terça-feira, 16 de junho de 2020

TEDxNewHaven - Charles Eisenstein - The Gift of Happiness

Charles Eisenstein is the author of The Ascent of Humanity and Sacred Economics as well as numerous articles in print and online. A faculty member of Goddard College, he speaks and teaches worldwide on themes of transition, community, money, consciousness, and the evolution of culture. Charles has also been featured on the viral video by filmmaker Ian MacKenzie, "The Revolution is Love." Before becoming a writer, he was a Chinese-English translator living in Taiwan. He graduated from Yale University in 1989 with a degree in mathematics and philosophy. 

About TEDx: In the spirit of ideas worth spreading, TEDx is a program of local, self-organized events that bring people together to share a TED-like experience. At a TEDx event, TEDTalks video and live speakers combine to spark deep discussion and connection in a small group. These local, self-organized events are branded TEDx, where x = independently organized TED event. The TED Conference provides general guidance for the TEDx program, but individual TEDx events are self-organized.* (*Subject to certain rules and regulations)

A solidão não se mede aos palmos, por Tolentino Mendonça


Por vezes, dentro de uma casa, a solidão mais invisível é a dos jovens. A solidão não se mede aos palmos — isto deve ser explicado a quem pensa que ela está confinada ao mundo dos adultos. É certo que, a partir de certa idade, e de uma sucessão de acontecimentos desamparados com os quais se colide, surge esse coágulo da alma, que luta para se tornar fixo. Não admira que os adultos farejem mais recorrentemente a solidão uns nos outros, lhe reconheçam os códigos, despistem os seus ziguezagues... Mas, por serem adultos, podem também fazer uso de mais recursos internos, de forças que possuam já ou que procurem, para fazer-lhe frente. A vulnerabilidade dos (mais) velhos é ainda outro discurso, porque aí a solidão, não raro, é um eufemismo para ocultar a palavra abandono. E, sobre isso, as nossas sociedades precisariam de refletir melhor. Mas a solidão dos (mais) novos é, porventura, aquela mais submersa, mais enigmática e confusa para os próprios sujeitos, aquela sobre a qual falamos menos. Possivelmente só daqui a muitos anos, por exemplo, vamos perceber como é que a geração das crianças e adolescentes de hoje viveu esta experiência da pandemia, que medos e incertezas se alojaram neles pela primeira vez ou que perguntas sem resposta se fizeram. Só mais adiante compreenderemos o que representou para eles o fecho abrupto das escolas, a distância dos amigos e coetâneos ou este regresso a uma intensidade da família nuclear, que antes talvez não haviam tido. Contou-me uma amiga que um dos filhos à mesa, tentando interpretar a situação extraordinária que a família está a viver, disse: “Acho que estamos aqui a construir memórias.” Todos olharam para ele, espantados com a grandeza inesperada da definição na boca de um fedelho, mas seguramente aquelas palavras corresponderam dentro dele a emoções, a um esforço concreto de aproximação a uma realidade complexa, a um apaziguamento que encontrou quando foi capaz de justificar a estranheza com uma missão que unia — e unirá depois ainda — toda a sua família, pois as memórias são, como se sabe, moedas para ser usadas no país do futuro.

 

Nós adultos esquecemo-nos depressa de como as vidas são fragilmente construídas sobre certezas cuja evidência depende da confiança, e que esta é um tão longo e feliz e sofrido caminho

 

Muitas vezes, quem os vê armados de tecnologia, estirados pela casa, aparentemente fechados nos seus interesses, com a cabeça noutro lado, a responder com monossílabos a frases inteiras não imagina que esse é o modo possível de se protegerem de um mundo que sentem em derrapagem. Que quando vagueiam numa passividade onde só vemos desnorte e indolência eles estejam engolidos, com uma dolorosa reverberação que não captamos, pelo indizível espavento de se terem olhado ao espelho, e de se interrogarem como serão ao acordar no dia seguinte, e no mês seguinte. E que quando parecem implicativos e agressivos estão, a bem dizer, apenas assustados. Nós adultos esquecemo-nos depressa de como as vidas são fragilmente construídas sobre certezas cuja evidência depende da confiança, e que esta é um tão longo e feliz e sofrido caminho.

 

Ganharíamos tanto se em vez da pressa dos juízos nos déssemos ao trabalho de sintonizar com a solidão dos outros, aprendendo assim a reconciliar-nos com a nossa. A solidão é uma das primeiríssimas experiências de humanidade que fizemos. Lembro aquilo que escreveu a pedopsiquiatra Françoise Dolto: “A solidão dos bebés existe. Eles têm necessidade de que lhes falem, de que lhes cantem, mesmo se ao longe. Ouvem uma voz, não estão completamente sozinhos. O ser humano precisa de companhia. O espaço de um ser humano, desde o nascimento, precisa de ser povoado pela presença psíquica de outro ser para o qual ele existe.”

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Poema da Semana: William Shakespeare

Apúlia, pelo meu Amigo José Luís Pinto
Se a morte predomina na bravura
Do bronze, pedra, terra e imenso mar,
Pode sobreviver a formosura,
Tendo da flor a força a devastar?
Como pode o aroma do verão
Deter o forte assédio destes dias,
Se portas de aço e duras rochas não
Podem vencer do Tempo a tirania?
Onde ocultar - meditação atroz -
O ouro que o Tempo quer em sua arca?
Que mão pode deter seu pé veloz,
Ou que beleza o Tempo não demarca?
Nenhuma! A menos que este meu amor
Em negra tinta guarde o seu fulgor.

William Shakespeare


domingo, 14 de junho de 2020

Eucalipto continua a ser a espécie mais autorizada em Portugal

Nos últimos seis anos, o eucalipto foi, de longe, a espécie arbórea florestal mais autorizada em Portugal. Dados fornecidos pelo ICNF revelam que, entre Outubro de 2013 e Junho de 2020, foi validada a plantação de 81.475 hectares de eucaliptos. A segunda espécie mais autorizada foi o pinheiro-manso, com 5931 hectares validados e maior expressão em Lisboa e Vale do Tejo.
Fonte: aqui


O trauma dos incêndios de 2017 pôs a nu a monocultura do eucalipto, mas nem assim esta espécie arbórea deixa de ser a mais autorizada em Portugal. Ao abrigo do Decreto-Lei 96/2013, de 19 de Julho, o anterior regime jurídico aplicável às acções de arborização e rearborização (RJAAR) e que estava em vigor aquando dos fogos que assolaram Mação e Pedrógão Grande há três anos, a expansão daquela espécie era notória.

Entre Outubro de 2013, data do início da vigência daquele RJAAR, e Maio de 2015, oitenta por cento das novas plantações e 94% das replantações produzidas na floresta portuguesa sem recurso a ajudas públicas tinham tido o eucalipto como a árvore de eleição.

Os dados agora enviados ao PÚBLICO pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) revelam que, entre Outubro de 2013 e 3 de Junho de 2020, foi autorizada ou validada a plantação de 81.475 hectares de eucaliptos, dos quais 2801 hectares nos anos de 2019 e 2020. A grande parte das áreas autorizadas com aquela espécie são nas regiões Centro (31.849 hectares) e Lisboa e Vale do Tejo (24.704 hectares). Segue-se o Alentejo (13.233 hectares) e o Algarve (6297 hectares). O Norte é a região com menos área florestal com autorização de novos eucaliptos (5392 hectares).
Quanto às restantes espécies florestais autorizadas, o pinheiro-manso (5931 hectares), o sobreiro (4810 hectares), o pinheiro-bravo (2671 hectares) e as folhosas (4358 hectares) sobressaem, ainda que com áreas validadas muito inferiores às do eucalipto.


O ICNF faz, no entanto, uma ressalva: “Os valores apresentados não podem ser interpretados como já executados no terreno, uma vez que os projectos autorizados ou validados dispõem de uma validade de dois anos para a sua execução.”
FotoEntre 2013 e 2020, o ICNF autorizou a plantação de 5931 hectares de pinheiro-manso, a segunda espécie mais visada. RUI GAUDÊNCIO

Questionado ainda sobre quantos projectos de arborização e rearborização foram aprovados em 2019 e em 2020 e que espécies florestais envolvem, o gabinete de comunicação do ICNF adiantou que, “em 2019, foram autorizados ou validados 2454 projectos de acções de arborização ou rearborização. Os valores apurados para o ano de 2020 possuem “carácter provisório”, uma vez que respeitam apenas ao período até 3 de Junho.


