sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

A dificuldade que a Europa tem em aprender


Carlos Branco, Major-general e Investigador do IPRI-NOVA 28 Janeiro 2022


A União Europeia, no papel de mediador, que nunca assumiu, devia ter tomado uma postura neutral e perceber as preocupações de segurança do “outro lado”, mesmo que não as compartilhe.

Os recentes desenvolvimentos na Ucrânia são um bom exemplo disso, i.e., da dificuldade que a Europa tem em aprender. Uma guerra na Ucrânia só acontecerá se as forças ucranianas atravessarem a linha que as separa das forças rebeldes, no Donbass.

As recentes declarações do presidente ucraniano Zelensky são preocupantes, quando afirmou ser “o momento de iniciar ações ofensivas para defender o interesse nacional”. Parece não perceber o imenso sofrimento que uma guerra no seu país causará aos seus concidadãos. Como Saakashvili, em 2008, na Geórgia, não compreendeu que nem europeus, nem americanos sacrificarão os seus filhos pela Ucrânia.

Lamentavelmente, a possibilidade de uma operação militar russa no Donbass para evitar o massacre da população russa não é remota.

A União Europeia (UE) parece insensível às consequências de uma guerra na Europa, mesmo que seja de objetivo limitado, apenas ao Donbass ou à Ucrânia. Isso desencadearia uma onda de sanções à Rússia, que afetaria inexoravelmente toda a Europa.

A expulsão da Federação russa do sistema SWIFT, conforme tem sido anunciado repetidas vezes por Washington, teria consequências devastadoras para a Rússia, mas também para a Europa, que ficaria privada do gás natural russo barato. Washington conseguiria finalmente o reiterado objetivo de vender o seu shale gas à Europa, consideravelmente mais caro do que o proveniente da Rússia.

Algumas das consequências desta guerra são difíceis de antecipar. Seguramente que a inflação na Europa sofreria um enorme aumento, e a indústria europeia iria perder capacidade competitiva. A perda de uns seria o ganho de outros.

A materializar-se uma ação militar russa no Donbass, a Europa perderia uma oportunidade única (se é que já não a perdeu) de se afirmar como um ator relevante da cena internacional, atuando como mediador das divergências geopolíticas entre os EUA e a Rússia, em vez de se eternizar no papel de deputy sherif, esvaziando de sentido as suas pretensões de autonomia estratégica por que tanto tem pugnado.

A diplomacia europeia devia ter-se empenhado há muito tempo em pressionar o regime de Kiev a implementar os acordos de Minsk, em particular, a conceder autonomia ao Donbass, e condenar as políticas xenófobas de Kiev relativamente às suas minorias (russa, húngara, romena, etc.), com as quais tem tido uma inaceitável tolerância e complacência.

Mais importante que tudo, nesse papel de mediador, que nunca assumiu, a UE devia ter tomado uma postura neutral e perceber as preocupações de segurança do “outro lado”, mesmo que não as compartilhe. Sem as defender, devia ter procurado perceber a sua racionalidade, tanto securitária como geopolítica, não deixando essas discussões cruciais sobre o seu futuro entregues exclusivamente à diplomacia bilateral dos EUA e da Rússia. Sem esse exercício prévio torna-se difícil promover soluções de compromisso entre as partes litigantes.

Igualmente grave, tem sido a ausência de esforços sérios da UE para promover políticas de “construção de confiança” em território europeu, tanto no quadro da CSDP como da NATO, e a falta de visão em promover uma ordem de segurança europeia, que inclua a Rússia.

No longo prazo, a Europa precisa de uma arquitetura de segurança abrangente que vá além de dois blocos hostis, conforme avançou recentemente o presidente francês Emmanuel Macron. Ou haverá outro caminho que possa conduzir a uma coexistência pacífica no Velho Continente?

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