseguido contabilizar, perdemos a maioria”, antecipa o vice-presidente da Milvoz.
“Foi uma mortandade gigantesca”
O fogo avançou a uma “velocidade assustadora” e “grande parte dos animais não conseguiu escapar”.
Ainda sem conseguir avançar números, o biólogo explica que, durante as visitas ao terreno, viu muitos animais “cansados, queimados ou feridos”, que terão agora de “dispersar para áreas da serra que não arderam, embora muitos provavelmente não o conseguirão fazer”.
“É uma tristeza muito profunda caminhar numa paisagem em que tudo foi reduzido a cinzas e, de repente, encontrar uma borboleta tão singela, tão frágil, que de alguma maneira é um dos poucos elementos que resistiu ao local, além do negro e das cinzas”, descreve.
“É uma tragédia que já estava anunciada, mas os culpados irão ser chamados à sua responsabilidade”
Manuel Malva alerta que a Serra da Lousã tem um “problema ecológico grave”, resultado de “décadas de inação por parte das entidades que que supostamente gerem a serra, com particular foco no Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)".
"A invasão biológica por acácias foi ignorada durante anos, e ninguém demonstrou interesse em controlar a situação quando ainda havia tempo”, aponta.
“O Estado Português acumula mais de 10 anos de incumprimento. Ao longo desse tempo deveriam ter sido implementadas medidas de gestão ativa para a preservação desta Zona Especial de Conservação e para evitar tragédias como as que acabam de acontecer”, salienta o comunicado da Milvoz.
O biólogo considera tratar-se de uma "tragédia que já estava anunciada”, sobretudo pelo “enorme desleixo” por parte das entidades estatais face à “gestão da paisagem da serra, que nunca foi feita devidamente”.
"Temos extensíssimas áreas da serra que estão cobertas por eucaliptos, por acácias, por pinhal não gerido e esse tipo de floresta é um autêntico barril de pólvora”, acrescenta em entrevista, salientando que "esta situação da Lousã é representativa de um cenário que se multiplica por toda a paisagem do Norte e Centro de Portugal".
A solução, conclui o vice-presidente da Milvoz, passa por atuar na base do problema: “tornar a paisagem muito mais resistente e resiliente a estas catástrofes".
Para já, fica a sensação de “desilusão” e “vazio” naqueles que conheciam bem a Bio-Reserva Integral do Vale da Aveleira e a viram, em questão de horas, passar de um local "tão pujante de vida’ para um "cenário lunar, completamente negro”, retrata Manuel Malva.
quinta-feira, 21 de agosto de 2025
Antes que tudo arda
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| Incêndio em Avô (Oliveira do Hospital) |
Em 2017, Portugal enfrentou uma das suas maiores tragédias coletivas: o incêndio de Pedrógão Grande. Uma ferida que destruiu vidas, memórias e esperanças, e expôs a vulnerabilidade estrutural do país. Nesse ano, após ouvir diferentes vozes ligadas à prevenção e ao combate, preparei uma breve síntese sobre a situação da floresta portuguesa. O retrato era conhecido, mas revelou-se devastador: um mosaico desordenado de pequenas propriedades essencialmente privadas, muitas abandonadas; política florestal errática e ausente no terreno; uma vigilância insuficiente; proteção civil dependente de participação voluntária; meios aéreos privados caros, mas ainda assim ausentes; comunidades rurais envelhecidas e esquecidas. Em síntese: uma floresta frágil, altamente inflamável, e um Estado incapaz de salvaguardar o interesse público.
Passaram oito anos. Houve avanços: destacaria o BUPi e os processos de emparcelamento que abriram caminho para resolver a fragmentação fundiária; a criação da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) e a sua ação programática trouxe mais visibilidade e expressão territorial à política florestal; a vigilância tecnológica progrediu; a proteção civil incrementou a capacidade de intervenção e preparação; a contratação de meios aéreos tornou-se mais transparente, mas ainda assim ineficaz.