À parte destes números, numa newsletter disponível no website do INCF com os principais indicadores do RJAAR referentes ao período entre Outubro de 2013 e Junho de 2019, verificamos outro dado curioso. Em termos globais (RJAAR, ProDer, Instituto do Ambiente e ICNF), entre aquelas datas tinham sido aprovados 107.286 hectares relativos a acções de (re)arborização em Portugal. O eucalipto representa 69%, seguido do sobreiro com 11% e do pinheiro-manso com 7%.

Com a entrada em vigor, em Janeiro de 2018, da Lei n.º 77/2017, de 17 de Agosto, “não ocorreu autorização/validação de novas áreas de eucalipto”, sendo que “87% da área dos pedidos de rearborização autorizados/validados correspondem a áreas com espécies do género Eucalyptus spp”, lê-se na mesma publicação.

Note-se que esta alteração ao RJAAR apenas permite plantação ou replantação de eucaliptos em áreas de povoamentos já existentes e mediante planos de gestão e ordenamento previamente aprovados. Por outro lado, introduz uma moratória à plantação de novas áreas de eucalipto, que só poderão ocorrer mediante permuta e com eliminação de uma área equivalente daquela espécie como condição para um novo licenciamento. Esse novo licenciamento ainda fica sujeito às regras do ordenamento florestal, ou seja, apenas é exequível após transposição dos Planos Regionais de Ordenamento da Floresta para os Planos Directores Municipais.


Recorde-se que, em plena execução da reforma da legislação sobre a floresta encetada pelo então ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, foi publicada em Diário da República a Lei nº 77/2017, que promoveu a primeira alteração ao RJAAR.

O diploma visou sobretudo travar a expansão do eucalipto em Portugal, muito criticada desde os fogos de há três anos. A lei estipulava, expressamente, que “não são permitidas as ações de arborização com espécies do género Eucalyptus sp.” e que “a rearborização com espécies do género Eucalyptus sp. só é permitida quando a ocupação anterior constitua um povoamento puro ou misto dominante, tal como definido em sede do Inventário Florestal Nacional, de espécies do mesmo género”.

O RJAAR sofreu nova alteração em 2019, com a entrada em vigor a 22 de Janeiro do Decreto-Lei n.º 12/2019, ainda em vigor. Destaca-se a possibilidade de o conselho directivo do ICNF poder decidir pelo arranque e remoção da instalação de plantas colocadas ilegalmente, no prazo de 180 dias. A par disso, são estabelecidas obrigações para quem executa acções de arborização ou de rearborização, no sentido de ser acautelada a existência de autorização ou comunicação prévia ao ICNF.

Brasil tem 107 povos indígenas isolados na Amazónia

Fonte: aqui


O Brasil tem, hoje, 107 povos indígenas isolados na Amazônia. Essa informação é de um levantamento feito pela Agência France Presse (AFP), com dados fornecidos pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Ao todo, a área amazônica inteira — que não está somente em território brasileiro, mas também em Peru, Bolicia e Colômbia — abriga pelo menos 128 comunidades isoladas.

O número tende a ser ainda maior, uma vez que a Colômbia disse que não tem um número oficial sobre esses povos. O país informou que existe a possibilidade de haver cerca de 15 povos que voluntariamente se isolaram na Amazônia colombiana, porém não há confirmação.

Segundo o levantamento, a Bolívia tem cinco comunidades isoladas, todas identificadas por pesquisas da Universidade Pública de La Paz; enquanto o Peru tem 16 povos deste tipo, reunindo cerca de 4.500 pessoas. Neste último país, há, ainda, outras três comunidades — que reúnem 2.500 pessoas — que podem ser caracterizadas como povos em situação de "contato inicial" com o mundo exterior. Isso significa dizer que elas não estão completamente isoladas, e, sim, que mantem relações esporádicas com o restante da populaçao peruana.

O tema chama especial atenção dias após um missionário americano de 27 anos ser morto a flechadas depois de entrar em uma ilha da Índia ocupada por uma tribo indígena que vive isolada. John Allen pretendia chegar ao local para apresentar o cristianismo aos índios.

"Ele tentou chegar à Ilha Sentinela do Norte em 14 de novembro, mas não conseguiu", disse uma fonte à AFP. "Dois dias depois, ele se preparou melhor. E chegou de canoa à ilha."

O corpo flechado de Allen foi arrastado pelos indígenas com ajuda de uma corda presa ao pescoço e foi abandonado em uma praia. A Ilha Sentinela do Norte é proibida para visitantes, fato que foi ignorado pelo missionário, que já havia tentado se aproximar dos índios em outros momentos.

As autoridades indianas nem mesmo enviaram policiais ao lugar, já que por décadas toda a tentativa de contato terminou em hostilidade.

VULNERABILIDADE TERRITORIAL E SOCIOCULTURAL

No Brasil, em agosto deste ano, a Funai chegou a publicar um vídeo filmado por um drone que revelava a existência de um único indio, desconhecido até então, que vive isolado na fronteira entre o Brasil e o Peru. O restante da tribo dele foi dizimado há mais de 20 anos.


Indivíduos assim, embora não tenham qualquer contato com o mundo exterior, estão expostos a perigos crescentes devido a ações de traficantes e à exploração mineral e florestal.

Nem mesmo os pedidos do Papa Francisco têm sido escutados: quase um ano depois de sua visita à Amazônia, as ameaças que pesam sobre esses povos persistem. O tráfico de drogas, a mineração ilegal e o desmatamento clandestino seguem causando danos ao meio ambiente e aos indígenas.

"Esses grupos se encontram em estado de grande vulnerabilidade sanitária, territorial e sociocultural", afirmou à AFP a diretora de Direitos de Povos Indígenas do Ministério da Cultura do Peru, Ángela Acevedo.

A exemplo do que aconteceu na ilha indiana, quando o missionário morreu a flechadas, na Amazônia também há indígenas que reagem violentamente. Entretanto, na região, os traficantes, mineradores ilegais e madereiros clandestinos podem ser ainda mais perigosos para esses grupos.

"O narcotráfico constitui outra ameaça crescente à vida dos povos em isolamento voluntário e contato inicial", destaca a Comissão Interamericana de Direitos Humanos em um comunicado.

"Esta atividade frequentemente acontece em zonas tropicais remotas e de difícil acesso, que onde habitam e transitam os povos em isolamento", conclui a nota.

A ONG Survival — que luta pela sobrevivência desses povos isolados, em especial por meio da proteção de seu ambiente natural — destaca que, além da Amazônia, e comum a existência de tribos isoladas particularmente em países como Índia, Indonésia (Papua Ocidental) e Papua Nova Guiné.

sábado, 13 de junho de 2020

Poema da semana: "Eu (não) me resigno" | Fernando Pessoa

Eu (não) me resigno. | Fernando Pessoa _PT from BASE Comunicação Audiovisual on Vimeo.

Sobre a violência: a estátua de Vieira e a ignorância

António Carlos Cortez


A respeito da destruição e vandalização de estátuas que representam heróis do passado, quer em diversas cidades dos EUA, quer em outras cidades do mundo, vale a pena partir dum pressuposto teórico e prático que, em rigor, nos ajudará a ver melhor a razão de alguns actos de violência levados a cabo recentemente. A reboque da indignação por mais uma morte dum afro-americano, Floyd, mártir entre mártires, não se contesta e não se pode contestar a raiva (também muitos europeus a sentem, e americanos também) por, no século XXI, ciganos, índios, negros – no fundo, os humilhados de sempre – continuarem a ser ofendidos, assassinados, ostracizados, discriminados.

