terça-feira, 16 de junho de 2020
TEDxNewHaven - Charles Eisenstein - The Gift of Happiness
A solidão não se mede aos palmos, por Tolentino Mendonça
Por vezes, dentro de uma casa, a solidão mais invisível é a dos jovens. A solidão não se mede aos palmos — isto deve ser explicado a quem pensa que ela está confinada ao mundo dos adultos. É certo que, a partir de certa idade, e de uma sucessão de acontecimentos desamparados com os quais se colide, surge esse coágulo da alma, que luta para se tornar fixo. Não admira que os adultos farejem mais recorrentemente a solidão uns nos outros, lhe reconheçam os códigos, despistem os seus ziguezagues... Mas, por serem adultos, podem também fazer uso de mais recursos internos, de forças que possuam já ou que procurem, para fazer-lhe frente. A vulnerabilidade dos (mais) velhos é ainda outro discurso, porque aí a solidão, não raro, é um eufemismo para ocultar a palavra abandono. E, sobre isso, as nossas sociedades precisariam de refletir melhor. Mas a solidão dos (mais) novos é, porventura, aquela mais submersa, mais enigmática e confusa para os próprios sujeitos, aquela sobre a qual falamos menos. Possivelmente só daqui a muitos anos, por exemplo, vamos perceber como é que a geração das crianças e adolescentes de hoje viveu esta experiência da pandemia, que medos e incertezas se alojaram neles pela primeira vez ou que perguntas sem resposta se fizeram. Só mais adiante compreenderemos o que representou para eles o fecho abrupto das escolas, a distância dos amigos e coetâneos ou este regresso a uma intensidade da família nuclear, que antes talvez não haviam tido. Contou-me uma amiga que um dos filhos à mesa, tentando interpretar a situação extraordinária que a família está a viver, disse: “Acho que estamos aqui a construir memórias.” Todos olharam para ele, espantados com a grandeza inesperada da definição na boca de um fedelho, mas seguramente aquelas palavras corresponderam dentro dele a emoções, a um esforço concreto de aproximação a uma realidade complexa, a um apaziguamento que encontrou quando foi capaz de justificar a estranheza com uma missão que unia — e unirá depois ainda — toda a sua família, pois as memórias são, como se sabe, moedas para ser usadas no país do futuro.
Nós adultos esquecemo-nos depressa de como as vidas são fragilmente construídas sobre certezas cuja evidência depende da confiança, e que esta é um tão longo e feliz e sofrido caminho
Muitas vezes, quem os vê armados de tecnologia, estirados pela casa, aparentemente fechados nos seus interesses, com a cabeça noutro lado, a responder com monossílabos a frases inteiras não imagina que esse é o modo possível de se protegerem de um mundo que sentem em derrapagem. Que quando vagueiam numa passividade onde só vemos desnorte e indolência eles estejam engolidos, com uma dolorosa reverberação que não captamos, pelo indizível espavento de se terem olhado ao espelho, e de se interrogarem como serão ao acordar no dia seguinte, e no mês seguinte. E que quando parecem implicativos e agressivos estão, a bem dizer, apenas assustados. Nós adultos esquecemo-nos depressa de como as vidas são fragilmente construídas sobre certezas cuja evidência depende da confiança, e que esta é um tão longo e feliz e sofrido caminho.
Ganharíamos tanto se em vez da pressa dos juízos nos déssemos ao trabalho de sintonizar com a solidão dos outros, aprendendo assim a reconciliar-nos com a nossa. A solidão é uma das primeiríssimas experiências de humanidade que fizemos. Lembro aquilo que escreveu a pedopsiquiatra Françoise Dolto: “A solidão dos bebés existe. Eles têm necessidade de que lhes falem, de que lhes cantem, mesmo se ao longe. Ouvem uma voz, não estão completamente sozinhos. O ser humano precisa de companhia. O espaço de um ser humano, desde o nascimento, precisa de ser povoado pela presença psíquica de outro ser para o qual ele existe.”
segunda-feira, 15 de junho de 2020
Poema da Semana: William Shakespeare
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| Apúlia, pelo meu Amigo José Luís Pinto |
Do bronze, pedra, terra e imenso mar,
Pode sobreviver a formosura,
Tendo da flor a força a devastar?
