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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Byung-Chul Han: “Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

O filósofo sul-coreano, um destacado dissecador da sociedade do hiperconsumismo, fala sobre suas críticas ao “inferno do igual”
Berthe Morisot- The bowl of milk, 1892
As Torres Gémeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro... São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do Cansaço, Psicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.

“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.

Autenticidade. Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.

Autoexploração. Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout”. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.

‘Big data’.”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual... Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças... É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos... Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições... Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.

Comunicação. “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.

Jardim. “Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações... Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto... É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.

Narcisismo. Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.

Os outros. Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo... Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.

Refugiados. Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.

Tempo. É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.

Biografia
Byung-Chul Han

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Entrevista a André Barata: "A maior transformação que podemos produzir é começar a desacelerar"

Como se entrevista um filósofo? Divaga-se sobre questões existenciais? Discute-se o sentido da vida? Percorrem-se os conceitos filosóficos? Talvez isto tudo e o seu contrário, partindo de uma palavra que toda gente percebe, mas que temos dificuldade em definir: o tempo.

“Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei…”. Santo Agostinho, “Confissões, Livro XI”.


A radicalidade expressa nesta nova publicação bebe doutros teóricos, mas submete-se sempre à ideia de que tudo se organiza pela velocidade do tiquetaque que dá ritmo à nossa existência. Essa "ditadura" tem, segundo o autor, efeitos sobre tudo:
O sistema económico
“A aceleração do tempo social serve um propósito muito objectivo de industrialização do acontecimento, tornando-o estruturalmente rentável, comercializável, unidade de troca e, uma vez isso, já assimilado ao sistema produtivo, tornando-o uma necessidade produtiva, a que os mecanismos de pressão social através dos media e da cultura hão-de atender. Não como quem diz tempo é dinheiro, com um sentido de urgência, mas com um sentido extractivista de exploração de todo o capital de medida e troca de acontecimentos existente numa porção de tempo.”
O trabalho
“O que vivemos hoje é realmente uma esquizofrenia. De um lado, a necessidade de trabalhar, compulsória; do outro, a inacessibilidade crescente a oportunidades de trabalho. O que seria razoável e justo era o trabalho ser mais livremente escolhido, por um lado, e mais acessível, por outro. Paradoxalmente, passa-se exatamente o oposto. Tornado tão inacessível e tão necessário ao mesmo tempo, as pessoas são pressionadas a aceitar qualquer trabalho e a não fazerem caso da diferença estimável entre trabalho desejável e trabalho indesejável, comprando uma competição absurda, e depressa perdida, com máquinas.”
A propriedade

"São, cada vez mais, bens cujo estatuto de realidade é mais resultado de uma delimitação jurídica do que de uma existência material. São bens com tempo de existência mas sem espaço, ou com informação mas sem corpo. Compramos experiências, uma estadia num airbnb por exemplo, compramos licenças de leitura de um livro ou de audição de uma música. Mas à conta de minuciosas interdições urdidas nas licenças de utilização, deixamos de poder dá-los, emprestá-los, ou largá-los num café para quem os quiser ler. Não somos proprietários dos livros que trazemos no Kindle como somos dos livros que guardamos na estante de casa."

“Enquanto proprietários, deixamos de ter o direito — e a possibilidade — de mobilizar a nossa propriedade contra a lógica de mercado desenhada. Os quadros jurídicos não o autorizam, as plataformas não o permitem.”
O Planeta
“Não será altura de nos perguntarmos o que nos empurra colectivamente para uma crescimento imparável e, assumindo que o sistema capitalista não se sustenta de outra forma, de nos perguntarmos sobre mexer nele alguma coisa?
Não é só estarmos a levar ao limite a capacidade do planeta, sentados nele com um peso muito acima do que recomendaria o Ikea que o tivesse construído. É a necessidade permanente de crescimento ser em si mesma fortemente anti-ecológica.”
As redes sociais
“Há uma aceleração da relação social com o tempo que se verifica de duas maneiras — por um lado, as durações encurtam, desde logo com bens e artefactos consumíveis submetidos à obsolescência programada; por outro, as mudanças multiplicam-se, desde logo com uma intensificação de estímulos que, no limite, procura preencher todos os momentos da existência, dando uma nova actualidade à velha ideia aristotélica de que a natureza tem horror ao vazio. Só não será tanto a natureza, mas uma natureza humana fabricada, de pessoas condicionadas a abominar o vazio quando a todo o instante têm de dar notícia de si numa rede social.”
Serão estas ideias anarquistas, comunistas, revolucionárias, marxistas, socialistas, libertárias, liberais? Haja tempo para as questionar e discutir. Foi o que fizemos.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Um dos maiores mercados negros de partes de animais selvagens está no Facebook

Fonte: Uniplanet

É a rede social mais popular do mundo, com mais de dois mil milhões de utilizadores mensais. Bem-vindos ao Facebook, a casa de um dos maiores mercados negros para a compra e venda de partes corporais de animais ameaçados.

A quantidade de vida selvagem a ser comercializada em grupos fechados e secretos no Facebook é arrepiante”, disse um representante da sociedade de advogados Kohn, Kohn & Colapinto, que apresentou uma queixa contra a rede social no mês passado.

Vimos diversos produtos: chifres de rinoceronte, patas de urso, peles de tigre, répteis e toneladas e toneladas de marfim. Numa altura em que o mundo está a perder 30 mil elefantes por ano, graças aos caçadores furtivos, a quantidade de marfim vendida no Facebook é particularmente chocante.” 
Segundo estimativas das Nações Unidas e da Interpol, o tráfico de produtos de espécies selvagens vale entre 6 e 20 mil milhões de euros por ano

“O que está a acontecer é um fenómeno muito assustador e preocupante”, afirmou Iris Ho, da organização Humane Society, citada pelo New York Post. “Os chifres de rinoceronte valem mais do que o ouro”, contou. “Se os comprarmos na Ásia, após camadas de intermediários, o preço final pode chegar aos 60 mil dólares por quilo, ou mais.”
No mês passado a Kohn, Kohn & Colapinto apresentou uma denúncia à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA, na qual acusou a rede social de Mark Zuckerberg de lucrar conscientemente com este tráfico, através da colocação de anúncios nas páginas geridas por traficantes. 

O Facebook não é um espetador inocente destes crimes”, declarou Stephen Kohn. “Vendeu anúncios nas páginas em que o marfim ilegal estava a ser comercializado.” 

Entre os artigos à venda nos grupos públicos e privados, também se encontravam dentes de tigre (uma espécie em perigo de extinção, com apenas cerca de 2500 espécimes na natureza), peles de leopardo-nebuloso (espécie vulnerável) e chifres de rinoceronte-negro (espécie criticamente em perigo de extinção), entre outros produtos. Muitos dos grupos são de países do sudeste asiático, como o Vietname e o Laos.