No essencial, os bloqueios estruturais mantêm-se intactos. A floresta continua dividida, sem escala para uma gestão eficiente e transformadora. As políticas públicas do setor transitaram entre ministérios, mas permanecem sem coerência e incapazes de inspirar a confiança que o problema exige. A vigilância tecnológica cobre apenas parte da realidade diversa do país. A proteção civil, mais preparada, continua excessivamente dependente de esforço voluntário. O papel das Forças Armadas mantém-se episódico e sem coordenação local. Os projetos-piloto de mosaicos resilientes existem, mas são insuficientes para travar tendências e implementar a transição florestal, e as comunidades rurais continuam esmagadas pela burocracia e pelo abandono.
A verdade é que pouco mudou. A floresta portuguesa continua refém de interesses sobrepostos, centralismo sufocante e ausência de reformas estruturais que integrem floresta, agricultura, água e biodiversidade num mosaico vivo e resiliente. A acumulação descontrolada de biomassa, alimentada pelo abandono rural, transformou vastas áreas em depósitos de combustível à espera da próxima ignição. E manter grandes extensões de monocultura inflamável, num contexto climático cada vez mais adverso — com secas mais longas, ondas de calor mais intensas e ciclos de incêndio cada vez mais prolongados — é prolongar a catástrofe. É urgente diversificar espécies, apostar em ecossistemas resilientes, combinar produção florestal com regeneração ambiental e colocar a floresta ao serviço da segurança, da economia e da vida.
Esta mudança exige também um novo contrato com a indústria. O setor não pode ser assistente ou comprador de matéria-prima barata e combustível para exportação. Precisa de assumir corresponsabilidade na regeneração, investir em gestão sustentável, inovar em produtos de maior valor acrescentado e comprometer-se com a transição ecológica do país.
O futuro exige cinco escolhas inadiáveis: governança descentralizada com técnicos e meios próximos do território; uma reforma fundiária realista que permita gestão conjunta; a profissionalização parcial do combate, associada à prevenção; a assunção realista e firme do nexo entre floresta, agricultura, água, biodiversidade e clima; e, sobretudo, a reconstrução da confiança social, devolvendo às comunidades o papel de parceiras centrais, com incentivos claros e retorno económico justo.
Se 2017 foi o ano da tragédia, e 2018–2025 o tempo da resposta insuficiente, o próximo ciclo só pode ser o da reforma estrutural. Ou teremos a coragem de transformar a floresta portuguesa em alavanca de resiliência e futuro, ou continuaremos prisioneiros de um ciclo de fogo, abandono e luto.
Antes que tudo arda.
segunda-feira, 18 de agosto de 2025
A maior desregulamentação climática da história dos EUA: Trump quer revogar limites às emissões
Em 29 de julho de 2025, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), sob a liderança de Lee Zeldin, anunciou a proposta de revogar o chamado endangerment finding — a declaração científica, aprovada em 2009, ainda no governo Obama, de que os gases com efeito estufa (nomeadamente CO₂) representam uma ameaça à saúde pública e ao bem-estar da população, anunciou a revista brasileira Veja. Esta constatação é a pedra angular legal que permite à EPA impor limites às emissões provenientes de veículos, centrais elétricas e operações de combustíveis fósseis.
Zeldin caracterizou esta proposta como “a maior ação de desregulamentação da história dos EUA”, afirmando que remover esta base legal abriria caminho para eliminar as normas existentes e impedir futuras regulações federais. A Veja refere ainda que o líder afirmou: “Estamos a encerrar o que chamo de graal sagrado da religião do clima”.
Para conseguir implementar com mais segurança as suas ideias, a Folha de São Paulo, diz ainda que Trump anunciou cortes de cerca de 65 % no pessoal da EPA, reduzindo significativamente a capacidade operacional da agência para fiscalizar e implementar políticas ambientais.
Mas ainda há luz ao fundo do túnel. Trump ainda não venceu. Um artigo de um só planeta diz que grupos ambientalistas e analistas jurídicos alertam que o plano de Trump enfrenta barreiras legais. Segundo eles, a constatação de 2009 baseia-se numa decisão do Supremo tribunal de 2007 que reconheceu que os gases com efeito de estufa podem ser considerados poluentes atmosféricos. A mesma fonte adverte também que o representante do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC), David Doniger, é “praticamente impossível” que a EPA crie uma justificativa sólida para anular a constatação de 2009.
E porque isto é um problema? Por vários motivos, mas um dos mais importantes é que os EUA são o segundo maior emissor do mundo, pelo que andar para trás na regulamentação é colocar o planeta em maus lençóis.