Como pode o aroma do verão
Deter o forte assédio destes dias,
Se portas de aço e duras rochas não
Podem vencer do Tempo a tirania?
Onde ocultar - meditação atroz -
O ouro que o Tempo quer em sua arca?
Que mão pode deter seu pé veloz,
Ou que beleza o Tempo não demarca?
Nenhuma! A menos que este meu amor
Em negra tinta guarde o seu fulgor.
William Shakespeare
domingo, 14 de junho de 2020
Eucalipto continua a ser a espécie mais autorizada em Portugal
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| Fonte: aqui |
Brasil tem 107 povos indígenas isolados na Amazónia
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| Fonte: aqui |
sábado, 13 de junho de 2020
Sobre a violência: a estátua de Vieira e a ignorância
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| António Carlos Cortez |
quinta-feira, 11 de junho de 2020
Pode ler aqui na íntegra a intervenção de José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal
O DIÁRIO publica na íntegra a intervenção proferida hoje pelo Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2020, o Cardeal madeirense D. José Tolentino de Mendonça.
O QUE É AMAR UM PAÍS
Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (...) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.
É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.
Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte - a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança - mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.
Camões e a arte do desconfinamento
Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura - àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.
Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.
Que a crise nos encontre unidos
Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.
No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.
Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.
O que é amar um país
O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.
O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre - e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.
Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.
Reabilitar o pacto comunitário
O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.
É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.
Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.
Fortalecer o pacto intergeracional
Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.
A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.
Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.
Implementar um novo pacto ambiental
A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.
Uma viagem que fazemos juntos
Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem - e efetivamente são - corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim - explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.
Cardeal José Tolentino de Mendonça
Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 10 de junho de 2020
terça-feira, 9 de junho de 2020
Não desvalorizarão a manifestação
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| Por Vitor Beliciano |
«Vamos ser claros. As manifestações de sábado, principalmente em Lisboa, surpreenderam quase toda a gente. Quem organizou, porque não esperava uma tão grande adesão. Mas sobretudo quem não deseja que nada mude. Ou até quem querendo, que seja de forma a ajustar-se a um guião que não permita desvios às suas expectativas. Tudo o que não ocorreu no sábado.
Porque o que aconteceu foi orgânico, não desenhado a régua e esquadro. E é por isso que foi tão raro, benigno e verdadeiro. Atravessado por paradoxos? Claro. Sê-lo-ia em qualquer tempo, quanto mais neste. Comecemos pela pandemia. Foi arriscado? Sim, mas um risco calculado, como todos os passos que damos hoje. É consensual, a distância física nunca seria simples de manter, mas das máscaras à higiene, seguiram-se as directrizes, com consciência do espaço e tempo que estamos a atravessar.
Que é um tempo de antinomias. O problema não é haver contradições. É haver quem as instrumentalize. Elas estão presentes desde o primeiro dia. Vivi-as quando ligava a TV e o mantra do “ficar em casa” era repetido, e olhava pela janela para as obras do novo espaço da EDP e via magotes de operários, sem outra alternativa, que não fosse laborar – inclusive aos feriados, sábados e, às vezes, à noite, com a benesse da Câmara de Lisboa, que passa licenças especiais a estas obras sabe-se lá com que critérios. E quem fala desta, diz outras, para lá de fábricas ou de sectores de emprego temporário.
Seria bom que quem passa o tempo a dar lições de moral, e se inquieta com manifestações, apontando os critérios contraditórios, que tivesse presente que eles estão aí desde o início e os mais prejudicados por eles são os mais desprotegidos, que têm poucas ou nenhumas opções. E é também em seu nome que estas concentrações se realizam, porque são os mais invisíveis que mais necessitam de fazer representar os seus direitos.
Uma outra forma de tentar desvalorizar o que aconteceu é isolar elementos – como um cartaz – e fazê-los valer pelo todo, ou acentuar que se trata de uma mera réplica do que está a acontecer nos Estados Unidos, desde a morte de George Floyd, sem relação com o contexto local. E a prova seria uma série de acontecimentos anteriores (da agressão na Amadora a Cláudia Simões, à morte de Ihor Homenyuk) que não teriam a mesma amplitude.