Todavia, convém não perder de vista que a mundividência e mundivivência do homem branco nesse passado que, a vários títulos, deve ser conhecido para que não se repitam erros reiterados, assentava numa lógica imperialista da Europa dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Uma visão própria da “era dos impérios” e que, no dizer de Hobsbawm, se prolongou com o poder político do complexo industrial-militar no país de Trump. A mesma lógica, no fundo, que o Poder sempre seguiu para manter privilégios de classe e explorar quer recursos naturais de outras nações, quer outros homens dentro da própria nação, sejam eles negros, ciganos, judeus, brancos.

Foi assim desde a rainha Vitória, passando por Cecil Rhodes a Leopoldo II, foi assim desde os tempos de Edward Colston, comerciante de escravos, e desde Colombo, às teses darwinistas do século XIX, sem esquecer o actual paradigma neo-darwinista e geneticista, que tudo pretende explicar a partir dum ultra-cientifismo que esquece que o mundo humano é feito de contradições. Foi a ignorância e o preconceito que moldaram a visão do Poder, sempre empenhado em reduzir a animais de carga (leia-se Cesário) os que não nasceram com brasão ou não fazem parte das elites financeiras, militares, políticas, desde os fascismos ao apartheid, do estalinismo aos regimes de Pol Pot ou de Pinochet. Este mesmo programa de exploração continua hoje com Bolsonaro no Brasil e com Maduro na Venezuela, com Orbán na Hungria e Erdogan na Turquia; continua com os neo-liberais-fascistas que vão tomando conta das empresas e em Portugal continua sob a forma de uma investida tecno-totalitária que visa eliminar a memória. 

Estátua do rei Leopoldo II, uma figura controversa da história da Bélgica, grafitada no parque do Museu de África, em Tervuren, na Bélgica. EPA/STEPHANIE LECOCQ

Esta violência tem já consequências. A pretexto deste coronavírus, muitos patrões, e muitos governos, ao serviço de grupos económicos globais, defendem a revolução digital segundo um mesmo princípio imperialista e de dominação financeira. Para que tal aconteça, convém fazer do paradigma científico um instrumento ao serviço da minimização das humanidades. Na minha perspectiva, é precisamente o facto de termos hoje gerações e gerações de crianças e jovens (jovens adultos desempregados, explorados nas relações de trabalho, vivendo nas periferias, americanizados da pior maneira, mimetizando tudo) que não sabem de História e nada aprenderam de Literatura que justifica que tenha sido uma estátua de Vieira a ser vandalizada. Ignoram, talvez, alguns factos da vida do grande sermonista.

Como defendeu Hannah Arendt em On Violence (Sobre a Violência, Relógio d’Água, 2014), na esteira de Lenine, segundo o qual o século XX seria um tempo de guerras e revoluções, é a revolução tecnológica, imparável, que escraviza o homem e o coloca num processo em que a fé irracional na tecnologia o transforma na vítima daquilo mesmo que inventou. A consequência desse homo tecnologicus é ser ele um escravo da ignorância, um cultor do niilismo. É, pois, a ausência da História e da Cultura que leva aos radicalismos. No sentido que lhe dão Leopold Senghor, mas também Thommas Mann ou Herman Broch; Angela Davis ou Spke Lee, e, no mundo português, Agostinho Neto ou o movimento Claridade; no sentido pluralista que muitos intelectuais formados no seio da Seara Nova (Sérgio, por exemplo, ou Cortesão) entenderam ser o dever das democracias, é pela Cultura e pelo saber da História e da Literatura que se pode, hoje, projectar um futuro. Justamente os homens da Seara Nova apontaram como saída para o “caso colonial português” uma educação ancorada numa cultura integradora, em que o propalado lusitanismo ou ecumenismo lusíada nada tinham que ver com a retórica patrioteira de salazares e companhia fascista.
Avaliar este acto perpetrado sobre uma estátua de alguém a quem os índios chamavam Payassu ("Padre Grande”, ou “Grande Pai") deveria merecer por parte dos poderes não um apressado revisionismo histórico (em que Vieira e Salazar valem o mesmo), mas uma aposta decidida nas Humanidades

É dentro dum quadro de convivência de culturas, de fraternidade e combate pelo fim das desigualdades e livre acesso ao saber que a revolta dos negros e dos ciganos, das minorias e de quantos, pobres, são explorados pelo Capital do Empresariado, que se deve pensar e agir. O que explica que a estátua de Vieira tenha sido vandalizada é o não se saber que foi Vieira o mais destacado defensor dos índios do Brasil. Foi Viera quem denunciou a exploração dos colonos de São Luís do Maranhão. Foi Vieira quem denunciou os que, vivendo do tráfico, não respeitavam a lei régia de D. João IV, à luz da qual o tráfico de índios naquela colónia era proibido. Foi Viera quem, atravessando o Atlântico dezenas de vezes, fez chegar a Roma os abusos dos torcionários da Inquisição. Foi Vieira quem redigiu a lei que defendia e colocava os índios que estivessem sob a alçada das missões jesuítas longe dos arbítrios de colonos sanguinolentos. Vieira foi, ele próprio, vítima de ostracismos vários por ser mestiço. E foi preso e denunciado pelos padres da Inquisição que viam nele um feroz opositor das negociatas esclavagistas a que a Igreja fechava os olhos, mas que ele, como homem de Igreja, combatia.

O célebre Sermão de Santo António aos Peixes é prova provada do amor à humanidade em todas as suas formas. As próprias palavras escritas a vermelho ("Descoloniza") mostram que é a ignorância – e a ausência dum saber sólido que a escola não deu, que a educação, falha de Literatura e de Humanidades, não pode dar aos que nasceram já nos anos 2000 – o motor que, no fundo, aliado à fúria (que é legítima), tudo brutaliza. Avaliar este acto perpetrado sobre uma estátua de alguém a quem os índios chamavam Payassu ("Padre Grande”, ou “Grande Pai") deveria merecer por parte dos poderes não um apressado revisionismo histórico (em que Vieira e Salazar valem o mesmo), mas uma aposta decidida nas Humanidades. Só através duma educação centrada na compreensão da alteridade poderemos vencer esta nova guerra em que os humilhados da História se viram para as elites e lhes apontam – com toda a razão – os seus olhos de fome e de miséria. Guerra, diga-se, que implica gestos simbólicos que não falhem o alvo. Carmona fora do Panteão Nacional, eis o que seria um sinal dum Estado culto.


Poeta, crítico literário e professor

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Pode ler aqui na íntegra a intervenção de José Tolentino Mendonça no Dia de Portugal

Fonte: aqui

O DIÁRIO publica na íntegra a intervenção proferida hoje pelo Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2020, o Cardeal madeirense D. José Tolentino de Mendonça.

O QUE É AMAR UM PAÍS

Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (...) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.

É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.

Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte - a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança - mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.

Camões e a arte do desconfinamento

Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura - àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.

Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.

Que a crise nos encontre unidos

Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.

No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.

Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.

O que é amar um país

O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.

O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre - e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.

Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.

Reabilitar o pacto comunitário

O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.

É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.

Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.

Fortalecer o pacto intergeracional

Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.

A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.

Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.

Implementar um novo pacto ambiental

A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.

Uma viagem que fazemos juntos

Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem - e efetivamente são - corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim - explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.

Cardeal José Tolentino de Mendonça

Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 10 de junho de 2020

terça-feira, 9 de junho de 2020

Não desvalorizarão a manifestação

Por Vitor Beliciano


«Vamos ser claros. As manifestações de sábado, principalmente em Lisboa, surpreenderam quase toda a gente. Quem organizou, porque não esperava uma tão grande adesão. Mas sobretudo quem não deseja que nada mude. Ou até quem querendo, que seja de forma a ajustar-se a um guião que não permita desvios às suas expectativas. Tudo o que não ocorreu no sábado.

Porque o que aconteceu foi orgânico, não desenhado a régua e esquadro. E é por isso que foi tão raro, benigno e verdadeiro. Atravessado por paradoxos? Claro. Sê-lo-ia em qualquer tempo, quanto mais neste. Comecemos pela pandemia. Foi arriscado? Sim, mas um risco calculado, como todos os passos que damos hoje. É consensual, a distância física nunca seria simples de manter, mas das máscaras à higiene, seguiram-se as directrizes, com consciência do espaço e tempo que estamos a atravessar.