A quantidade de marfim comercializada no Facebook é assombrosa”, disse Gretchen Peters, diretora executiva do Observatório das Redes Ilícitas e do Crime Transnacional Organizado. “Vi milhares de posts que continham marfim e estou convencida de que o Facebook está literalmente a ajudar a levar os elefantes à extinção.” 
Em resposta a estas acusações, o Facebook disse que estava a trabalhar no problema. “As nossas normas comunitárias não permitem a caça furtiva, a venda de vida selvagem, de espécies ameaçadas ou das suas partes, e removemos imediatamente este conteúdo assim que nos apercebemos dele”, respondeu a rede social num comunicado oficial.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Petição: Refundar os Serviços Florestais e Aquícolas em Portugal Continental

Azinhal (Quercus rotundifolia)


Nós, cidadãos, que nos preocupamos com o futuro da floresta nacional, considerando que:

• A área florestal com gestão pública, responsabilidade do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), é de 525.400 ha. São património público, e por isso têm gestão plena do ICNF, apenas 55.000 ha. Chamam-se Matas Nacionais e estão sob o Regime Florestal Total. As restantes áreas são constituídas essencialmente por terrenos comunitários (baldios), bem como alguns terrenos particulares e autárquicos, que estão no Regime Florestal Parcial e são geridas pelo ICNF através desse regime num sistema de gestão partilhada com os seus legítimos proprietários.

• O Regime Florestal, “consciencializado e assumido como princípio de Direito e plasmado na lei [notável] em 1901 e 1903”, e que define o uso florestal como uso imperativo (PARDAL 2014), tem sido a base de uma política florestal esclarecida que se quedou nos 525.400 ha referidos, porém, embora a legislação esteja em vigor e toda área de gestão pública atual se enquadre nele, ele tem vindo a ser incorretamente desconsiderado e pouco promovido.

• Portugal é um dos países do mundo com menor percentagem de floresta pública (2% e 55 mil ha, ou 0,055 milhões ha), e definitivamente aquele que tem menos floresta pública na Europa. Manda o bom senso perguntar aos nossos vizinhos espanhóis (27% e 7,396 milhões ha) e franceses (11% e 1,702 milhões ha) porque lhes convém que o Estado disponha de uma percentagem elevada da área florestal.

• Os Serviços Florestais já haviam sido criados em 1886, todavia, foi no âmbito da grande reforma de 1901 que os modernos Serviços Florestais e Aquícolas (SFA) foram criados. Estes serviços fizeram um trabalho notável durante quase um século, com muitos períodos áureos e outros não tão felizes. Importa referir alguns bons um pouco esquecidos: a partir dos finais dos anos 30 do século passado começavam a estruturar-se no seu seio as competências para a conservação da natureza. Tendo surgido em 1956, dentro dos SFA, o Serviço de Caça, Pesca, Regime Florestal e Protecção da Natureza, que cria a primeira área protegida de Portugal Continental (Reserva Ornitológica do Mindelo). Nos finais da década de 60, fez-se a identificação das principais áreas a proteger, a maior parte das quais veio a estar na origem na constituição de parques naturais e foi ainda no interior dos SFA que surgiu a iniciativa da criação, em 1970, do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Nesses tempos, em 1948, surge na sociedade civil um silvicultor, Prof. Carlos Baeta Neves, que cria a Liga para a Protecção da Natureza (LPN). Tendo sido a primeira Organização Não Governamental de Ambiente a ser criada na Península Ibérica. Por falta de estratégia e visões esclarecidas, as competências nas áreas da conservação da natureza foram, sem medo da sua ineficiência, retiradas dos serviços florestais até que “em 1996 a estrutura [da instituição florestal] foi desmantelada e regionalizada, com o pressuposto de criação de uma empresa pública [ENGEF] para a gestão das áreas a cargo do Estado” (AFN 2012). “A proposta viria a ser submetida pelo Governo a parecer do Conselho Económico e Social, entidade que ‘rejeita frontalmente a alienação do património florestal do Estado, ainda que a favor de uma empresa pública’ e que questiona os objetivos marcadamente produtivistas da abordagem seguida no Projeto” (AFN 2012). Conclusão: foi em 1996 que se destruiu por fim os Serviços Florestais centenários de Portugal Continental para se criar o NADA.

• Temos consciência que o futuro da floresta em Portugal não se resolve exclusivamente por alcançar a boa gestão das áreas de Regime Florestal existentes atualmente. A maior parte da área florestal em Portugal é privada, pelo que, noutro âmbito, terão de ser encontradas soluções para o ordenamento dessa floresta. Entendemos que, se voltarmos no imediato a gerir efetivamente no terreno 525.400 ha de área florestal, estaremos no caminho certo e um pouco mais próximos de resolver o problema da floresta em Portugal.

• A Comissão Técnica Independente no seu relatório “Avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16 de outubro de 2017 em Portugal Continental”, de março de 2018, faz uma total razia à atuação do ICNF (e designações anteriores) em Portugal Continental desde, pelo menos, 1981 até aos dias de hoje (CTI 2018).

• A CTI (2018) refere que o ICNF está numa grave situação; que não assegura a proteção das Matas Nacionais; que as áreas florestais sob sua responsabilidade ardem ainda mais que as restantes; que o facto de ter ardido 34% da totalidade da área de Matas Nacionais em 2017 é demasiado evidente e grave; que a instituição é um constrangimento para o setor florestal quando deveria ser o seu principal promotor; que esta nunca assumiu a degradação de um património público [e comunitário] de ½ milhão de hectares; que a má gestão de um bem público [e de um bem comunitário] constitui um péssimo serviço; que é nas florestas sob sua responsabilidade que é mais grave o problema das invasoras lenhosas [acácias] em Portugal.

• Deveria ser ainda mais crescente a importância da caça e da pesca desportiva em águas interiores como atividades económicas de relevo no interior do país, nomeadamente na vertente turística, porém, muitas dos nossos rios e albufeiras encontram-se depauperados por falta de gestão aquícola efetiva, nomeadamente devido à inexistência de regras de pesca específicas e dinâmicas, para cada massa de água, conjugada com uma total falta de fiscalização. A gestão da caça, embora tendo melhorado muito nas zonas de gestão privada, está longe da capacidade que poderia representar e, sobretudo no aspeto turístico, não houve capacidade para organizar e desenvolver um turismo cinegético capaz de valorizar realmente o potencial existente em muitas regiões do interior do país.