Motivação política e expetativas legais
A política ambiental de Trump está inserida num plano estratégico amplo para resgatar a “dominância energética” dos EUA através dos combustíveis fósseis. Lee Zeldin foi nomeado para a EPA com o compromisso de acelerar desregulações e revitalizar a indústria automóvel e de combustíveis fósseis, diz o Diário de Notícias.
A administração afirma que o plano pouparia cerca de 52 mil milhões de dólares em custos (cerca de 47,84 mil milhões de euros) de conformidade regulatória. “No entanto, analistas legais e ambientais preveem batalhas judiciais intensas, por ferir decisões do Supremo Tribunal que sustentam a autoridade da EPA desde 2007”, lê-se no The Guardian.
Especialistas destacam ainda que empresas já investiram pesadamente em tecnologias limpas e transição energética — e que a instabilidade regulatória pode afastar investimentos duradouros, segundo a Reuters.
Para o The Guardian, se concretizadas, as medidas anunciadas representam um retrocesso sem precedentes na política climática dos Estados Unidos — com efeitos na saúde pública, na confiança institucional, no mercado global de energia limpa e na liderança internacional na emergência climática. Muitas destas medidas ainda estão sujeitas a consultas públicas (fase de 45 dias) e devem enfrentar desafios legais significativos nos tribunais federais.
Revogação das normas de emissões veiculares
Segundo noticiou a agência Reuters, em consequência da revogação da base legal, a EPA pretende também anular todas as normas federais de emissões de gases de veículos e motores, incluindo os limites para CO₂ emitido por escape. A revisão abrangerá também regras associadas, como eficiência de ar condicionado automóvel e monitorização de baterias. O impacto será particularmente grave no setor de transportes — o maior responsável pelas emissões nos EUA.
O relatório de "avaliação crítica" encomendado pelo regime de Trump para justificar este retrocesso na regulamentação climática dos EUA contém pelo menos 100 afirmações falsas ou enganosas, de acordo com um inquérito da Carbon Brief que envolveu dezenas de cientistas climáticos de renome.
Reversão das normas de emissões das centrais elétricas
Estas medidas já estavam a ser cozinhadas há muito. Desde junho de 2025, a administração Trump anunciou a intenção de reverter regulamentos que limitavam as emissões de dióxido de carbono e poluentes tóxicos, como o mercúrio, emitidos por centrais a carvão e gás natural. O argumento oficial é “que essas normas elevam os custos da eletricidade às famílias, enquanto Zeldin defende um “equilíbrio entre proteção ambiental e economia doméstica”, escreve o UOL Notícias.
Além disso, segundo noticiou o site da EuroNews, o governo de Trump considera que centrais elétricas não aumentam a poluição do ar, contudo, a mesma fonte afirma que 19 cientistas climáticos dizem que isso é um “absurdo” qualificando como factualmente incorreta a afirmação de que essas emissões “não contribuem significativamente para a poluição do ar”.
Retirada dos EUA do Acordo de Paris
Também não nos podemos esquecer que a 20 de janeiro de 2025, Donald Trump ordenou a segunda retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, marcando o país como um dos poucos — como Irão, Líbia e Iémen — fora do pacto internacional de redução de emissões, mas 37 estados ainda estão comprometidos com o clima, representando 70% do PIB dos EUA por isso, ainda há esperança.
domingo, 17 de agosto de 2025
"Vamos embora", disse a ministra quando ia a ser confrontada com o que se está a passar nos incêndios
Spark & Valer Sabadus - Seemann
A canção “Seemann” (em alemão, Marinheiro) é originalmente de 1960, interpretada por Lolita, um grande êxito da época.
O Rammstein fez uma versão em 1996 no álbum Herzeleid.
No contexto da banda, a letra mantém a essência melancólica da original: fala de solidão, despedida e a ideia de um marinheiro que parte para longe, deixando alguém para trás.
