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terça-feira, 6 de março de 2018

Poema da Semana - "Se", por Rudyard Kipling


"Se podes conservar o teu bom senso e a calma
Num mundo a delirar, para quem o louco és tu.
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê.
Se vais, faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário.
Se à torva intolerância,
se à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão.
Se podes dizer bem de quem te calunia.
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
(Mas sem a afetação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor).

Se podes esperar, sem fatigar a esperança.
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho.
Fazer do pensamento um arco de aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho.
Se podes encarar com indiferença igual,
O triunfo e a derrota, eternos impostores.
Se podes ver o bem oculto em todo o mal.
E resignar sorrindo o amor dos teus amores.

Se podes resistir à raiva, e à vergonha,
De ver envenenar as frases que disseste,
E que um velhaco emprega, eivadas de peçonha,
Com falsas intenções que, tu, jamais lhe deste.
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo.
Se podes obrigar o coração e os músculos,
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo já, afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante.

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre.
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre,
São iguais para ti, à luz da eternidade.
Se quem conta contigo encontra mais que a conta.
Se podes empregar os sessenta segundos
Dum minuto que passa, em obra de tal monta,
Que o minuto se espraie em séculos fecundos.

Então ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!
Mas 'inda para além um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos!
Pairando numa esfera, acima deste plano!
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano.
Alegra-te, meu filho, então... serás um homem!..."

~ Rudyard Kipling (1865 – 1936)

Obrigado Paulo Cabral e António Archer

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Poema- Reiner Maria Reike

Parque Nacional Peneda-Gerês

“Se nos rendêssemos à inteligência da Terra poderíamos erguer-nos enraizados, como árvores”~ Rainer Maria Rilke.

"If we surrendered to Earth's intelligence, we would rise up rooted, like trees."~ Rainer Maria Rilke.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Poema da Semana - Poema del Ábol, por Antonio Machado

"As árvores só falam para nós se tivermos a lucidez para as escutar" - João Soares

Paul Cezanne- Large Pine and Red Earth.c.1896 

Árbol, buen árbol, que tras la borrasca
te erguiste en desnudez y desaliento,
sobre una gran alfombra de hojarasca
que removía indiferente el viento...


Hoy he visto en tus ramas la primera
hoja verde, mojada de rocío,
como un regalo de la primavera,
buen árbol del estío.


Y en esa verde punta
que está brotando en ti de no sé dónde,
hay algo que en silencio me pregunta
o silenciosamente me responde.


Sí, buen árbol; ya he visto como truecas
el fango en flor, y sé lo que me dices;
ya sé que con tus propias hojas secas
se han nutrido de nuevo tus raíces.

Y así también un día,
este amor que murió calladamente,
renacerá de mi melancolía
en otro amor, igual y diferente.

No; tu augurio risueño,
tu instinto vegetal no se equivoca:
Soñaré en otra almohada el mismo sueño,
y daré el mismo beso en otra boca.

Y, en cordial semejanza,
buen árbol, quizá pronto te recuerde,
cuando brote en mi vida una esperanza
que se parezca un poco a tu hoja verde...

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Sem lentidão não há paladar. (...) por José Tolentino Mendonça

Foto de autor- Ruta da Samieira, Galiza


"Sem lentidão não há paladar. (...) Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados. À conta disso, os ritmos de actividade tornam-se impiedosamente antinaturais." ~ José Tolentino Mendonça in "A mística do instante"

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Gabriela Mistral, A Alegria de Servir (PT) . The Pleasure of Serving by G. Mistral (EN)

A Alegria de Servir por Gabriela Mistral
Toda a Natureza é um desejo de serviço.
Serve a nuvem, serve o vento, servem os vales.
Onde haja uma árvore que plantar, planta-a tu;
Onde haja um erro que emendar, emenda-o tu;
Onde haja um esforço que todos evitam, aceita-o tu.
Sê aquele que afasta a pedra do caminho,
O ódio dos corações e as dificuldades de um problema
Existe a alegria de ser são, e a alegria de ser justo,
Mas existe sobretudo, a formosa a imensa alegria de servir.
Como seria triste o mundo se tudo já estivesse feito,
Se não houvesse um roseiral que plantar, uma empresa que iniciar!
Que não te atraiam somente os trabalhos fáceis.
É tão belo fazer a tarefa a que outros se esquivam!
Mas não caias no erro de que só se conquistam méritos
Com os grandes trabalhos;
Há pequenos serviços que são imensos serviços:
Adornar a mesa, arrumar os bancos, espanar o pó.
Aquele é o que critica, este é o que destrói;
Sê tu o que serve.
O serviço não é tarefa só de seres inferiores.
Deus, que dá o fruto e a luz, serve.
Poder-se-ia chamá-lo assim: Aquele que serve
E Ele, que tem os olhos em nossas mãos, nos pergunta todo dia
“Serviste hoje? A quem? À árvore, a teu amigo, à tua mãe?”