Que é um tempo de antinomias. O problema não é haver contradições. É haver quem as instrumentalize. Elas estão presentes desde o primeiro dia. Vivi-as quando ligava a TV e o mantra do “ficar em casa” era repetido, e olhava pela janela para as obras do novo espaço da EDP e via magotes de operários, sem outra alternativa, que não fosse laborar – inclusive aos feriados, sábados e, às vezes, à noite, com a benesse da Câmara de Lisboa, que passa licenças especiais a estas obras sabe-se lá com que critérios. E quem fala desta, diz outras, para lá de fábricas ou de sectores de emprego temporário.

Seria bom que quem passa o tempo a dar lições de moral, e se inquieta com manifestações, apontando os critérios contraditórios, que tivesse presente que eles estão aí desde o início e os mais prejudicados por eles são os mais desprotegidos, que têm poucas ou nenhumas opções. E é também em seu nome que estas concentrações se realizam, porque são os mais invisíveis que mais necessitam de fazer representar os seus direitos.

Uma outra forma de tentar desvalorizar o que aconteceu é isolar elementos – como um cartaz – e fazê-los valer pelo todo, ou acentuar que se trata de uma mera réplica do que está a acontecer nos Estados Unidos, desde a morte de George Floyd, sem relação com o contexto local. E a prova seria uma série de acontecimentos anteriores (da agressão na Amadora a Cláudia Simões, à morte de Ihor Homenyuk) que não teriam a mesma amplitude.

É verdade que às vezes é mais fácil olhar para fora do que para dentro, mas neste caso existe uma ressonância simbólica, que tem a ver com este momento em concreto – de desordem, de pandemia, de lideranças mundiais autoritárias e de intransigência para actos de racismo, de violência de género ou de agressões ambientais, principalmente entre as novas gerações, que têm uma perspectiva globalizada dos acontecimentos.

Aquilo que fez juntar, no sábado, em tantas cidades por esse mundo fora, milhões de pessoas, foi em primeiro lugar, o racismo sistémico, esteja ele ancorado nos Estados Unidos, no México, em Inglaterra ou em Portugal. Mas nitidamente existe algo mais. Um ambiente que não chega a formar um todo coerente, mas que congrega fragmentos diversos, onde se discerne uma oposição a uma cultura neocolonial, patriarcal ou neoliberal.

A morte de George Floyd corporizou tudo isso. É a morte de um afro-americano num contexto de violência policial. Mas também um desejo de mudança, que corresponde sempre a um processo demorado, não a um acontecimento circunstancial. O que acontece é que, por vezes, existem acontecimentos que materializam muitos outros que ocorreram ao longo dos anos. E é isso que está a suceder. As transformações às vezes começam assim, de forma inesperada e no tempo mais imprevisível, correspondendo a um desejo inconsciente que estava lá antes de acontecer, mas que ainda não tinha sido declarado. As grandes mudanças nunca pedem aprovação.

E isso assusta quem não as deseja. É daí que vem o menosprezo. E depois também existe quem fala em mudar, mas apenas segundo um figurino que não permite o inesperado e vidas a pulsar lá dentro. Que foi exactamente aquilo que tivemos no sábado. Um desses acontecimentos autênticos que poucos previram, marcado pelo desejo de justiça, dignidade e mudança.»

Mais de metade dos professores ainda não conseguiram contactar alunos

Fonte: aqui

«A meio do 3.º período, mais de metade (54,8%) dos professores continuavam sem conseguir contactar os seus alunos nem através da Internet, nem por qualquer outro meio, revela um inquérito sobre a experiência do ensino à distância divulgado nesta segunda-feira pela Federação Nacional de Professores (Fenprof).

Esta situação vivida em meados de Maio dá conta não só da dificuldade de acesso a meios digitais por parte de muitos alunos, mas também de “um total alheamento em relação à escola”, frisa a Fenprof. Para acrescentar o seguinte: “Posteriormente, em alguns casos, foi possível estabelecer contacto com alguns desses alunos, para o que foi importante a colaboração das autarquias; contudo, a maior parte deles, mesmo a partir daí e conforme testemunho dos respectivos professores, não manteve uma participação regular na actividade lectiva desenvolvida à distância”.

O ensino à distância foi lançado com o encerramento das escolas a 16 de Março devido à pandemia da covid-19 e mantêm-se para os alunos do 1,º ao 10.º ano de escolaridade. Os do 11.º e 12.º regressaram às aulas presenciais a 18 de Maio.

Responderam a este inquérito 3548 professores (com respostas validada), dos quais 63,9% são docentes do 3.º ciclo e do ensino secundário e quase outros tantos têm idades superiores a 50 anos.

“Dar conteúdos novos sem conseguir chegar a todos é injusto é desigual e nem sei como se pode avaliar assim”, diz um professor. É um dos 10 mil comentários que a Fenprof diz ter recolhido sobre os vários itens em análise no inquérito agora apresentado. Para o efeito foi reservado um espaço para estas “respostas abertas”. Voltando à avaliação quantitativa, constata-se que, apesar das ausências dos alunos nas aulas à distância, 70,5% dos professores estão a leccionar novos conteúdos e 47,8% tencionam avaliá-los no final deste 3.º período.

Segundo a estrutura sindical dirigida por Mário Nogueira, estas foram as orientações que chegaram do Ministério da Educação: avançar com “novos conteúdos para que se cumprissem, na íntegra, os programas”.

Como se pode ver pelos resultados, a maioria dos professores está a cumprir estas orientações. Embora muitos dêem conta do seu desagrado, como testemunha este comentário: “Gosto de ser professora, de estar na escola e olhar os meus alunos nos olhos (…) Tenho uma opinião muito desfavorável em relação a tudo isto, não porque sou retrógrada ou antiquada, mas apenas porque houve uma pressa muito grande em ‘montar’ este espectáculo digital sem ter em atenção que não vamos chegar a todos os alunos. Na minha opinião, solução que não chega a todos não é solução”.

Mais desigualdades

Mais de três quartos dos docentes têm alunos com necessidades educativas especiais, mas 40,8% deles afirmam desconhecer se as medidas de apoio que estarão a ser disponibilizadas a estes estudantes são as “adequadas”. Para a Fenprof, este valor “sugere que, após o encerramento das escolas [a 16 de Março], houve uma quebra de contacto entre os docentes das turmas e os de educação especial”, o que tem motivado protestos por parte de pais. Entre os professores que estão a par do trabalho desenvolvido com os estudantes com mais necessidades, 43,9% consideram que as medidas de apoio têm sido “adequadas”.

Do que não existem dúvidas é que esta experiência em curso há mais de três meses veio agravar as desigualdades existentes entre os alunos. É essa a opinião de 93,5% dos professores. Entre as razões apontadas para tal figuram a “falta de apoios” e “questões de ordem social que, já tendo contornos graves, se tornaram ainda mais problemáticas, com dois milhões de trabalhadores a ficarem em layoff ou no desemprego”. “Esta situação tem forte repercussão no funcionamento das famílias, designadamente no acompanhamento dos filhos”, destaca a Fenprof.

“A tentativa de reproduzir à distância os mecanismos do ensino presencial violou os direitos dos alunos, dos professores e das famílias de forma sistemática e imponderada. Ludibriou os alunos e as famílias”, aponta um dos professores questionados. Outro tenta ser mais benévolo, mas o diagnóstico não chega a ser positivo: “Ainda que considerássemos as medidas do Governo como as possíveis face à nova realidade, digamos que é um penso pequeno para uma ferida muito grande.”

Estado de exaustão

Cerca de 65% dos inquiridos também não hesita em considerar que esta experiência de ensino à distância “tem sido mais exigente” do que a das aulas presenciais, sobretudo porque, na prática, deixou de haver horários. “A sobrecarga de trabalho é assustadora e doentia, como se os professores, por permanecerem em casa, tivessem de estar 24 horas disponíveis para a escola”, testemunha uma professora.