Komm in mein Boot
ein Sturm kommt auf
und es wird Nacht
ein Sturm kommt auf
und es wird Nacht
Wo willst du hin
So ganz allein
treibst du davon
So ganz allein
treibst du davon
Wer hält deine Hand
wenn es dich
nach unten zieht
wenn es dich
nach unten zieht
Wo willst du hin
So uferlos
die kalte See
So uferlos
die kalte See
Komm in mein Boot
Der Herbstwind hält
die Segel straff
Der Herbstwind hält
die Segel straff
Jetzt stehst du da an der Laterne
mit Tränen im Gesicht
Das Tageslicht fällt auf die Seite
der Herbstwind fegt die Straße leer
mit Tränen im Gesicht
Das Tageslicht fällt auf die Seite
der Herbstwind fegt die Straße leer
Jetzt stehst du da an der Laterne
hast Tränen im Gesicht
Das Abendlicht verjagt die Schatten
die Zeit steht still und es wird Herbst
hast Tränen im Gesicht
Das Abendlicht verjagt die Schatten
die Zeit steht still und es wird Herbst
Komm in mein Boot
Die Sehnsucht wird
der Steuermann
Die Sehnsucht wird
der Steuermann
Komm in mein Boot
Der beste Seemann
war doch ich
Der beste Seemann
war doch ich
Jetzt stehst du da an der Laterne
hast Tränen im Gesicht
Das Feuer nimmst du von der Kerze
die Zeit steht still und es wird Herbst
hast Tränen im Gesicht
Das Feuer nimmst du von der Kerze
die Zeit steht still und es wird Herbst
Sie sprachen nur von deiner Mutter
So gnadenlos ist nur die Nacht
Am Ende bleib ich doch alleine
Die Zeit steht still
und mir ist kalt, kalt, kalt, kalt
So gnadenlos ist nur die Nacht
Am Ende bleib ich doch alleine
Die Zeit steht still
und mir ist kalt, kalt, kalt, kalt
sexta-feira, 15 de agosto de 2025
Cigarettes After Sex - Sunsetz
quinta-feira, 14 de agosto de 2025
Serviços prestados pelos abutres podem contribuir milhões de euros para economia nacional até 2048
Apesar da má reputação de que possam gozar, os abutres são espécies fundamentais para a manutenção da saúde e bom funcionamento dos ecossistemas.
Enquanto necrófagos, são elementos centrais dos ciclos de nutrientes, “reciclando” a matéria orgânica de animais mortos, impedindo, por exemplo, o surgimento e proliferação de doenças causadas pela decomposição dos cadáveres.
Agora, um relatório divulgado recentemente pela organização Vulture Conservation Foundation, no âmbito do projeto LIFE Aegypius Return, revela que esses contributos podem ser quantificados e mais valorizados, e são da ordem dos vários milhões de euros.
Os cientistas calculam que os serviços de ecossistema prestados pelos abutres-pretos (Aegypius monachus), pelos grifos (Gyps fulvus) e pelos britangos (Neophron percnopterus, também conhecidos como abutres-do-egito) ascenderam aos 668 mil euros em 2023. O valor divide-se em cerca de 313 mil euros em custos evitados com a eliminação de carcaças (por exemplo, com logística e transporte), de 163 mil em emissões de gases com efeito de estufa (gerados pelo transporte das carcaças para incineração e pela própria incineração) e, possivelmente, 192 mil provenientes do ecoturismo relacionado com os abutres (como atividades de observação das aves).
No entanto, a estimativa para 2048 pode mesmo chegar a um valor acumulado (desde 2023) de 18,6 milhões de euros, em custos evitados e em receitas de turismo de Natureza. É por volta desse ano que os especialistas preveem que, mantendo-se as ações de conservação em curso, a população de abutre-preto em Portugal atingirá os 1.500 indivíduos. Sem os esforços de conservação, a população nacional de abutre-preto, atualmente estimada nas 600 aves, poderá cair para os 100 indivíduos, o número que se registava antes das intervenções com vista à proteção e recuperação da espécie no país.
Excluindo as contribuições do ecoturismo e contabilizando somente os contributos relativamente à eliminação de carcaças e às emissões de gases com efeito de estufa, as três espécies de abutres podem gerar 2,44 milhões de euros entre 2023 e 2027, com esse valor a chegar aos cinco milhões até 2032 e aos 13,7 milhões até 2048.
Para os autores do relatório, “estas estimativas de valor constituem uma primeira indicação da importância dos abutres em Portugal para as atividades humanas e para o bem-estar”.