• O problema da instituição florestal em Portugal não é exclusivamente político. A situação só chegou a este estado de extrema gravidade devido também à evidente incúria de seus dirigentes que nunca se insurgiram e que, por acomodação, a deixaram apodrecer.

• A existência de áreas florestais sob gestão pública faz sentido. Dada a sua natureza ecológica, não foi encontrada até agora nenhuma forma melhor de explorar florestas de baixa produtividade senão transformando-as num uso imperativo florestal de utilidade pública. Todos os países com governos democráticos bem sucedidos nesta matéria, sejam de esquerda ou de direita, chegaram à mesma conclusão (PEDRO BINGRE com. pessoal). O facto da nossa instituição florestal em Portugal ter sido desmantelada nos últimos 40 anos e se encontrar atualmente ao nível da de um Estado Falhado fará parecer lógico alegar que o serviço público florestal não funciona e que a gestão pública florestal em Portugal deve ser de vez entregue a privados. Ocorre que temos a vantagem de termos uma recente história florestal rica e bem sucedida, temos ainda o mundo à nossa volta com excelentes exemplos do que é um bom serviço público florestal. Portugal tem-se fechado sobre si mesmo e se revelado ignorante em politicas florestais; devemos antes procurar copiar aquilo que funciona lá fora e atualizar aquilo que já funcionou entre nós. Temos de assumir humildemente que somos atualmente um dos piores países do mundo em termos de políticas e governança florestal - os factos estão aí, duros, mas reais: 112 pessoas mortas e 442 mil ha ardidos apenas em 2017. Alternativas, provenientes da ignorância e do imediatismo, nos parecem por isso aventureirismos por testar ou fracassos a não repetir.

Requeremos à Assembleia da República:

1.  Que refunde um novo Serviço Florestal e Aquícolas (ou outra designação) em Portugal Continental, criando no seu seio uma estrutura com capacidade idêntica à que tiveram os Serviços Florestais e Aquícolas em Portugal nomeadamente no que respeita: 1) à efetiva capacidade de gestão, plena e partilhada, das áreas de Regime Florestal, com serviços próximos das comunidades locais, com dinamismo e célere capacidade de decisão, com técnicos, guardas florestais e operacionais qualificados e motivados, com estrutura, equipamento, capacidade de investimento alargada e autonomia financeira; 2) à efetiva gestão de recursos aquícolas dos nossos rios e albufeiras, com viveiros, repovoamento piscícola adequado, e fiscalização; 3) ao efetivo apoio à gestão dos recursos cinegéticas, estimulando e garantindo o apoio a um verdadeiro turismo cinegético internacional; 4) que desenvolva o sector da silvopastorícia, promovendo o desenvolvimento de uma atividade moderna capaz de contribuir para a criação de espaços resistentes aos incêndios através de áreas de pastagens renovadas com capacidade de sustentar uma economia pastoril; 5) que desenvolva e aperfeiçoe os serviços de gestão dedicados à conservação da natureza, que garantam o desenvolvimento da biodiversidade e em especial a recuperação das espécies ameaçadas e em risco de extinção, que sejam harmonicamente complementares da economia dos espaços rurais, do turismo de natureza e, sobretudo, para a melhoria das condições de vida das respetivas populações; 6) que sirva para apoiar permanentemente (extensão rural) as áreas de Regime Florestal Parcial e nomeadamente, nas áreas comunitárias, dinamizar e apoiar a constituição de assembleias de compartes e respetivos conselhos diretivos; 7) que reponha a Estação Florestal Nacional (pesquisa aplicada à floresta) e que, entre outras linhas de pesquisa, retome urgentemente os programas de melhoramento florestal, articulando-se com o CENASEF (Centro Nacional de Sementes Florestais); 8) que se dedique à correção de regimes torrenciais (controlo de erosão) e por fim ao lazer e recreio nomeadamente através da reabilitação dos parques de merendas.

2. Que, tendo em vista a refundação dos referidos serviços, promova um profundo debate que envolva um pequeno grupo, a requerer pela AR, de pensadores de políticas florestais, de pensadores de planeamento regional, de silvicultores experientes e com mundo, e de representantes das áreas comunitárias. Que discutam várias alternativas de modelos de gestão pública (benchmarking) tendo como premissa que “não pode haver uma condução correta da floresta e da conservação dos recursos naturais sem serviço público, mas este, para existir, tem de estar aplicado à exploração rentável dos recursos naturais, tendo nessa rentabilidade o principal alicerce da sua existência” (PARDAL 2014).

3. Que sejam feitas estimativas dos investimentos necessários nas várias áreas de gestão de recursos naturais. Em particular, na área de produção florestal sejam feitos, no imediato, inventários florestais (se não os houver recentes) e a finalização do mapeamento dos 525.400 ha de terrenos de Regime Florestal, para servir de base de trabalho para que os melhores técnicos, a requerer pela AR, de planeamento florestal, de SIG e de economia florestal, possam calcular as reais necessidades financeiras dos novos Serviços Florestais, tendo em conta as despesas (estrutura e investimentos) e as receitas (cortes e demais recursos naturais).

4. Que se cubram as necessidades financeiras deste imperativo projeto de investimento florestal recorrendo ao Orçamento de Estado, à União Europeia e/ou ao Banco Mundial (o que já ocorreu em anterior projeto florestal, de 1980 a 1987, lançado pelo então Secretário de Estado das Florestas Prof. António Azevedo Gomes).

5. Que garanta que a orgânica que vier a ser definida seja resultado de um amplo consenso político, capaz de garantir a sua estabilidade a muito longo prazo (100 anos).

6. Que garanta que os prédios rústicos em estado de abandono e pertencentes a proprietários desconhecidos, e que não respondem à chamada, sejam integrados nas Matas Nacionais em Regime Florestal Total (publique-se uma nota - ad perpetuam rei memoriam - que sirva de base à negociação caso futuramente apareçam os legítimos proprietários) (PARDAL 2017). Desta forma “ampliando o património público” conforme “compete ao Estado” pelo artigo 8.º da Lei de Bases da Política Florestal (Lei n.º 33/96). Segundo BEIRES (2013) o problema não está quantificado, porém sugere uma estimativa grosseira de 10% do território se encontre nesta situação, e refere ainda: “importa deixar claro que estas terras sem dono conhecido ocorrem quase sempre em zonas marginais ou de incultos florestais, sendo muito raras ou inexistentes em terras agrícolas”. Os vários trabalhos em curso, nomeadamente o Cadastro Simplificado, legislado recentemente, vos permitirá a localização desses prédios rústicos, de forma a seguirem a política referida.