Não é assim de estranhar que digam ter atingido um “muito elevado estado de exaustão”, para o qual também tem contribuído a “falta de apoio” por parte do Ministério da Educação. É o que apontam 58,9% dos professores. Já em relação ao apoio por parte das direcções das escolas (86,5%) e dos pais (91,5%), a larga maioria descreve-o como positivo.

Ainda em relação ao Ministério da Educação, refira-se que o apoio positivo destacado é o do lançamento do chamado #EstudoEmCasa, a nova telescola, apontado sobretudo pelos professores dos alunos mais pequenos.

Quanto ao resto acrescente-se mais este testemunho: “…faltam dinâmicas mais funcionais, orientações mais precisas e claras, faltam recursos, faltam meios, faltam competências... falta tempo... falta preparação e, às vezes, bom senso…”.»

Vidéo : San Francisco a un pont qui chante

Les habitants de San Francisco ont été confrontés ces dernières semaines à des chants et des pleurs qui se font entendre à des kilomètres à la ronde ! La cause ? Le célèbre Golden Gate Bridge, qui a été doté d'une nouvelle rambarde, plus légère, le long de la piste cyclable. La nouvelle rambarde est dotée de barres plus fines afin que le pont souffre moins du vent, ce qui n'est pas sans importance dans une baie où le vent souffle parfois très fort. 

Mais l'air vibre d'une manière spécifique lorsqu'il souffle le long de cette rambarde, ce qui fait chanter le pont ! Certaines personnes trouvent le son "apaisant", d'autres pas du tout ! En tout état de cause, le service local de la circulation n'a pas l'intention de retirer les nouvelles rambardes : "Les nouvelles rambardes devraient rendre le pont plus aérodynamique par vent fort et sont nécessaires pour maintenir la sécurité et l'intégrité structurelle pour de nombreuses générations à venir".

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Hospitales de Noruega construyen cabañas para sanar pacientes con naturaleza

Fonte: aqui


Desde el año pasado, los médicos en Escocia pueden recetar un poco de naturaleza a sus pacientes. Ahora, Noruega lleva más allá esta práctica orgánica.

En los dos hospitales más grandes de este país nórdico se han construido idílicas cabañas de retiro. En ellas, los pacientes puedan recuperarse de enfermedades, traumas o accidentes rodeados de naturaleza.

Las cabañas fueron construidas por el Hospital de la Universidad de Oslo y el Hospital Sørlandet. Aunque se encuentran en los derredores de ambos hospitales, las cabañas brindan la sensación de estar alejadas, en un lugar tranquilo y apartado. Ahí, los pacientes pueden estar solos o recibir visitas y, lo que es más importante, recobrar energías y recuperar la salud. Es algo muy similar a los ya famosos “baños de bosque” japoneses.
En los países nórdicos tienen otra concepción de las cosas…Sobre todo, de la salud y la naturaleza.Ivar Kvaal

Países como Noruega están muy adelantados a su tiempo en muchos ámbitos, y al mismo tiempo conservan nociones antiguas que les siguen prodigando bienestar.

El término friluftssykehuset, con el que se define a estos hospitales al aire libre, está construido a partir del concepto friluftsliv, mismo que se usa para expresar la importancia que los nórdicos le dan a la naturaleza, y que se traduce literalmente como “vida al aire libre”. Este peculiar concepto se combinó con la palabra para “hospital”, sykehaus, formando el término friluftssykehuset, u “hospital al aire libre”.

El término friluftsliv demuestra que, como señaló el filósofo Wittgenstein, el lenguaje puede transformar el mundo. Este concepto ha dotado a los habitantes de Noruega de una conciencia permanente sobre la necesidad de siempre regresar a la naturaleza: de salir afuera, a los entornos naturales, y no dejar que las grandes ciudades nos escindan de ellos.

Y es que en dicho país se valora a la naturaleza como la gran curandera y amiga: como una gran e infalible guía, abierta para todo el que quiera sumergirse en ella para aprender. Porque los noruegos saben que la naturaleza es siempre coherente, y que a ella debemos volver permanentemente. Se trata de algo que a nosotros nos hace falta reflexionar para saber cómo reorganizar nuestra vida en colectividad, y para evitar que el abismo que nos separa de la naturaleza se haga cada vez más grande.

En lo que concierne a la salud, pocas cosas hay más nocivas que estar lejos de la naturaleza. El aire tóxico de las ciudades nos está enfermando, mientras que las dinámicas contemporáneas de trabajo provocan niveles inauditos de estrés, y la mala alimentación nos está destruyendo desde dentro. Por eso, no habría nada más realista que detenernos en seco y pensar en cómo revitalizar la medicina para restablecer la salud global. En ese sentido, los hospitales al aire libre son una propuesta que en todo el mundo podría –y debería– ser adoptada.

Porque Noruega nos está mostrando el camino. La pregunta es: ¿cambiaremos nuestros ya gastados paradigmas para voltear a una realidad más natural?

domingo, 7 de junho de 2020

“Não tem mais mundo pra todo mundo”, diz Deborah Danowski

Fonte: aqui
Deborah Danowski não é apenas professora, doutora e pós-doutora em filosofia. Ela é uma das maiores estudiosas do aquecimento global, ou do colapso ecológico, como ela prefere, e militante ambiental aguerrida. Com o companheiro, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, divide alguns cursos na pós-graduação Pós-Graduação da PUC, e a autoria de um livro que vem dando muito o que pensar. Lançado em 2014, “Há um mundo por vir: ensaio sobre os medos e os fins” é uma espécie de ensaio-provocação sobre a ruptura do homem com o mundo, que está por trás da destruição do planeta em ritmo assustador. As ficções distópicas no cinema, nas séries de TV, nos livros, as versões de “fins dos mundos” que imaginamos, são uma maneira de expressar a percepção desse colapso, diz Deborah, embora a humanidade esteja longe de perceber a urgência e a extensão dessa catástrofe, da qual a atual pandemia é uma pequena amostra.

Para a filósofa, porém, lembra o que disse Bruno Latour, a elite financeira, política e econômica do planeta, sabe muito bem do que está acontecendo e mente para se proteger. Ela chama a atenção para a desigualdade de efeitos do colapso ecológico sobre as populações, como está acontecendo com o coronavírus. “O aquecimento global é democrático como se diz que a pandemia é democrática, isto é, no sentido de que todos, pobres e ricos, são ou serão atingidos. Mas nenhuma das duas coisas é democrática em relação a quem tem mais capacidade de se proteger, ou meios para reagir, como, no caso da pandemia, o acesso à saúde”.

Pensadora inquieta, Deborah concluiu no ano passado seu segundo pós-doutorado na PUC-SP – o primeiro foi concluído em 2001, junto à Universidade de Paris IV (Panthéon-Sorbonne). O tema de sua pesquisa “Negacionismos” não poderia ser mais relevante no mundo e, especificamente, no Brasil de Bolsonaro – adepto do negacionismo em relação à pandemia – “uma gripezinha” -, à ditadura militar e até dos fatos, com seu desprezo pelo jornalismo e pela ciência. “Tem pessoas que dizem que a Terra é plana, que a ditadura militar não existiu no Brasil, ou que a Globo é comunista, que os nazistas eram de esquerda, que a cloroquina cura sem sombra de dúvida, enfim a lista é longa. Não pode ser por acaso que todas essas coisas se juntaram neste governo e, embora eu tenha estudado um pouco esse fenômeno, ele continua sendo um mistério para mim; porque não são só esses absurdos que são ditos sabe-se lá por quais interesses, são as pessoas que acreditam neles, e que seguem o que o presidente e seus ministros dizem”.

Você estuda os fins dos mundos e fala também de como essa ideia se traduz culturalmente nas distopias produzidas em filmes, livros, séries. Um dos trechos do Há um mundo por vir: ensaio sobre os medos e os fins?, o livro que você escreveu com o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, cita uma dessas catástrofes imaginadas na ficção, a do “supervírus letal”. Como você recebeu a notícia dessa pandemia?