No entanto, ressalvam que “esta análise abrange apenas um subconjunto dos serviços dos ecossistemas prestados pelos abutres”, pelo que investigações futuras devem debruçar-se sobre aspetos como “a estimativa do valor de existência atribuído pela população portuguesa ao aumento das populações de abutres, bem como a avaliação do retorno do investimento em atividades de conservação”.
quarta-feira, 13 de agosto de 2025
Publicado o Inquérito à Juventude Europeia - o ambiente e as alterações climáticas são a sua prioridade para a UE
No Inquérito à Juventude da UE, publicado este ano, os jovens classificaram as suas principais preocupações:
💶40% aumento dos preços, custo de vida
🌳33% ambiente e alterações climáticas
💼31% situação económica e criação de emprego
O ambiente e as alterações climáticas são as prioridades mais elevadas em:
Itália 46%
Dinamarca 44%
França 40%
Entre os jovens que já não frequentam a escola, aqueles que concluíram o ensino pós-secundário ou superior são consideravelmente mais propensos a escolher o ambiente e as alterações climáticas como prioridade para a UE.
Lê aqui o relatório completo.
Agostinho da Silva
"Temos, sobretudo, de aprender duas coisas: aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largo por dentro, para o mundo todo poder entrar"
terça-feira, 12 de agosto de 2025
A Conexão Humana com a Natureza Está a Diminuir Drasticamente — O Que Isso Significa?
Um estudo recente liderado pelo professor Miles Richardson, da Universidade de Derby, revela que a ligação das pessoas à natureza diminuiu mais de 60% desde 1800. Esta queda dramática reflete-se, por exemplo, na forma como palavras como “rio”, “musgo” e “flor” praticamente desapareceram dos livros ao longo dos últimos 200 anos.
O estudo, publicado na revista científica Earth, utilizou um modelo computacional para analisar dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e a falta de transmissão intergeracional do contacto com a natureza.
Nos últimos dois séculos, o mundo mudou profundamente. A industrialização, o crescimento das cidades, a digitalização e o ritmo acelerado da vida moderna têm afastado cada vez mais as pessoas da natureza. Menos tempo passado ao ar livre e um quotidiano dominado por ecrãs levam a que as novas gerações cresçam com menos contacto com ambientes naturais.
Esta desconexão tem consequências importantes para a saúde física e mental, para o nosso bem-estar e para a forma como encaramos a proteção ambiental. Estudos mostram que passar tempo na natureza ajuda a reduzir o stress, melhora a concentração e fortalece o sistema imunitário. Além disso, quem conhece e valoriza a natureza está mais propenso a agir para a preservar.
O declínio no uso de palavras ligadas à natureza em livros não é apenas uma curiosidade linguística — é um sinal cultural de que a nossa relação com o mundo natural está a enfraquecer. Se não formos capazes de recuperar este contacto, corremos o risco de perder a empatia e o cuidado necessários para proteger o ambiente que sustenta a vida.
Para reverter esta tendência, é essencial que políticas públicas e iniciativas educativas incentivem a aproximação das pessoas à natureza, valorizando o património natural e promovendo experiências ao ar livre. O estudo de Richardson sugere que intervenções eficazes incluem a introdução das crianças à natureza desde cedo, como em escolas do bosque, e a expansão significativa dos espaços verdes urbanos — até 1.000% em algumas áreas. Estas mudanças podem ajudar a restaurar a ligação das pessoas à natureza e promover um futuro mais sustentável.
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Em 2025 a civilização ultrapassou 7 dos 9 limites planetários
Este infográfico poderia estar nas primeiras páginas de todos os jornais do mundo, mas dificilmente circula fora dos fóruns científicos e ativistas.
Dos nove limites planetários que, segundo se diz, garantem um planeta habitável por humanos, até 2025 a civilização atual terá ultrapassado sete, com a controversa acidificação dos oceanos como o novo ponto de não retorno ou "ponto de inflexão".