7. Que assegure que se os proprietários de uma ZIF, que viram todo o seu património florestal ardido e que por isso ficaram sem recursos financeiros para alavancar novamente a gestão florestal, possam recorrer ao Governo para submeter a mesma ao Regime Florestal Parcial. Tendo o Estado a obrigação (conforme lei do Regime Florestal) de arborizar e explorar através dos Serviços Florestais (ou, liberdade nossa, de entregar os apoios financeiros necessários ao mesmo fim), de dar apoio contínuo técnico e de polícia à ZIF, salvaguardando para o Estado uma parte dos lucros líquidos da mata. A gestão manter-se-á privada e em sede de ZIF sendo supervisionada pelos Serviços Florestais com base no plano de exploração aprovado, num sistema de gestão partilhada que garantirá, a muito longo prazo, a utilidade pública florestal.

8. Que rejeite a privatização ou municipalização das Matas Nacionais e a municipalização dos terrenos comunitários, no todo ou em parte, a não ser a devida à expropriação por motivos de utilidade pública.

9. Que entenda que refundar é promover uma mudança radical. A instituição que nascerá deve ser transparente e responsável pelo cumprimento de objetivos, devendo a escolha dos seus novos dirigentes ocorrer por meritocracia.

10. Que assegure que as áreas de Regime Florestal geridas pelos Serviços Florestais voltem a ter a capacidade própria de proteção, deixando de fazer depender a extinção do fogo apenas em terceiros (CTI 2018).

11. Que garanta que nas áreas de Regime Florestal geridas pelos Serviços Florestais sejam rentabilizadas através da produção de lenho, da resinagem (nomeadamente à vida), da produção de cogumelos, da caça, da pesca desportiva, da apicultura, da silvopastorícia e/ou outros recursos naturais numa óbvia gestão harmoniosa com a conservação da natureza. E que se recuperem, e se tire proveito, das Casas dos Guardas Florestais e outro importante património construído (sem alienação) para o apoio a essa gestão.

12. Que assegure que as receitas das licenças de caça e de pesca e as receitas da gestão das Matas Nacionais revertam na totalidade para os Serviços Florestais, bem como a parte da receita que lhe é devida nas áreas Regime Florestal Parcial, e que estas sejam aplicadas na gestão do Regime Florestal e no seu fomento.

13. Que reponha os Guardas Florestais no Ministério da Agricultura, com as funções de polícia, fiscalização e apoio à gestão dos recursos florestais, como sempre sucedeu desde, pelo menos, 1886 até 1998/2006 (respetivamente: competência exclusiva de polícia / transferência para a GNR no Ministério da Administração Interna).

14. Que invista na reflorestação das vastas áreas ardidas e áreas atualmente incultas do Regime Florestal, sobretudo com espécies autóctones, incluindo o pinheiro bravo, promovendo as espécies folhosas sempre que tecnicamente aconselhável e promovendo a erradicação de espécies invasoras lenhosas exóticas, nomeadamente as acácias.

Resumo: que a Assembleia da República dote com urgência o país de uns novos Serviços Florestais e Aquícolas (ou outra designação), com a mais conveniente estrutura orgânica, apoiado num corpo técnico competente desde o nível dos guardas florestais até aos seus mais altos dirigentes, que seja capaz de, adotando uma visão moderna de conservação dos recursos naturais e da biodiversidade, dirigir e coordenar a gestão dos recursos florestais de Portugal Continental de modo a que estes contribuam na sua plenitude para a nossa economia e para o desempenho das funções sociais e do bem estar das populações rurais que deles dependem. Para tanto, será necessário que ocorra um investimento elevado para recuperar as perdas dos últimos anos e um orçamento anual capaz de suportar tal estrutura, dentro do Ministério da Agricultura, podendo-se recorrer não apenas aos recursos disponíveis no Estado português, mas também a outras fontes de financiamento existentes para estes fins.

Com respeitosos cumprimentos, os peticionários.

(atenção: deve obrigatoriamente colocar o seu nome COMPLETO e o nº do seu BI).

BIBLIOGRAFIA:


BEIRES, R. S.; GAMA AMARAL, J.; RIBEIRO, P., 2013. Ocadastro e a propriedade rústica. Fundação Francisco Manuel dos Santos. Páginas 83 e 84 

CTI, 2018. Avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16de outubro de 2017 em Portugal Continental. Comissão Técnica Independente. Páginas 195-201 e 239-240 

PARDAL, SIDÓNIO, 2014. A Politíca Florestal no Nosso País.In Questões Atuais de Direito Local. AEDRL – Associação de Estudos de Direito Regional e Local. 

PARDAL, SIDÓNIO, 2017. Apontamento para uma políticaflorestal

quarta-feira, 11 de abril de 2018

SOS Florestas

@roberta_clubedabiologia
Conservar as florestas não é apenas conservar espécies, o que já é fundamental por si só, mas é também manter as relações ecológicas, a integração com os fatores abióticos e serviços ecossistémicos como remoção de dióxido de carbono da atmosfera, fornecimento de água, purificação do ar, produção de frutos e fármacos, dentre outros. Para garantirmos a sobrevivência das novas gerações é fundamental a manutenção das florestas. Pense nisso e aja sobre isso!

segunda-feira, 2 de abril de 2018

160.000 beatas recolhidas em praias de Almada (com video)

Consegues imaginar um cordão de 1.200 metros composto por 160 mil beatas, exposto ao longo da marginal do Seixal?





O vídeo arrepiante captado por Nativa Project, mostra as mais de 160 mil beatas recolhidas em várias ações de limpeza pela Associação 10 Milhões na Berma da Estrada, na zona ribeirinha do Seixal, Fonte da Telha, Costa de Caparica e ao longo de "10 Milhões de Passadas em Prol da Floresta".

"P'ró Chão Não! Ela chega ao mar, ao prato, ao copo" é uma iniciativa que quer alertar para o gesto automático de se atirar uma ponta de cigarro para o chão ao invés de se olhar para ela como lixo, que deve ser colocado no lugar adequado.
Uma única beata polui 500 litros de água... os lençóis freáticos... os oceano... a fauna e flora marítimas... a cadeia alimentar...

Esta associação tem a intenção de criar o maior cordão de pontas de cigarro do Mundo e candidatarem-se ao Guiness World Records em 2018. Será feito um cordão de pontas de cigarro de 5km à volta da baía do Seixal e um cordão humano, formado por pessoas que querem fazer a diferença.


Neste momento o cordão existente que esteve em exposição contém mais de 160 mil beatas e mais de 1,2 km de comprimento (já elegível para um recorde Mundial).
Fiquem atentos às próximas iniciativas da Associação 10 Milhões na Berma da Estrada!

Obrigado pelo vosso excelente trabalho em prol da preservação do meio ambiente.

