terça-feira, 5 de setembro de 2017

Domingos Xavier Viegas: “Para enfrentar os incêndios é preciso uma campanha como a da prevenção rodoviária”

O diretor do Centro de Estudos de Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra coordena o grupo de trabalho formado pelo Governo para “apurar cabalmente o que aconteceu” em Pedrógão Grande. Domingos Xavier Viegas diz que ainda “é cedo para falar”. Para já, defende não ser preciso acrescentar mais camiões ou aviões ao sistema de combate, mas sim envolver as populações numa campanha tão intensa como a que reduziu a sinistralidade rodoviária.

O que pode adiantar sobre o que se passou em Pedrógão Grande?
É cedo para falar. Comprometemo-nos em entregar o relatório daqui a dois meses. Temos uma equipa de 15 pessoas no terreno a reunir dados, a avaliar os danos e a juntar as peças do puzzle.

O prazo para chegar a conclusões está relacionado com as eleições autárquicas?
Não trabalhamos em função de questões políticas ou partidárias. Pedimos três meses para fazer o trabalho. Por coincidência, o grupo de trabalho entretanto nomeado pela Assembleia da República pediu um prazo semelhante. Queremos apurar os factos todos e fazemos este trabalho motivados pelo que o país nos está a pedir. Tem de ter consequências a vários níveis e na sociedade.

Sentem alguma pressão política?
Não aceitaríamos qualquer pressão. Temos completa autonomia e liberdade. Noutros trabalhos anteriores houve quem nos tentasse limitar, mas não nos deixamos intimidar.

Que efeitos tiveram os relatórios que fez sobre os incêndios de 2012, em Tavira, e 2013 no Caramulo e em Bragança?
No estudo sobre o incêndio de Tavira detetámos que os sistemas de comando não estavam preparados para gerir incêndios daquela dimensão. Em consequência disso foi feito um esforço grande de formação e de treino. E depois de 2013 melhoraram-se os equipamentos dos bombeiros. Não está tudo feito, mas já se andou um bom caminho em relação a 2003 e 2005.

Esses foram os dois piores anos, até agora. Mas quem anda no terreno diz que depois das mortes de Pedrógão, as autoridades concentram-se sobretudo em salvar pessoas e bens, evacuando casas e aldeias e deixando o fogo à solta. É errada esta perceção

Temos estado completamente focados no incêndio de Pedrógão e não tenho acompanhado outros com tanto pormenor. Mas o tipo de incêndios florestais que estamos a ter não se podem combater facilmente, pois a situação meteorológica é pior que a vivida em 2003 e com os recursos atuais não há capacidade para suprimir estes fogos. Não vale a pena pôr pessoas à frente daquele mar de chamas. A defesa das populações é naturalmente uma prioridade. Para mortes já nos bastam as de Pedrógão.

Quando se fala em causas dos incêndios, fala-se em desordenamento do país, despovoamento do interior, má gestão da floresta a que se junta a mão humana, sobretudo a negligência. Este ano, 240 fogos foram provocados por uso de maquinaria.
A negligência por descuido, o uso de maquinaria, o abandono causam incêndios. Este ano estamos a observar valores recorde mínimos na humidade da vegetação arbustiva. Qualquer faísca ou foco secundário imediatamente pega fogo. E não é compreensível que quem faz esse trabalho com maquinaria não use meios para debelar essas situações.

Falha a consciência social e falham as penalizações?
Concordo. Temos de fazer uma campanha como a que se fez para a prevenção rodoviária. A nossa taxa de mortalidade rodoviária era das maiores da Europa e o esforço continuado das autoridades deu resultados e temos de fazer um esforço semelhante em torno dos incêndios. O esforço não passa por termos mais meios de combate, mais camiões ou aviões. Temos de acrescentar as populações como o quarto pilar do sistema de prevenção e combate aos incêndios.
Pelo menos três dezenas de incêndios este ano tiveram como causa o lançamento de foguetes.
É incompreensível. Quero crer que terá sido fora do período em que é proibido.

Acha que por estarmos em ano de eleições autárquicas as penalizações são mais fracas?
Não quero associar a isso. Mas não creio que seja pelo simples agravar das penas que as pessoas vão cumprir. Tanto quanto sei, quando a aplicação de coimas dependia das autarquias haveria alguma retração, mas quando passou para outras autoridades, como a GNR, passou a haver outro respeito pela legislação.

Há décadas que falha a prevenção estrutural. O Governo anunciou um pacote de reformas, mas muitas delas são reformulações de outras que pouco saíram do papel.
Tem razão. Acompanhei esta reforma florestal e não vi muitas coisas substancialmente diferentes do que se estava a fazer. Deviam dar-se outros passos para o futuro. Há 30 anos que há coisas que deviam estar a ser feitas e não o estão a ser.

Dê-me três exemplos.
Há muito tempo que advogo o envolvimento das pessoas, a preparação das comunidades para serem mais resistentes e resilientes ao fogo e aos seus efeitos. Temos de conquistar as pessoas para o problema da prevenção de modo a tomarem consciência de que fazem parte deste esforço. Em segundo lugar, a prevenção devia estar mais focada nos incêndios florestais, o que não me parece estar. E também se devia aplicar melhor a lei. Mas face às condições meteorológicas que estamos a viver este ano, muita da prevenção estrutural que faz falta possivelmente não faria muita diferença.

Ter grupos com conhecimento de ação e uso de fogo controlado, que conhecem o terreno e bombeiros mais profissionais iria ajudar?
Sim, assim como ter sapadores florestais mais enquadrados no sistema, ou envolver mais a comunidade científica. Não somos ignorados, mas devíamos ter um maior apoio para a atividade científica. Há um conjunto de soluções técnicas e tecnológicas já aplicadas noutros países que podem ajudar. Por exemplo, há produtos químicos retardantes do fogo que podem servir para melhorar a eficácia do combate e ajudam a evitar reacendimentos. Obviamente que custam dinheiro, mas evitava-se muitas horas de trabalho e danos.

O Governo está a conduzir corretamente o problema dos incêndios?
Não quero pronunciar-me sobre questões políticas. Está a ser muito difícil para todos nós portugueses e compreendo que a pressão seja muito grande sobre quem está a governar o país. Haverá tempo para avaliar, agora é tempo de nos ajudarmos a todos.

[Texto original publicado no Expresso de 19 de agosto de 2017

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