Em 2009, eram duas, em 2015, eram três e, em 2023, já eram seis — cada faixa vermelha é um aviso ignorado para um futuro devorado pelo presente, de acordo com este artigo.
domingo, 10 de agosto de 2025
Vergonha
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Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 07/08/2025 |
Numa jogada de mau gosto, o Hamas decidiu publicar fotografias de dois reféns israelitas em seu poder, famélicos e abatidos, acompanhadas da legenda “eles comem o mesmo que nós”, numa referência à estratégia de fome adoptada pelo Governo de Israel em Gaza. Netanyahu, como era de esperar, saltou logo sobre a oportunidade, acusando o Hamas de barbárie e anunciando a total ocupação de Gaza: esperava, talvez, que a fome que ele inflige a três milhões de pessoas (proibindo-as inclusivamente de pescar no seu mar!) não afectasse a alimentação dos reféns israelitas. E, em Bruxelas, Kaja Kallas, a responsável pela política externa da UE e que jamais teve uma palavra a condenar o genocídio em Gaza, acompanhou Netanyahu na sua indignação e exigiu a imediata libertação dos reféns, sem pedir nada em troca da parte de Israel. Num momento em que finalmente se levantam vozes dentro de Israel a condenar a ofensiva em Gaza — vozes de antigos chefes militares e de segurança, de organizações humanitárias ou do escritor David Grossman, falando também em genocídio —, a UE, enquanto organização, continua a fingir que não estamos a assistir em Gaza à mais sinistra limpeza étnica levada a cabo por um Governo dito democrático. Mas, como disse Yuli Novak, da organização israelita B’Tselem, “isto não poderia acontecer sem o apoio do mundo ocidental”.
Dentro da UE e escudado na sua inércia, Portugal tem sido um caso notável de hipocrisia e cobardia. Eu chego a ter vontade de rir ao assistir aos contorcionismos explicativos do ministro Paulo Rangel para tentar não ter posição sobre o assunto, fingindo que a tem, numa patética estratégia de “agarrem-nos senão reconhecemos o Estado da Palestina”. Primeiro, confiante na inércia de toda a União, Rangel afirmava que o reconhecimento, a existir, deveria ser uma decisão conjunta dos 27. Os reconhecimentos unilaterais feitos por Espanha e Irlanda não o abalaram, mas ficou claramente sem chão quando Macron anunciou que a França ia reconhecer o Estado palestiniano e a Inglaterra fez o mesmo. Aí, Rangel fez uma inolvidável intervenção na ONU, em que garantiu à assembleia mundial que Portugal tinha detectado uma alteração histórica na posição palestiniana, a qual abria caminho a um possível reconhecimento. Em suma, enquanto o PM inglês colocava exigências a Israel sob a ameaça de reconhecer a Palestina independente, o nosso ministro partia do princípio oposto para sustentar, sem se desmanchar, que a Autoridade Palestiniana aceitara as exigências de Luís Montenegro para poder ser reconhecida por Portugal como Estado. Note-se: a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia e não o Hamas em Gaza. Entre essas exigências de Montenegro, Rangel destacou a reforma das instituições palestinianas e a realização de eleições: patéticas demandas para quem acabava de regressar de uma cimeira da inútil CPLP realizada na Guiné-Bissau — um país cujo Presidente amordaçou a democracia no seu país e governa sem ir a eleições — e antes de a chefia da mesma CPLP ser transmitida à Guiné Equatorial — onde jamais houve eleições e persiste há décadas uma ditadura familiar, brutal e corrupta como nenhuma outra. Sim, Portugal é hoje um exemplo eloquente da podridão moral em que vegeta a União Europeia, governada por políticos sem respeito pelo passado e pelos valores europeus.
Esta União Europeia envergonha hoje qualquer europeu que antes se orgulhava de pertencer a um espaço político onde a ética e a coerência de princípios contavam. Na cimeira da NATO, a União, com a honrosa excepção da Espanha, ajoelhou-se aos pés de Trump, aceitando gastar 5% do PIB em armas — e americanas, de preferência. Fica como símbolo dessa capitulação o português Luís Montenegro tentando dar “uma palavrinha” particular a Trump, dizendo-lhe que éramos velhos amigos dos Estados Unidos e sugerindo alguma misericórdia para connosco na rajada das tarifas, e o português António Costa, presidente do Conselho Europeu, acalmando as indignações surdas com a previsão de que o que a União cedera nas armas pouparia nas tarifas.