Para acompanhar e confirmar live, os dados sobre o estado do mar, pode usufruir da nossa rede de livecams e reports preparada para essa finalidade.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

As ruas e a arte de caminhar

A pé vê-se muito intensamente as cidades e paramos, pelo menos eu, travo e fixo e reflito e aprendo sempre mais. Mas também espanto-me e sinto as mesmas emoções com as "ruas" que as redes sociais nos dão a mostrar.
E pelas ruas não encontro "medos": Converso, falam comigo, há alguém que passeia um cão, indicam-me caminhos, não uso muito gps ou faço do gps móvel pretexto para conversar e sentir o barómetro da cidade, do local onde estou a caminhar.  E encontramos mensagens, nas paredes (refiro-me a arte de rua), a magia e a emoção e sonhos e mistérios quando avisto uma casa abandonada, uma quinta histórica. Por vezes estou em grupo. E o mais relevante  desligo o wifi e estar atento. Simples.

Arte de rua  Lisboa
Foto de autor

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Bertrand Russell- Uma mensagem para as gerações futuras


Num programa de televisão, Face-to-Face da BBC em 1959, foi perguntado a Bertrand Russell, que mensagem deixaria para as gerações vindouras. A resposta dele foi que diria duas coisas: uma intelectual e outra moral.
Se querem saber quais são vejam o vídeo.
É um espantoso testemunho, pela inteligência e pela simplicidade. Palavras imperdíveis e, verdadeiramente, inspiradoras.


Para saber mais sobre Bertrand Russell consultar e ler esta postagem.

sábado, 6 de maio de 2017

Entrevista a Matthieu Ricard - A felicidade egoísta está condenada ao fracasso

Podemos ser felizes com pouco e infelizes com muito. Quem o diz é Matthieu Ricard, monge budista que, no início de maio de 2015, esteve em Portugal para falar sobre altruísmo e felicidade. Nesta conversa deixou um desafio: «ouse» fazer o bem aos outros sem esperar nada em troca.
Fonte: Notícias Magazine

 Foi reconhecido, de acordo com estudos científicos, como o homem mais feliz do mundo. Como é o seu quotidiano?_ Os seus colegas jornalistas gostam muito da história de acordo com a qual a minha humilde pessoa seria «o homem mais feliz do mundo». Foi um rumor, sem nenhuma base científica, que surgiu há uns anos num documentário sobre a felicidade apresentado pela cadeia de televisão australiana ABC, e que dizia que «talvez tenhamos aqui o homem mais feliz do mundo». Toda a gente po­de encontrar a felicidade desde que a procure onde ela se encon­tra. Quanto ao meu dia-a-dia, faço todo o possível para partilhar o meu tempo entre retiros meditativos e os projetos humanitários que tenho a cargo nos Himalaias.

Gosta muito de fotografia e coloca as imagens que faz num blogue com o seu nome…_ Para mim a fotografia é um hino à beleza. Comecei a fotogra­far aos 15 anos com um amigo fotógrafo de animais e apaixonado pela natureza. Após ter ido para os Himalaias, em 1972, fotogra­fei os meus mestres espirituais e o seu mundo. De acordo com os ensinamentos budistas, todos os seres detêm a natureza de Buda. Através da fotografia quis mostrar a beleza dessa natureza huma­na, a beleza e a dignidade, que podem coexistir com o sofrimen­to mais intenso e a esperança pode sobreviver mesmo à destrui­ção e à perseguição. O povo tibetano dá-nos essa prova, pois sou­be conservar essa alegria, a força interior e confiança enquanto sofria um genocídio humano e cultural. As imagens de sofrimen­to, de desespero e ignomínia abundam. Nunca consegui tirar fo­tografias dessas. Para mim, é essencial inspirar a esperança e a confiança, é aquilo que mais nos falta e de que mais precisamos.

Vários estudos indicam que as redes sociais podem levar a uma maior solidão do ser humano. Está de acordo?_ Com efeito, segundo a socióloga americana Sherry Turkle, os canais ditos «sociais» são, na realidade, um meio de estar só, es­tando conetado a muita gente. Um jovem de 16 anos que comu­nica principalmente através de mensa­gens fazia notar com uma certa amar­gura: «Um dia, um dia, mas de certeza não agora, gostaria de aprender a ter uma conversa.» Os jovens passaram da conversação à conexão. Quando se tem três mil amigos no Facebook não po­demos evidentemente ter qualquer ti­po de verdadeira conversa. Apenas nos conetamos para falar de nós próprios para um auditório garantido. As con­versas eletrónicas são lapidares, rápidas e por vezes brutais. As conversações humanas, face a face, têm uma natureza diferen­te: evoluem lentamente, têm muitas nuances e ensinam-nos a pa­ciência. Numa conversa somos chamados a ver as coisas de um outro ponto de vista, uma condição necessária à empatia e ao al­truísmo.

Vem a Lisboa falar sobre O Altruísmo e a Felicidade. Qual a principal mensagem que traz?_ Um dos maiores desafios da atualidade consiste em conciliar os imperativos da economia, da procura da felicidade e do respeito pelo ambiente. A economia e a finança evoluem a um ritmo cada vez mais rápido; a satisfação de vida mede-se com base num pro­jeto assente numa carreira, numa família, numa geração; e o am­biente, que tradicionalmente se media em eras geológicas, está, hoje, devido aos transtornos ecológicos provocados pelas ativi­dades humanas, em rápida mudança. Precisamos de um fio de Ariana que nos permita encontrar o caminho neste labirinto de preocupações graves e complexas. O altruísmo é o fio que nos po­de permitir ligar naturalmente as três escalas de tempo – curto, médio e longo prazo – harmonizando as suas exigências.

Uma família com o pai e a mãe desempregados pode ser feliz?_As circunstâncias da vida podem ser muito difíceis, mas é preciso lembrarmo-nos de que há mil maneiras de viver a ad­versidade. Quando somos confrontados com situações que não escolhemos, o modo como vivemos as coisas pode agravá-las consideravelmente, ou aligeirá-las. A nossa mente pode ser o nosso melhor amigo ou o nosso pior inimigo. Por muito influen­tes que possam ser as condições externas, o mal-estar, tal como o bem-estar, é essencialmente um estado interior. Devemos assim fazer todos os possíveis para melhorar as condições exteriores e a qualidade de vida, para enfrentar as desigualdades salariais e de riqueza que vão crescendo na maior parte dos países da OCDE e que são particularmente visíveis em Portugal, mas é importante não colocar todas as nossas esperanças fora de nós. É que pode­mos ser muito infelizes quando aparentemente temos tudo para ser felizes e, ao contrário, sermos serenos na adversidade.