É verdade que às vezes é mais fácil olhar para fora do que para dentro, mas neste caso existe uma ressonância simbólica, que tem a ver com este momento em concreto – de desordem, de pandemia, de lideranças mundiais autoritárias e de intransigência para actos de racismo, de violência de género ou de agressões ambientais, principalmente entre as novas gerações, que têm uma perspectiva globalizada dos acontecimentos.
Aquilo que fez juntar, no sábado, em tantas cidades por esse mundo fora, milhões de pessoas, foi em primeiro lugar, o racismo sistémico, esteja ele ancorado nos Estados Unidos, no México, em Inglaterra ou em Portugal. Mas nitidamente existe algo mais. Um ambiente que não chega a formar um todo coerente, mas que congrega fragmentos diversos, onde se discerne uma oposição a uma cultura neocolonial, patriarcal ou neoliberal.
A morte de George Floyd corporizou tudo isso. É a morte de um afro-americano num contexto de violência policial. Mas também um desejo de mudança, que corresponde sempre a um processo demorado, não a um acontecimento circunstancial. O que acontece é que, por vezes, existem acontecimentos que materializam muitos outros que ocorreram ao longo dos anos. E é isso que está a suceder. As transformações às vezes começam assim, de forma inesperada e no tempo mais imprevisível, correspondendo a um desejo inconsciente que estava lá antes de acontecer, mas que ainda não tinha sido declarado. As grandes mudanças nunca pedem aprovação.
E isso assusta quem não as deseja. É daí que vem o menosprezo. E depois também existe quem fala em mudar, mas apenas segundo um figurino que não permite o inesperado e vidas a pulsar lá dentro. Que foi exactamente aquilo que tivemos no sábado. Um desses acontecimentos autênticos que poucos previram, marcado pelo desejo de justiça, dignidade e mudança.»
Mais de metade dos professores ainda não conseguiram contactar alunos
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| Fonte: aqui |
«A meio do 3.º período, mais de metade (54,8%) dos professores continuavam sem conseguir contactar os seus alunos nem através da Internet, nem por qualquer outro meio, revela um inquérito sobre a experiência do ensino à distância divulgado nesta segunda-feira pela Federação Nacional de Professores (Fenprof).
Esta situação vivida em meados de Maio dá conta não só da dificuldade de acesso a meios digitais por parte de muitos alunos, mas também de “um total alheamento em relação à escola”, frisa a Fenprof. Para acrescentar o seguinte: “Posteriormente, em alguns casos, foi possível estabelecer contacto com alguns desses alunos, para o que foi importante a colaboração das autarquias; contudo, a maior parte deles, mesmo a partir daí e conforme testemunho dos respectivos professores, não manteve uma participação regular na actividade lectiva desenvolvida à distância”.
O ensino à distância foi lançado com o encerramento das escolas a 16 de Março devido à pandemia da covid-19 e mantêm-se para os alunos do 1,º ao 10.º ano de escolaridade. Os do 11.º e 12.º regressaram às aulas presenciais a 18 de Maio.
Responderam a este inquérito 3548 professores (com respostas validada), dos quais 63,9% são docentes do 3.º ciclo e do ensino secundário e quase outros tantos têm idades superiores a 50 anos.
“Dar conteúdos novos sem conseguir chegar a todos é injusto é desigual e nem sei como se pode avaliar assim”, diz um professor. É um dos 10 mil comentários que a Fenprof diz ter recolhido sobre os vários itens em análise no inquérito agora apresentado. Para o efeito foi reservado um espaço para estas “respostas abertas”. Voltando à avaliação quantitativa, constata-se que, apesar das ausências dos alunos nas aulas à distância, 70,5% dos professores estão a leccionar novos conteúdos e 47,8% tencionam avaliá-los no final deste 3.º período.
Segundo a estrutura sindical dirigida por Mário Nogueira, estas foram as orientações que chegaram do Ministério da Educação: avançar com “novos conteúdos para que se cumprissem, na íntegra, os programas”.
Como se pode ver pelos resultados, a maioria dos professores está a cumprir estas orientações. Embora muitos dêem conta do seu desagrado, como testemunha este comentário: “Gosto de ser professora, de estar na escola e olhar os meus alunos nos olhos (…) Tenho uma opinião muito desfavorável em relação a tudo isto, não porque sou retrógrada ou antiquada, mas apenas porque houve uma pressa muito grande em ‘montar’ este espectáculo digital sem ter em atenção que não vamos chegar a todos os alunos. Na minha opinião, solução que não chega a todos não é solução”.