Pois é, mas foi uma menção muito rápida. A gente mencionou o vírus letal, e inclusive poderíamos acrescentar o vírus zumbi, né? [rs]. Brincadeiras à parte, Eduardo e eu falamos do vírus letal dentro desse quadro que a gente chamou de imaginações do fim do mundo. E, embora eu tenha passado anos em torno dessa questão do colapso ambiental, do fim do mundo, e as várias formas desse fim do mundo – mundo sem gente, gente sem mundo, antes e depois do mundo presente –, que foi como a gente começou a pensar as variações possíveis nas imaginações sobre a quebra dessa relação do homem com o mundo, pois na verdade é sobre isso que é o livro, eu tenho que confessar que nunca levei muito a sério esse tipo de coisa – meteoro, vírus letal, guerra bacteriológica – justamente porque já é tão grande o colapso ecológico que isso ocupava minha mente o tempo todo. Então foi uma surpresa pra mim também. E as primeiras notícias vinham cheias de adversativas, diziam que o novo coronavírus não era tão grave assim, que não se espalhava tão rápido quanto o sarampo, então minha primeira tendência foi não prestar atenção. Mas, pra mim, foi muito rápida essa passagem de não prestar atenção a perceber que era uma coisa séria. Já outras pessoas demoraram mais a se dar conta. Há graus diferentes de velocidade com que as pessoas vão se dando conta e vão entendendo que aquilo é real. A minha universidade, por exemplo, demorou um pouco a fechar, dei aulas com 40 alunos, com 60 alunos, e naquele momento eu já sabia que era sério. Tem graus de velocidade com que as pessoas vão se dando conta e vão entendendo que aquilo é real. Acho que isso é muito parecido com a demora maior ou menor com que as pessoas se dão conta do colapso ecológico.

O colapso ecológico é o seu tema principal de estudo. Quando soube da pandemia, você ligou o surgimento do novo coronavírus a essa catástrofe maior? Você acha que as pessoas estão fazendo essa ligação?

Pra mim, sim, era evidente. Não só a origem, mas a forma e a rapidez da disseminação do vírus, que tem a ver com a movimentação das pessoas e produtos, com o transporte global, com o desmatamento, com a agroindústria, com a forma como a gente está vivendo. O colapso ecológico não se resume à mudança climática, são vários parâmetros ou limites planetários; e, se um deles cai, se um deles é ultrapassado, tudo cai junto, é que nem um dominó. E o vírus está dentro desses subsistemas ecológicos, que constituem e sustentam a biosfera. Então, quase imediatamente eu me dei conta e, em seguida, percebi a proximidade desse processo pelo qual as pessoas recebem as notícias da pandemia e do colapso ecológico e respondem ou não a ela.

Claro, há algumas diferenças muito grandes, a começar pela velocidade do próprio acontecimento. A pandemia, em um, dois, três meses aqui no Brasil, já tinha assolado tudo, enquanto a mudança climática é bem mais gradual: a temperatura está aumentando, os eventos extremos estão mais frequentes e fortes, as secas, as tempestades, um pouco aqui, um pouco ali, e os fenômenos não acontecem na mesma velocidade e da mesma forma no mundo inteiro. Então isso permite que as pessoas afastem de si, enquanto podem, esse pensamento, esse perigo, porque é algo muito mais lento e demorado. Mas temos nos dois casos o mesmo processo de recusa do que está acontecendo, de negação, de dizer “não é tão grave”, “é só uma gripezinha”, “vai ter um remédio que vai nos curar, a vacina vai chegar a tempo”, “alguém vai fazer alguma coisa”. E aqui, no Brasil, a gente está percebendo claramente que ninguém vai fazer nada; ou melhor, somos nós mesmos que estamos fazendo, nós que temos que fazer, a sociedade civil, os coletivos, os grupos, ONGs, laboratórios, universidades, artistas, porque do outro lado, do lado do Estado, que hoje virou um poder de milicianos, só encontramos a tentativa de nos impedir, de nos barrar.

E o que é especialmente trágico, cruel, além das mortes, é esse isolamento que a gente é obrigada a fazer, que necessariamente bate em todo mundo e de uma maneira violenta porque não dá nem pra gente enfrentar adequadamente esse governo de loucos. A resistência existe. Por exemplo, tem esse movimento incrível de pessoas que estão se juntando para ajudar, os coletivos, uma porção de grupos da sociedade civil que estão se organizando; as pessoas estão indo lá, enfrentando a pandemia com seus próprios corpos, mas é muito difícil enfrentar o que está acontecendo sem poder ver as pessoas, falar com as pessoas, tocar nas pessoas.

Aproveitando o gancho da recusa de aceitar a gravidade da pandemia, o colapso ecológico, você pesquisa o negacionismo também, não é? Como você vê esse duplo negacionismo do governo, de um lado um presidente que nega fatos históricos, nega a ditadura militar, de outro a negação da gravidade da pandemia, da ciência?

Eu me interessei pela questão do negacionismo por ter me acontecido várias vezes de debater com pessoas, inclusive com pessoas de esquerda, pessoas da academia, que simplesmente não acreditavam no aquecimento global: “Isso é aquecimentismo, isso é Hollywood, isso são os países desenvolvidos querendo impedir o Brasil de se desenvolver”. E fui percebendo que existem vários graus e várias maneiras de se negar. Desde Olavo de Carvalho, que diz que a Terra é plana, Trump, que diz que o aquecimento global é uma bobagem ou um complô da China, ou as pessoas que são pagas pelas indústrias de combustíveis fósseis – porque o grosso do negacionismo é financiado, como aconteceu também com a invasão de fake news na época das eleições –; desde esse tipo de gente, então, até ecologistas, pessoas que há anos trabalhavam em defesa da preservação do meio ambiente e da justiça ambiental, mas que, quando se viam diante do problema do aquecimento global, tinham como que um obstáculo epistemológico, para usar o termo do [Gaston] Bachelard. Isso não cabia dentro das suas estruturas mentais. E algo parecido se passa com pessoas que pensam “ah, tem sim, mas isso alguém vai resolver, vão inventar uma tecnologia” e até com nós mesmos, que não conseguimos pensar nisso o tempo todo e que portanto também negamos uma boa parte do tempo.

Então eu achava esse negacionismo um mistério, e um pouco até pra me defender do estado de espírito em que eu ficava quando debatia com alguém sobre isso, com alguém que negava, um dia eu pensei: “Vou dar um curso sobre isso”. E comecei desdobrando a negação em várias modalidades, passando por conceitos da psicanálise, da filosofia, e retrocedi até o Holocausto. Porque o termo “negacionismo” – isso é importante – passou a ser usado com um sentido semelhante a partir de 1987 pelo historiador francês Henry Rousso, pra denunciar os revisionistas do Holocausto, que diziam que não tinha havido campos de extermínio, que não tinha havido genocídio de judeus etc.


De acordo com Deborah Danowski: “O aquecimento global é democrático como se diz que a pandemia é democrática, isto é, no sentido de que todos, pobres e ricos, são ou serão atingidos”
E esse negacionismo do passado, com fatos históricos registrados em documentos, depoimentos, assim como acontece aqui com a ditadura, é mais difícil de entender do que a recusa do aquecimento global, que é em relação ao futuro.

Pois é, justamente. Se a pessoa é paga pra isso até dá pra entender, e se a pessoa tem interesses econômicos, políticos ou religiosos, isso também é, digamos assim, compreensível. Mas e quando isso não existe? Porque, no caso do Holocausto, há documentos provando, testemunhas, histórico das indústrias que fabricaram o gás Zyklon B e que continuam existindo até hoje. Por que esses empresários colaboraram com o regime nazista? Por que algumas dessas empresas continuam existindo? Acho bem interessante essa comparação que você faz entre negar o passado e negar o futuro. Porque o aquecimento global já está acontecendo, e nesse sentido ele é presente e passado, mas a grande negação é de que isso vá explodir, com uma dimensão muitíssimo maior do que a pandemia da Covid-19, num futuro próximo, e vai atingir todos nós, ou pelo menos nossos filhos e netos, vai atingir todos os povos, incluindo aqueles que menos emitem dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa. Porque o aquecimento global é democrático, como se diz que a pandemia é democrática, isto é, no sentido de que todos, pobres e ricos, são ou serão atingidos. Mas nenhuma das duas coisas é democrática em relação a quem tem mais capacidade de se proteger, ou meios para reagir, como, no caso da pandemia, o acesso à saúde.