Existe uma receita para alcançar a felicidade?_ Uma receita não, mas uma visão e métodos sim. A felicidade é, antes de mais, uma maneira de ser, um estado adquirido de pleni­tude subjacente a cada instante da existência e que perdura atra­vés das inevitáveis incertezas que vivemos. No budismo, a pa­lavra soukha designa um estado de bem-estar que nasce de uma mente excecionalmente saudável e serena. É uma qualidade que impregna cada experiência, cada comportamento, que abraça to­das as alegrias e todas as mágoas. É igualmente um estado de sabedoria e de conhecimento, liberto de venenos mentais e da cegueira sobre a verdadeira natureza das coisas. Soukha está es­treitamente ligado à compreensão da forma como funciona a nossa mente e depende da nossa forma de interpretar o mundo. É difícil mudar este último, mas é possível transformar a maneira como o percecionamos.

Ser feliz tem que ver com o «eu» ou com os «outros»?
_ Contribuir para a realização do bem dos outros é não só a mais desejável das atividades, mas também a melhor for­ma de realizar indiretamente o nosso próprio bem. A persegui­ção de uma felicidade egoísta está condenada ao fracasso, mas o contributo para o bem do outro constitui um dos principais fa­tores de estabilidade e, em última instância, de progresso em di­reção ao Despertar.

O altruísmo não é uma forma de apaziguar o ego? Quando fazemos bem aos outros não estamos, em primeiro lugar, a tratar de nós próprios?_ A autoestima – o facto de sentir contentamento quando as nos­sas aspirações são satisfeitas – é compatível com a benevolência para com o outro, em oposição ao amor-próprio, que coloca os nos­sos interesses à frente dos do outro e exige que o mundo inteiro te­nha em consideração os nossos desejos. No entanto, a realização do bem dos outros não implica o sacrifício da nossa própria feli­cidade, bem pelo contrário. Se nos movemos por uma motivação altruísta, sincera e determinada, contribuir para o bem do outro é uma situação vivida como uma vitória e não como um falhan­ço, um ganho e não uma perda, uma alegria e não uma mortifi­cação. «O amor é a única coisa que duplica de cada vez que a da­mos», dizia Albert Schweitzer. Nunca poderemos, assim, falar de sacrifício, uma vez que, subjetivamente, o ato cumprido, lon­ge de ter sido sentido como um sofrimento ou perda, trouxe-nos satisfação de ter agido de maneira justa, desejável e necessária. O mundo do ego é como um pequeno copo de água: umas pitadas de sal chegam para o tornar intragável. Mas o que faz estoirar a bolha do ego é compa­rado a um grande lago: um punhado de sal não muda em nada o sabor. Em conclusão, o egoísmo só faz perdedores: torna-nos infe­lizes e leva-nos a fazer infelizes os que nos rodeiam. O amor altruísta é a mais positiva de todas as emoções positivas.

Vai estar também no Porto numa conferên­cia sobre Meditação e Ciência. Qual é a liga­ção entre uma coisa e outra?_ A partir do ano 2000, foram lançados programas de investigação com um gru­po de pessoas que tinha consagrado uma vintena de anos ao desenvolvimento sis­temático da compaixão, do altruísmo e da paz interior. A análise de certos dados de­monstrou diferenças espetaculares en­tre os meditantes e os não praticantes. Os primeiros tinham a faculdade de gerar es­tados mentais precisos, poderosos e du­ráveis. De acordo com o investigador Ri­chard Davidson, de Wisconsin, «foi pos­sível demonstrar que o cérebro pode ser treinado e modificado fisicamente de uma forma que poucos imaginam». E quan­tas mais horas de prática, mais assinalá­vel é a transformação cerebral. Outros tra­balhos demonstraram que as áreas do cé­rebro ativadas pela empatia são distintas das que são ativadas pela compaixão e pe­lo amor altruísta. Sabemos que a resso­nância empática com a dor do outro pode conduzir, se repetida muitas vezes, a uma exaustão emocional e à aflição. É isto que vivem frequentemente os enfermeiros e médicos por estarem em contato com doentes em grande sofrimento. Este fenó­meno, conhecido em inglês como burnout, é traduzível como «exaustão emocional» ou ainda «fadiga da compaixão». Constatou-se que a compaixão e o amor altruísta estavam associados às emoções positivas. E que o burnout é uma «fadiga da empatia» e não da compaixão. Esta úl­tima, com efeito, longe de levar à aflição ou ao desencorajamento, reforça o estado de alma, o equilíbrio interior e a determinação corajosa de ajudar aqueles que sofrem. Assim, o amor e a compai­xão não geram nem fadiga nem desgaste, mas, pelo contrário, aju­dam a ultrapassá-los e a repará-los.

Os médicos acreditam nesse «poder» da meditação para prevenir doenças?_ Outras experiências científicas demonstraram que não é neces­sário ser um meditante muito treinado para beneficiar dos efeitos da meditação, e que vinte minutos de prática diária contribuem significativamente para a redução da ansiedade e do stress, da ten­dência a ficar colérico (cujos efeitos na saúde estão bem identifi­cados) e do risco de recaída em caso de depressão grave. Oito se­manas de meditação sobre a consciência plena, de cerca de trin­ta minutos diários, reforçam notavelmente o sistema imunitário. O que é indispensável, na prática, não é meditar durante longos períodos, mas fazê-lo regularmente. O estudo da in­fluência dos estados mentais sobre a saúde, outrora classificados como fan­tasia, está cada vez mais na ordem do dia da investigação científica.

Deixou uma carreira científica para abra­çar o budismo. Qual foi o momento deter­minante para essa mudança?_ O momento-chave foi o encontro com mestres espirituais tibetanos, na Índia. Tive uma imensa sorte de encon­trar o meu mestre espiritual, Kangyur Rinpotché, em 1967, perto de Djarlee­ling, na Índia, e de passar, depois da sua morte, em 1975, alguns anos em retiro perto do mosteiro onde viveu. A par­tir de 1981, tive o privilégio de viver 13 anos junto de um outro grande mestre tibetano, Dilgo Khyentsé Rinpotché, e de receber os seus ensinamentos. De­pois, tive numerosas ocasiões de ser­vir o XIV Dalai Lama e de receber os seus ensinamentos. Um mestre espiri­tual autêntico é alguém que vos mos­tra aquilo que vocês poderiam ser. É al­guém que está em perfeita sintonia com aquilo que ensina. O mensageiro torna–se a mensagem.