Mais desigualdades
Mais de três quartos dos docentes têm alunos com necessidades educativas especiais, mas 40,8% deles afirmam desconhecer se as medidas de apoio que estarão a ser disponibilizadas a estes estudantes são as “adequadas”. Para a Fenprof, este valor “sugere que, após o encerramento das escolas [a 16 de Março], houve uma quebra de contacto entre os docentes das turmas e os de educação especial”, o que tem motivado protestos por parte de pais. Entre os professores que estão a par do trabalho desenvolvido com os estudantes com mais necessidades, 43,9% consideram que as medidas de apoio têm sido “adequadas”.
Do que não existem dúvidas é que esta experiência em curso há mais de três meses veio agravar as desigualdades existentes entre os alunos. É essa a opinião de 93,5% dos professores. Entre as razões apontadas para tal figuram a “falta de apoios” e “questões de ordem social que, já tendo contornos graves, se tornaram ainda mais problemáticas, com dois milhões de trabalhadores a ficarem em layoff ou no desemprego”. “Esta situação tem forte repercussão no funcionamento das famílias, designadamente no acompanhamento dos filhos”, destaca a Fenprof.
“A tentativa de reproduzir à distância os mecanismos do ensino presencial violou os direitos dos alunos, dos professores e das famílias de forma sistemática e imponderada. Ludibriou os alunos e as famílias”, aponta um dos professores questionados. Outro tenta ser mais benévolo, mas o diagnóstico não chega a ser positivo: “Ainda que considerássemos as medidas do Governo como as possíveis face à nova realidade, digamos que é um penso pequeno para uma ferida muito grande.”
Estado de exaustão
Cerca de 65% dos inquiridos também não hesita em considerar que esta experiência de ensino à distância “tem sido mais exigente” do que a das aulas presenciais, sobretudo porque, na prática, deixou de haver horários. “A sobrecarga de trabalho é assustadora e doentia, como se os professores, por permanecerem em casa, tivessem de estar 24 horas disponíveis para a escola”, testemunha uma professora.
Não é assim de estranhar que digam ter atingido um “muito elevado estado de exaustão”, para o qual também tem contribuído a “falta de apoio” por parte do Ministério da Educação. É o que apontam 58,9% dos professores. Já em relação ao apoio por parte das direcções das escolas (86,5%) e dos pais (91,5%), a larga maioria descreve-o como positivo.
Ainda em relação ao Ministério da Educação, refira-se que o apoio positivo destacado é o do lançamento do chamado #EstudoEmCasa, a nova telescola, apontado sobretudo pelos professores dos alunos mais pequenos.
Quanto ao resto acrescente-se mais este testemunho: “…faltam dinâmicas mais funcionais, orientações mais precisas e claras, faltam recursos, faltam meios, faltam competências... falta tempo... falta preparação e, às vezes, bom senso…”.»
Vidéo : San Francisco a un pont qui chante
Les habitants de San Francisco ont été confrontés ces dernières semaines à des chants et des pleurs qui se font entendre à des kilomètres à la ronde ! La cause ? Le célèbre Golden Gate Bridge, qui a été doté d'une nouvelle rambarde, plus légère, le long de la piste cyclable. La nouvelle rambarde est dotée de barres plus fines afin que le pont souffre moins du vent, ce qui n'est pas sans importance dans une baie où le vent souffle parfois très fort.
Mais l'air vibre d'une manière spécifique lorsqu'il souffle le long de cette rambarde, ce qui fait chanter le pont ! Certaines personnes trouvent le son "apaisant", d'autres pas du tout ! En tout état de cause, le service local de la circulation n'a pas l'intention de retirer les nouvelles rambardes : "Les nouvelles rambardes devraient rendre le pont plus aérodynamique par vent fort et sont nécessaires pour maintenir la sécurité et l'intégrité structurelle pour de nombreuses générations à venir".
segunda-feira, 8 de junho de 2020
Hospitales de Noruega construyen cabañas para sanar pacientes con naturaleza
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| Fonte: aqui |
domingo, 7 de junho de 2020
“Não tem mais mundo pra todo mundo”, diz Deborah Danowski
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