(EN)
The Pleasure of Serving by G. Mistral
All of nature is a yearning for service:
The cloud serves, and the wind, and the furrow.
Where there is a tree to plant, you be the one.
Where there is a mistake to undo, let it be you.
You be the one to remove the rock from the field,
The hate from human hearts,
And the difficulties from the problem.
There is joy in being wise and just,
But above all there is the beautiful,
The immense happiness of serving.
How sad the world would be if all was already done.
If there was no rosebush to plant,
No enterprise to undertake.
Do not limit yourself to easy tasks.
It's so beautiful to do what others dodge.
But don't fall prey to the error that only
Great tasks done can be counted as accomplishments.
There are small acts of service that are good ones:
Decoratively setting a table,
Putting some books in order,
Combing a little girl's hair.
That one over there is the one that criticizes,
This other one is the one that destroys.
You be the one that serves.
Serving is not a labor just for inferior beings.
God, who gives fruit and light, serves.
His name could be rendered thus: He Who Serves.
And he has his eyes on our hands,
And he asks us at the close of day:
"Did you render service today? To whom?
To a tree, to your friend, to your mother?"

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Encontros Improváveis: Ramos Rosa e John O'Grady

John O'Grady - Spirit of the Forest
Estou fixo e livre neste centro com uma intensidade monótona.
Contente de ser teu e de ser meu, na expressão plana do desenho e na expressão redonda do volume, alto em densidade e transparente, animal de fundo e de ar, no equilíbrio fluido de um movimento sólido, que não arde, imensa, mas à medida do corpo ardente, límpido.

Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa.

Onde sou uma respiração de silêncio.
Ou então uma encosta, alongado, profundo, externo, gosto de ser e nada mais, numa completa tranquilidade.

Rumor de folhas e de mãos pequenas, insectos de delicada chama, diminutos fulgores silenciosos.
Entre confusas claridades, na plena humidade, o fogo abre a flor do corpo.
Sou tudo aquilo em que estou.

Folhagem e água, ar, pedras, o sono verde da terra, tudo, o todo inteiro, aqui na coincidência feliz de ser, de mais ser, ebriamente límpido, misteriosamente idêntico.(...)

Ramos Rosa

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Folhas de árvore contra o Céu- Urbano Tavares Rodrigues


Preso pela PIDE em 1963 e 1968, usou o segundo período de clausura para escrever "Contos de Solidão", que Urbano Tavares Rodrigues, descreve, numa entrevista feita por Maria Augusta Silva (1994), quando recebeu o Prémio Fernando Namora: "a polícia política não me deixava ler nem escrever. Até que pedi a Bíblia. Li-a de uma ponta a outra. E, depois fui escrevendo no único papel disponível, o do rolo de papel higiénico, e fiz sair esses "Contos" embrulhados em papel vegetal".

A entrevista está publicada, na íntegra, aqui 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poema da Semana - Canção do Exílio de Gonçalves Dias

Lisa Larson


As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores

 De Primeiros cantos (1847)

domingo, 6 de agosto de 2017

Musica do BioTerra - Né Ladeiras: "Oh Pastor que Choras"

"Oh pastor que choras" belíssimo arranjo musical, distinto do original de Fausto, e uma canção em que a voz, tonalidades e vibratos de Né Ladeiras dão muito significado ao poema.


"Todo este céu" (1997) é o seu quarto álbum e integralmente dedicado à música de Fausto (um sonho antigo). Produzido por Eduardo Paes Mamede e pela primeira vez, pela própria Né Ladeiras, com a particularidade de se debruçar sobre o lado mais místico e mitológico do compositor.