Meditar está ao alcance de todos?_ Claro que sim! A meditação visa al­cançar um melhor conhecimento da nossa mente e uma maior capacidade de gerir os nossos pensamentos. Estamos confrontados com a nossa mente de manhã à noite e é ela, afinal de contas, que determina a qualidade de cada momento da nossa existência. O facto de conhecer melhor a sua verdadeira natureza e de compreender os seus mecanismos vai influenciar de maneira crucial essa qualidade.

As emoções condicionam a nossa mente. O que diria a quem sente raiva, ciúme, inveja…?_ É preciso, em primeiro lugar, que essa pessoa reconheça o cará­ter destrutivo dessas emoções. Quando falamos de emoções ne­gativas, como no caso da raiva ou do ciúme, o termo «negativo» não tem valor moral, mas prático. Isto significa «menos» felicida­de e mais sofrimento. Ouvimos dizer que o budismo em geral, e a meditação em particular, visam suprimir as emoções. Tudo de­pende daquilo que entendemos por «emoção». Se forem pertur­bações mentais como o ódio e a inveja, porque não desembara­çarmo-nos delas? Se for um sentimento de amor altruísta ou de compaixão para com os que sofrem, porque não desenvolver es­sas qualidades? Este é, em qualquer caso, o objetivo da meditação. Compreendamos que é a acumulação e encadeamento das emo­ções e dos pensamentos que geram os nossos humores, os quais duram alguns instantes ou alguns dias, e que formam, a longo prazo, as nossas tendências e traços de caráter. É por isso que se aprendermos a gerir as emoções, pouco a pouco, de emoção em emoção, de dia para dia, acabaremos por transformar a nossa maneira de ser.

O budismo é uma filosofia de vida?_ O budismo é uma religião, uma filo­sofia, uma sabedoria ou uma arte de vi­ver? É uma questão frequentemente co­locada ao Dalai Lama e à qual responde com humor: «Pobre budismo! Eis que é rejeitado pelos religiosos, que dizem que é uma filosofia ateia, uma ciência da mente, e pelos filósofos que o colocam na prateleira das religiões. Mas isto po­de ser uma vantagem, pois permite-lhe construir uma ponte entre as religiões e filosofias». Diria que o budismo é uma tradição espiritual da qual emana uma sabedoria aplicável a todos os momen­tos da existência e em todas as circuns­tâncias.

E, em sua opinião, porque é que vai con­quistando cada vez mais seguidores no Ocidente?_ Tem de lhes perguntar! Não posso fa­lar por eles. Talvez seja devido ao facto de o budismo oferecer uma perspetiva muito pragmática em relação aos me­canismos da felicidade e do sofrimento.

Como vê o atual Papa Francisco? Existe algum ponto em comum entre o catolicis­mo e o budismo?_ Tenho grande admiração pelo Papa Francisco, pela sua simplicidade, pela sua humildade e bom senso. Estou con­vencido de que pode fazer muito pelo mundo. Fiquei particularmente surpreendido quando, pouco tempo depois da sua eleição, foi a uma prisão em Itália e lavou os pés a uma mulher muçulmana. O budismo e o cristianismo têm em comum a importância que dão ao amor ao próximo. É preci­so que as religiões estejam ao serviço dos mais humildes e dos ne­cessitados, o seu objetivo não deve ser o de converter as pessoas, mas sim ajudá-las e libertá-las dos seus sofrimentos.

O que «ganhou» em tornar-se um monge budista?_ A liberdade de me dedicar o mais possível – embora nunca o su­ficiente, devia, claro, praticar mais – à prática espiritual.

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QUEM É MATTHIEU RICARD?
Nasceu em Paris, em 1946, num meio privilegiado, filho do filósofo francês Jean François Revel e da pintora Yahne Le Tourmelin. Doutorado em Biologia Molecular pelo Instituto Pasteur, sob orientação do Prémio Nobel François Jacob, cedo se interessou pelo budismo. Decidiu então abandonar a carreira científica e tornar-se monge. Escreveu várias obras sobre a espiritualidade, sendo a mais conhecida O Monge e o Filósofo – um diálogo com o seu pai sobre o sentido da vida. É um amante da fotografia, tendo cerca de uma dezena de livros publicados com imagens de rara beleza sobre a Índia, Nepal, Butão e Tibete, e um membro ativo do Mind and Life Institut, com sedes na Suíça e nos EUA. Desenvolveu a asso­ciação Karuna-Shechen, através da qual apoia projetos huma­nitários e construção de pontes, sobretudo nos Himalaias. É também conhecido como o «homem mais feliz do mundo».

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Marcha mundial do clima, 29 de abril, 15h


Marcha mundial do clima, 29 de abril, 15h - Ambientalistas de Aljezur, Lisboa e Porto juntam-se à edição deste ano da Marcha Mundial do Clima, convocada nos Estados Unidos contra as políticas a favor dos combustíveis fósseis. As três marchas em Portugal vão exigir o fim da prospeção de petróleo na costa portuguesa. Observador.

terça-feira, 4 de abril de 2017

A Índia quer tornar o dia 26 de Abril, como o Dia Antibuzina




A Indian Medical Association quer tornar o dia 26 de abril o dia Antibuzina. Uma iniciativa que pretende consciencializar os cidadãos para os impactos da poluição sonora e das suas implicações em problemas cardíacos. DNAIndia.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Um milhão de assinaturas para banir glifosato da União Europeia

Começou ontem, dia 8 de Fevereiro a recolha de assinaturas para proibir o uso de um dos principais componentes dos pesticidas ao nível mundial. O objectivo é recolher um milhão de assinaturas para levar problemática à Comissão Europeia.

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O glifosato é o principal componente dos pesticidas ao nível mundial, sendo amplamente usado em agricultura e nas áreas urbanas. Nos últimos anos, tem gerado crescente discussão acerca da sua utilização. A partir desta quarta-feira, dezenas de organizações não governamentais (ONG) de toda a União Europeia (UE) iniciaram a mobilização de cidadãos para banir o glifosato. Em Portugal, as ONG envolvidas agregaram-se na Plataforma Transgénicos Fora.

A recolha de assinaturas foi criada enquanto iniciativa de cidadania europeia (ICE). A ICE é um instrumento de participação cívica introduzido pelo Tratado de Lisboa, que define a apresentação de propostas legislativas à Comissão Europeia mediante a recolha de um milhão de assinaturas. O objetivo desta iniciativa é travar a renovação da autorização de uso do glifosato.

“Existe alguma falta de dados concretos em relação ao seu impacto epidemiológico, ou seja, em relação ao impacto em pessoas expostas. No entanto, sabe-se que em animais de laboratório causa cancro. Sabe-se também que é o herbicida mais usado em Portugal e no mundo e que os portugueses estão particularmente contaminados”, afirma Mariana Silva, uma das coordenadoras da Plataforma Transgénicos Fora.