Mas voltando à comparação entre o negacionismo do passado e do futuro. Tem muita coisa diferente nessas duas formas, mas muita coisa parecida também. Existe um texto excelente, bastante conhecido, da Shoshana Felman, “In a era of testimony”, sobre o Shoah, aquele filme maravilhoso do Claude Lanzmann, de 1985, que tem quase nove horas e foi feito só com testemunhas do Holocausto, em que ele leva as testemunhas, em sua maioria sobreviventes dos campos, para aqueles mesmos locais na Polônia e força uma espécie de reencenação: ele vai fazendo perguntas, e em alguns momentos ficamos até incomodados com isso, porque ele força as pessoas a falar, a se lembrar, mesmo contra a vontade delas, porque quer construir uma memória. E a Shoshana Felman analisa esplendidamente esse filme e mostra como o Lanzmann se baseia, em parte, numa distinção feita pelo historiador Raul Hilberg no livro A destruição dos judeus europeus, entre três tipos de personagens do Holocausto:– perpetradores – nazistas –, vítimas – judeus – e espectadores – os poloneses que viviam ao redor dos campos ou nas aldeias próximas. Então são três tipos de testemunhas que aparecem no filme: os sobreviventes judeus, os nazistas – que ele filma escondido – e os poloneses, que dizem que não tinham nada contra os judeus e que eram proibidos pelos nazistas de olhar, mas que, quando levados pelas perguntas de Lanzmann a falar um pouco mais, percebemos que conheciam muitos detalhes do que se passava, ouviam os gritos, sabiam para que serviam os trens, e não haviam feito nada.

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Inspirada nesse texto, pensei: “Eu posso começar trazendo para a questão do aquecimento global essas três posições”. Só que eu inseri mais um termo nessa comparação: os animais criados e mortos nas grandes fazendas-fábricas; porque vários já chamaram de genocídio, e mesmo de Holocausto, aquilo que fazemos com esses animais, mas vamos deixar essa questão de fora aqui. Pois bem, eu percebi que essa transposição das três posições de Hilberg funciona para o aquecimento global, porque você tem as vítimas da crise ecológica, começando com os animais e as plantas, já que estamos causando a sexta grande extinção em massa da história da vida na Terra, numa taxa que, dizem alguns, é de até mil vez o número de espécies que normalmente são extintas no curso da evolução; e evidentemente há as vítimas humanas, porque o colapso ecológico vai atingir todo mundo, embora, em primeiro lugar e mais fortemente, as pessoas mais pobres, as mesmas que estão morrendo mais devido ao coronavírus, não é? Então temos as vítimas, os perpetradores, que nesse caso podem ser as grandes empresas de combustíveis fósseis, as empresas de processamento de carne, a Monsanto, as mineradoras, o sistema financeiro; e podemos ir desdobrando até onde a gente quiser: há os maiores poluidores e devastadores – alguns estudos falam em 20 empresas que são responsáveis por um terço de todas as emissões globais de carbono; outros falam em 100 grandes companhias que, sozinhas, são responsáveis por 70% das emissões –, mas a partir daí você pode ir descendo. E temos os espectadores, que somos todos nós no fim das contas, porque somos ao mesmo tempo vítimas e espectadores – quando não somos perpetradores. E, assim como os poloneses em relação aos judeus, nós não fazemos quase nada, fazemos muito pouco. Continuamos vivendo como se houvesse amanhã, como se estivesse tudo bem. A pandemia bateu forte porque a gente não pode, pelo menos neste momento, continuar vivendo como estava vivendo. Até a Rede Globo foi forçada a dizer: tem alguma coisa errada; tem que ter um sistema de saúde que proteja todo mundo, tem que ter uma renda básica pra todo mundo.

Voltando às três posições: como mostrou muito bem a Shoshana Felman, elas não são apenas três perspectivas sobre o que estava acontecendo, três maneiras de ver, elas também são três maneiras de não ver. Nem mesmo as vítimas tinham a noção da totalidade do que estava acontecendo; os perpetradores tinham que esconder, impedir os outros de ver e dizer, e os espectadores eram impedidos de olhar, viam pelas frestas, digamos assim. E é um pouco o que acontece com a gente em relação ao aquecimento global.

Os espectadores são mais negacionistas que os demais? Porque, se eles não estão nem de um lado nem de outro, poderiam ver melhor, não? Por que eles negam o que estão vendo?

Sim, acho que você tem razão, e é exatamente aí que a coisa começa a ficar mais difícil de entender. É talvez a “zona cinzenta” de que falava o escritor italiano, sobrevivente de Auschwitz, Primo Levi. No filme de Lanzmann, os espectadores trazidos à cena são poloneses e alguns alemães. E embora eles dissessem que o que aconteceu foi horrível, e que eles gostavam dos judeus etc., não hesitaram, por exemplo, em pegar para si as casas dos judeus que foram levados pros campos. E quando, por exemplo, Lanzmann leva Simon Srebnik – que sobreviveu porque tinha uma voz muito bonita e os alemães gostavam de ouvi-lo cantar – para a aldeia onde ele vivia, os antigos moradores de início festejaram a sua volta, mas, conforme eles vão falando – respondendo às perguntas do diretor –, vai se revelando todo o preconceito e toda a raiva que eles tinham dos judeus na época. Isso pra dizer que os espectadores negam por vários motivos.

Um parêntesis para uma diferenciação importante. O negacionismo é um termo que vem do francês, como eu disse, négationnisme; em inglês se usa denial, negação. E uma coisa é to deny, negar; outra coisa é to be in denial, estar em negação, ou em denegação, não querer acreditar, o que pode ser entendido, resumidamente, como o mecanismo psíquico necessário para evitar um sofrimento ainda maior do sujeito – e a psicanálise nos ensinou que há várias formas patológicas dessa recusa da realidade, de torção da realidade. Os judeus estavam em negação, mais do que negavam o que estava acontecendo, embora tenha havido, também entre eles, certas atitudes que poderiam ser interpretadas como negacionistas. Mas existem todas essas posições dentro de cada uma das posições, essa é que é a verdade.

Mas e os negacionistas de hoje? Porque, quando eles estavam imersos no Holocausto, essa negação era possível, mas e agora que a gente sabe com segurança o que aconteceu?

Pois é. Tem pessoas que dizem, por exemplo, que a Terra é plana, que a ditadura militar não existiu no Brasil, ou que a Globo é comunista, que os nazistas eram de esquerda, que a cloroquina cura sem sombra de dúvida, enfim a lista é longa. Não pode ser por acaso que todas essas coisas se juntaram neste governo e, embora eu tenha estudado um pouco esse fenômeno, ele continua sendo um mistério para mim; porque não são só esses absurdos que são ditos sabe-se lá por quais interesses, são as pessoas que acreditam neles e que seguem o que o presidente e seus ministros dizem. Eu estava trabalhando com o negacionismo quando entrou o Bolsonaro, e então tudo ficou desatualizado imediatamente, eu me senti atropelada pela realidade, mesmo que eu já soubesse que tudo que se escreve sobre o aquecimento global fica desatualizado muito rápido, já que as mudanças climáticas estão se acirrando cada vez mais rapidamente. Quando eu comecei a trabalhar nesse texto sobre o negacionismo – o texto que saiu pela n-1 –, eu me concentrava no colapso ecológico, e o Brasil não era como os Estados Unidos, por exemplo. Na direita americana você tem que ser negacionista do clima, senão você é democrata, mas aqui não era assim. Com o Bolsonaro ficou assim. O negacionismo se expandiu, o governo inteiro se voltou contra a ciência, mesmo no que diz respeito à pandemia do coronavírus, como estamos vendo. No caso do governo, é difícil saber se eles acreditam mesmo nisso tudo ou se é só uma estratégia… O Olavo de Carvalho, por exemplo, eu não creio que ele ache que a Terra é plana, ou que o nazismo era de esquerda. Mas a coisa chegou a tal ponto que é difícil saber ali dentro quem acredita no quê. Ou até mesmo quem é adepto daquelas religiões neopentecostais que acham que o mundo vai acabar mesmo, e que então tudo bem, vamos aumentar o caos, e o vírus é até bem-vindo porque está ajudando a apressar o Apocalipse, para que sobrem só os eleitos. No que o Bolsonaro de fato acredita, não sei. E não cabe a nós ter que decifrá-lo. Mas lembremos que os que apoiaram sua eleição, acharam que era melhor – e mesmo vantajoso – aguentar no governo uma pessoa que diz esse tipo de coisas, contanto que o Paulo Guedes conseguisse fazer passar suas reformas. Onde colocar esses que o apoiaram em plena consciência, por cálculo político-econômico? Certamente não entre as vítimas inocentes. Serão meros espectadores ou, quem sabe, colaboracionistas?