Oh pastor que choras
o teu rebanho onde está?
Deita as mágoas fora,
carneiros é o que mais há
uns de finos modos
outros vis por desprazer...
Mas carneiros todos
com carne de obedecer.
Quem te pôs na orelha
essas cerejas, pastor?
São de cor vermelha,
vai pintá-las de outra cor.
Vai pintar os frutos,
as amoras, os rosais...
Vai pintar de luto,
as papoilas dos trigais.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Encontros Improváveis- Álvaro de Campos e Débussy

Debussy- Valsa Romântica, interpretada por François-Joël Thiollier


"Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade"

Álvaro Campos in "Acordar"

terça-feira, 13 de junho de 2017

Poema dos Átomos * Poem of the Atoms, de Rumi, com música do compositor Armand Amar

Com legendas em Árabe, Farsi (Persa) e Inglês. Tradução para o Português nesta postagem.
Vídeo extraído do filme Bab Aziz, já aqui referido.


Poema dos Átomos
"Oh dia, desperta!
Os átomos dançam.
Todo o Universo dança, graças a Ele
As almas dançam possuídas pelo êxtase
Sussurrar-te-ei ao ouvido para onde os leva a sua dança
Todos os átomos no ar e no deserto sabem que parecem loucos
Cada átomo, feliz ou triste, está apaixonado pelo Sol
E assim, nada mais pode ser dito.
Nada mais. "                                                               
Jalal Rumi


Rumi - Poem of the Atoms

"O day, arise! The atoms are dancing
Thanks to Him the universe is dancing
The souls are dancing, overcome with ecstasy
I'll whisper in your ear where their dance is taking them
All the atoms in the air and in the desert know well, they seem insane
Every single atom, happy or miserable
Becomes enamoured of the sun, of which nothing can be said"

Jalal Rumi

Quem foi Jalal Rumi? PT  EN FR ES 

domingo, 11 de junho de 2017

Sugestão de cinema para este Domingo: Bab'Aziz (2005) - dobrado em Castelhano


Bab'Aziz: Le prince qui contemplait son âme (English: Bab'Aziz: The prince who contemplated his soul), often abbreviated to Bab'Aziz, is a 2005 film by Tunisian writer and director Nacer Khemir. It stars Parviz Shahinkhou, Maryam Hamid, Hossein Panahi, Nessim Khaloul, Mohamed Graïaa, Maryam Mohaid and Golshifteh Farahani. It was filmed in Iran and Tunisia. The film's complex and nonlinear narrative chiefly centers around the journey of a blind dervish, Bab'Aziz (Parviz Shahinkhou), and his granddaughter, Ishtar (Maryam Hamid), who — while traveling across the desert towards an immense Sufi gathering — encounter several strangers who relate the stories of their own mysterious and spiritual quests.


sábado, 10 de junho de 2017

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Encontros Improváveis- Carlos de Oliveira e Galina Sorochan


Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.
Hei-de cantar-v...os a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.
Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.
A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira, in 'Mãe Pobre'

domingo, 28 de maio de 2017

Música do BioTerra: Agnes Obel- Golden Green

All I have or should
Want to be but never could
It’s coming out, it’s coming out, it’s coming out
It's coming out, it's coming out my heart...
To spoil my soul with fire

All my eyes can see is
Born out of your imagery
It’s coming out, it’s coming out, it’s coming out
It's coming out, it's coming out my heart
To scorch the earth with fire

Tell me who you really love

Who are you to take over my mind
With your eyes on me
All for you I am climbing the sky
Of golden green

Angel green and blue
I’m gonna leave my mind with you
I know, I see, I wanna be just free (It’s coming out)
I know, it craves, it’s running through my veins
To spoil my soul with fire

Tell me who you really love

Who are you to take over my mind
With your eyes on me
All for you I am climbing the sky
Of golden green.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Acção Poética


"Creio que há tanta tecnologia intervindo nas mensagens (androids, redes sociais, telemóveis, Ipad, boletins informativos, especializações, traficos, atomização) , que a mensagem VOZ perdeu o seu espaço e ar...e andamos todos sedentos de todos. Porque tudo se economizou, proletarizou e o espaço e tempo de amor ficou medíocres e acre e frágil e a austeridade é isso mesmo: uma poluição financeira e uma ditadura, em que o inimigo é difuso." - João Soares, 6.04.15