Com efeito, a substância foi classificada em março de 2015 pela Agência Internacional para a Investigação do Cancro da Organização Mundial da Saúde como “carcinogénica para animais de laboratório” e “provavelmente carcinogénica para o ser humano” .
O papel da Comissão Europeia

Todas as substâncias ativas utilizadas em pesticidas têm de ser aprovadas pela UE. O glifosato, em utilização desde os anos 70, está em processo de renovação da autorização. A Comissão Europeia estendeu o prazo da decisão de forma a aguardar a publicação de um parecer por parte da Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA), que estará pronto, no máximo, até ao final deste ano.

Entretanto, a Comissão Europeia fez recomendações aos Estados-membros, entre elas a minimização do uso da substância em parques e jardins de infância públicos. A Plataforma Transgénicos Fora considera-as “medidas positivas, mas que ficam ainda muito aquém do necessário para garantir a segurança dos portugueses”.

Mariana Silva considera que a ação da Comissão Europeia relativamente à problemática tem sido insuficiente. “A renovação da autorização do glifosato tem tido tantas falhas, tantas quebras de credibilidade, têm havido tantas notícias a expor a falta de transparência e de independência das sucessivas decisões, que as pessoas estão particularmente irritadas no que toca ao comportamento da Comissão Europeia e de outras estruturas europeias”, afirma a bióloga.

Por sua vez, a Comissão Europeia, em comunicação em junho de 2016, responsabilizava os Estados-membros pela inação face ao assunto. A instituição europeia chamou a atenção para o facto de não ter havido maioria qualificada nem no Comité Permanente nem no Comité de Recurso aquando da discussão do assunto.

Mariana Silva concorda que a responsabilidade também passa pelos Estados-membros, mas indica que “a Comissão Europeia tem, do ponto de vista político, a indicação clara de que a população europeia não quer a renovação do glifosato.” A bióloga remata: “O problema é que a Comissão Europeia não quer seguir essa indicação política e tem estado a fechar os olhos às indicações científicas”.
Portugal é o mais contaminado mas não faz análises

Análises a 26 voluntários portugueses demonstraram os níveis de contaminação mais altos de que há registo. A única exceção diz respeito a análises feitas nos Estados Unidos a agricultores que tinham acabado de aplicar glifosato nas colheitas. “Os voluntários [do estudo] não estavam a aplicar glifosato, portanto, para pessoas que não são agricultores nem têm exposição profissional, estes são os valores mais elevados alguma vez detetados no mundo”, explica Mariana Silva.

O estudo foi conduzido no ano passado pela Plataforma Transgénicos Fora em colaboração com o Detox Project. Esta foi a primeira análise feita no país em mais de uma década. As análises aos pesticidas estão regulamentadas em legislação europeia e incluem o glifosato. No entanto, em Portugal as análises a esta substância não têm sido realizadas, situação que Mariana Silva considera “completamente anómala”. A bióloga aponta o dedo aos “sucessivos governos que andaram a fechar os olhos”.
Falta de transparência e prazos a cumprir

Para além de querer banir o uso do herbicida, esta iniciativa tem como objetivos adicionais garantir a transparência e independência nos processos de autorização de pesticidas, bem como impor prazos obrigatórios para a redução progressiva do uso de todos os pesticidas.

“Neste momento, não há transparência. Os pesticidas e outros químicos são avaliados com base em estudos que não são publicados, secretos, que o público e cientistas independentes não podem avaliar, não podem criticar e não podem validar”, o que abre a porta “à corrupção e ao conflito de interesses”, afirma Mariana Silva.

Relativamente à redução progressiva do uso dos pesticidas, a bióloga explica que já existe legislação para conseguir essa redução, mas que a “Comissão ainda não avaliou se essa Diretiva está ou não está a cumprir essa função”.
Atingir um milhão em meio ano

A Comissão Europeia irá emitir uma decisão quando receber o parecer da Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA), esperado até ao final de 2017. Isto significa que a iniciativa terá de recolher um milhão de assinaturas “até ao verão”, indica Mariana Silva.

“Esta iniciativa só faz sentido antes da Comissão Europeia comunicar a sua decisão. A partir do momento em que renove o glifosato por 10 ou 15 anos, a iniciativa perde o seu peso porque será muito mais difícil reverter. O Tratado de Lisboa prevê um ano para estas iniciativas, mas na verdade temos poucos meses”, explica a coordenadora da Plataforma Transgénicos Fora.

A bióloga acredita que já há muitas pessoas em alerta para o assunto, o que irá possibilitar a recolha do total de assinaturas. “Já há uma preocupação latente que agora esta iniciativa vai permitir trazer ao de cima”, explica.

“O sucesso desta iniciativa em Portugal vai depender exclusivamente da importância que as pessoas lhe derem”, afirma. Mariana Silva acredita, no entanto, que o facto da própria iniciativa existir já é sinal de mobilização e de preocupação pública.

Para que a iniciativa seja levada à Comissão Europeia, é preciso que sejam recolhidas, até dia 25 de janeiro de 2018, um milhão de assinaturas e que, pelo menos, sete Estados-membros atinjam um número mínimo de subscritores, que varia consoante o país.

Artigo editado por Filipa Silva

sábado, 28 de janeiro de 2017

Digital Detox ou Desintoxicação Digital


Os argumentos em favor desta desintoxicação já foram enumerados até à exaustão: estamos a perder a capacidade de concentração; substituímos leituras longas e profundas por vídeos curtos e inúteis; editamos cuidadosamente as nossas vidas para consumo nas redes sociais; opinamos sem conhecimento; ignoramos quem está à nossa frente para ver no telemóvel fotografias publicadas por estranhos. Em última instância, segue esta linha de argumentação (ocasionalmente salpicada com conclusões de estudos académicos), uma vida demasiado ligada à Internet desliga-nos de nós próprios e de quem nos rodeia, e é, portanto, altura de desligarmos os aparelhos.

Há uma página na Wikipedia dedicada ao tema e (inevitavelmente) listas várias sobre como largar as nefastas tecnologias.

Este texto no Guardian , um dos muitos do género, apela aos leitores para que em 2017 se afastem dos telemóveis, ganhando assim tempo precioso:  “Embora os media sociais possam ser vagamente divertidos e não haja nada de errado em enviar mensagens aos nossos amigos, usar um pequeno computador para retirar tempo a nós próprios não é a solução para nada. Nenhuma aplicação social ou de chat nos vai fazer sentir melhor sobre o nosso futuro ou nós próprios, e o nosso hábito de usá-las só torna Mark Zuckerberg e os seus amigos mais ricos.”