Podemos considerar as fakes news uma espécie de negacionismo? Dos fatos? Do jornalismo?

Acho que sim. Porque esse é um trabalho de profissionais, não é de pessoas que receberam uma informação errada. Eles são financiados para isso, como vimos na última campanha eleitoral. E aí, não basta negar, você tem que colocar alguma coisa no lugar, criar confusão, então se criam os fatos falsos. Isso não é denegação, não é recusa, não é desinformação, e muito menos discordância: é mentira mesmo, e criminosa, claro. Eles sabem que aquilo é falso, mas acham que podem extrair alguma vantagem disso. E essa é uma posição muito forte também dentro do negacionismo climático. Eles sabem que o aquecimento está acontecendo, ainda mais que cada vez é mais difícil de ignorar a enorme quantidade e gravidade dos eventos climáticos extremos – tanto que o número de pessoas que, de boa-fé, digamos assim, não acreditam no aquecimento global está caindo.

O último livro do Bruno Latour – Onde aterrar –, que, aliás, está pra sair em português aqui no Brasil, tem uma hipótese muito interessante para tentar compreender a eleição do Trump e a geopolítica global recente. Ele sugere que as elites sabem muito bem, e há bastante tempo, o que está acontecendo, sabem que não há mundo para todos, que aquele ideal propagandeado pelo neoliberalismo, de fazer o bolo crescer para depois distribuir, é um engodo. Essa elite nem se preocupa mais em fingir que pretende implantar um Estado de bem-estar social. Já faz tempo que eles sabem que não vai dar e escolheram mentir para proteger apenas a si próprios, e para isso tem sido fundamental esse negacionismo financiado há décadas pelas maiores empresas de combustíveis fósseis, porque no fundo eles já abandonaram as pessoas. E Latour acrescenta que, se não se entende que é esse o papel do negacionismo hoje, não se entende nada do que está acontecendo ultimamente no mundo. Essa é uma grande hipótese, na minha opinião. E, de fato, o que vemos muito claramente na pandemia da Covid-19 é essa mesma perda de mundo que estamos vivendo com o colapso ecológico. Os novos políticos de direita, os novos nacionalismos, do America First ao Brasil acima de tudo, seguidos cegamente por toda essa gente que se sentiu traída e abandonada pelo sonho da modernidade para todos. A consciência de que estamos perdendo o mundo modificou a geopolítica global. Não tem mais mundo pra todo mundo, simples assim.

Você está entre aqueles que acham que o mundo não será mais o mesmo depois da pandemia? Esse choque de realidade vai alterar o pensamento das pessoas?

Alterar o mundo, acho que sim, porque não tem como você sair igual de uma coisa desse tamanho. Mas essa esperança de que as pessoas ou os países vão sair melhores, que vão se dar conta do colapso que vivemos, que temos que mudar pois senão vão vir outras pandemias e coisas piores… Eu sou muito pessimista em relação a isso. Aquela reunião ministerial vazada pelo Moro, o que a gente vê ali? O Salles dizendo: “Vamos aproveitar que está todo mundo distraído pela pandemia e vamos desregulamentar, passar a boiada”. O Guedes, o que ele diz ali? “Vamos salvar as grandes empresas, mas não as pequenas, essas não adianta, não dão lucro, não dão retorno”. Ou seja, o grande capital está se aproveitando dessa desgraça. Os pequenos vão quebrar, mas as maiores companhias e o sistema financeiro estão sendo compensados e talvez saiam até melhor depois da crise. E também sou pessimista porque não sei se, depois que acabar, se acabar – porque algumas análises dizem que não vai acabar, que vamos ter que aprender a conviver com a Covid-19 –, as pessoas vão poder se dar ao luxo de simplesmente pensar: acabou. Alguém fez uma charge onde havia três ondas – a pandemia era a onda menor, depois vinha a crise econômica, uma onda maior, e atrás vinha uma onda enorme, monstruosa, um tsunami, que é a catástrofe ecológica. Não sei se vai dar tempo de conscientizar todo mundo, eu sou pessimista. Tenho esperanças, vai que as pessoas se iluminam, percebem que não é possível continuar desse jeito, mas não sei não. Vai haver mudanças; a crise econômica virá com certeza, vai ter rupturas de hábitos, a maneira de se deslocar no mundo vai se alterar, talvez se reforcem em alguns países algumas redes de segurança social; mas não sei se virá a grande mudança, um mundo realmente diferente. Em relação ao “Há um mundo por vir”, acho que continuamos naquela modalidade que a gente analisa ali, que é a degradação gradual. Claro que dentro dessa degradação gradual a pandemia foi uma enorme pancada, mas, quando ela passar ou mesmo quando se retomar mais ou menos as coisas como eram, a tendência é seguir nesse quadro maior de degradação. Acho que a gente vai ter que conviver com isso, e vai ter que aprender a se organizar, a resistir sozinhos, coletivamente. E nesse sentido, acho incrível como a sociedade civil está se organizando para ajudar a combater a pandemia, ou ao menos para ajudar os que se encontram em situação de maior fragilidade a enfrentá-la. Isso talvez saia fortalecido. Porque as pessoas tiveram que inventar muito rápido e pôr em marcha imediatamente essas invenções. Era uma questão de vida ou morte. A pandemia fez as pessoas exercitarem a imaginação e isso é fundamental, porque é o que teremos que fazer conforme o colapso ecológico se aprofunde. Nos reorganizar, inventar pequenas saídas políticas, econômicas, desviantes da grande política, da grande economia, dessa coisa destrutiva que nos apresentaram como se fosse a única realidade possível, uma realidade única e sem saída. A pandemia está mostrando que esse discurso era falso, e nesse sentido sinto uma esperançazinha.

A mídia, os jornalistas vêm desempenhando um papel importante tanto para revelar a realidade da pandemia como do governo Bolsonaro. Você acha que, em relação ao aquecimento global, a imprensa tem a mesma boa performance?

De jeito nenhum. A imprensa fala pouquíssimo do colapso ecológico que está acontecendo e, quando fala, fala de um jeito meio blasé. Sempre se diz que vai dar tudo certo, que, se cada um fizer a sua parte, tudo vai se resolver. Esse é o papel que a grande mídia tem feito em relação ao aquecimento global. Às vezes, no Dia do Meio Ambiente ou na época das conferências do clima – as COPs –, a mídia fala um pouco mais, põem uns programas especiais à meia-noite falando disso e logo depois vem um anúncio de caminhonete 4×4. Tudo continua como está, a economia tem que crescer. Sobretudo no Brasil, a mídia tem sido péssima para levar a sério o colapso ecológico. Se eles levassem a sério, imagine o papel que poderiam ter. Eu considero a grande mídia quase tão criminosa quanto os negacionistas profissionais. Porque, se estamos falando de centenas de milhares de mortes na pandemia, talvez alguns milhões, no caso do aquecimento global as mortes vão chegar a bilhões. É uma coisa enorme para os humanos e para os outros seres vivos também. Isso deveria ser levado a sério como a pandemia está sendo levada a sério. Se isso acontecesse, se a mídia parasse de se vender como um espectador neutro – coisa que sabemos que não existe –, a gente aí teria só o poderoso mas pequeno grupo dos negacionistas profissionais e daquelas cem grandes companhias poluidoras para combater juntos.