Viu-se. Na Escócia, Ursula von der Leyen começou por ser ainda mais humilhada por Trump do que o fora por Erdogan. Na Turquia, não tinha cadeira para se sentar, no clube de golfe privado de Donald Trump, na Escócia, para onde foi convocada, teve uma cadeira para se sentar enquanto esperava longamente que o Presidente americano acabasse um jogo de golfe com o filho e tivesse disponibilidade para a receber. Assim tratada como serventuária — ela e a Europa que representa —, não admira que depois tivesse sido sujeita a uma capitulação total e humilhante pelo abusador profissional americano. Von der Leyen aceitou um aumento das tarifas sobre as exportações europeias para os Estados Unidos de 15%, quase mil vezes o que vigorava e em troca de tarifas de 0% para as exportações americanas dirigidas à Europa. Desistiu de taxar as tecnológicas americanas ou de minimamente controlar os seus abusos. Aceitou comprar 750 mil milhões de dólares de energia aos Estados Unidos, assim interrompendo a estratégia de descarbonização em que a UE estava a ser pioneira e substituindo-a por uma total dependência energética de um só país — muito para lá daquilo que se criticava aos países europeus que compravam energia à Rússia. Agora, os EUA passam a determinar a política energética da Europa, aumentam livremente os preços, e Trump e os seus amigos do petróleo, negacionistas das alterações climáticas, encontram um mercado garantido à medida das suas ambições. Mas a senhora foi ainda mais longe, comprometendo-se a investir 600 mil milhões de dólares nos Estados Unidos e a gastar em armas americanas o grosso do investimento a ser levado a cabo para atingir os tais 5% do PIB em armamento. Se tudo isto fosse exequível e executado, acabava a Europa que conhecemos: livre, próspera, orgulhosa do seu sistema social. Mas, mesmo sem o podermos ainda dizer, Von der Leyen, que já enxovalhara a União e os valores europeus com o seu silêncio cúmplice perante o genocídio em Gaza, rematou agora a sua prestação prostrando-se aos pé de um fora-da-lei internacional e dando-lhe tudo o que ele queria, na esperança de o conseguir apaziguar. Mas até nisso esta funesta alemã que nos calhou em sorte está errada: quando se cede uma vez perante a intimidação e a chantagem, está escrito que se terá de ceder mais vezes. Trump é um vampiro que precisa de se alimentar todos os dias do sangue dos fracos, dos indefesos, dos que se ajoelham e dos que ele inveja.
Os tempos vão maus e mesmo incompreensíveis para quem gostaria de se orgulhar de ser português e europeu. Resta-nos ter vergonha: pode ser que eles reparem.
sábado, 9 de agosto de 2025
Lhasa De Sela - Anywhere On This Road
A música 'Anywhere on this Road' de Lhasa de Sela é uma reflexão profunda sobre a jornada da vida, a busca por pertencimento e os desafios emocionais que enfrentamos ao longo do caminho. A letra começa com a artista falando sobre sua adaptação a um novo país, uma nova identidade e uma nova língua. Essa transição, embora necessária, não é fácil e carrega um sentimento de perda das raízes e dos lugares que antes eram familiares. A ideia de que 'os lugares que eu costumava estar longe se foram' sugere uma desconexão com o passado e a necessidade de seguir em frente, mesmo quando o caminho é incerto.
A segunda estrofe aborda a persistência e a resiliência. Lhasa encoraja a continuar a jornada sem olhar para trás, mesmo quando o corpo está cansado e sobrecarregado. A metáfora do corpo dobrando sob o peso simboliza os desafios e as dificuldades que enfrentamos, mas a mensagem é clara: não há lugar para parar, a estrada continua. Essa ideia de movimento constante reflete a natureza implacável da vida e a necessidade de perseverança.
A música também explora temas de amor e medo. Lhasa fala sobre um relacionamento complicado, onde o medo e a desconfiança criam barreiras. O homem que ela ama tem medo de ser dominado, o que cria uma dinâmica de poder e vulnerabilidade. No entanto, há um momento de esperança e transformação quando ela menciona a hora em que a maré está virando. Esse momento simboliza a possibilidade de superação e renovação, onde a escuridão e a angústia podem ser deixadas para trás. A música, portanto, é uma meditação sobre a resiliência, a busca por pertencimento e a complexidade das relações humanas.


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