sábado, 24 de junho de 2017

A árvore gasolina ou a floresta autóctone, por Jorge Moreira

Ao contrário do que alguns interesses instalados querem fazer crer, há uma relação directa entre a produção desta espécie [eucalipto] e a dimensão dos incêndios florestais. Não é por acaso que os bombeiros australianos, país da origem desta espécie, apelidaram o eucalipto de árvore gasolina e muitos especialista em fogos florestais na Austrália e na Califórnia, EUA, declararam os eucaliptos o seu inimigo público número um. Afinal as celuloses tinham razão quando se referiam ao eucalipto como o petróleo verde!


Os resultados permitidos classificam a propensão de incêndio de acordo com a seguinte ordem decrescente: florestas de pinheiros-bravos, florestas de eucaliptos, florestas de folha larga não especificada, florestas de coníferas não especificadas, montado de sobro, florestas de castanheiros, florestas de azinheiras e florestas de pinheiros-mansos (Silva et al, 2009);

O nosso estudo confirmou que as folhosas, tanto em povoamentos puros ou mistos, diminuem o risco de fogo em áreas florestais, quando comparadas com o pinheiro-bravo e o eucalipto (Marques et al, 2011) 

Dentro do contexto florestal, estudos em Portugal sugerem que as florestas maduras de folha caduca e florestas mistas têm geralmente um risco de incêndio baixo em comparação com florestas de pinheiros, plantações de eucalipto ou mista de pinheiro e eucalipto (Fernandes, 2009; Moreira et al., 2009) in: Moreira et al (2011). O Investigador do Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas da Universidade de Trás-os Montes e Alto Douro, o Professor Paulo Fernandes, um especialista muito requisitado nesta discussão por parte de alguns defensores da monocultura de eucalipto, acaba por responder-me numa rede social: É pacífico que as matas caducifólias (e outras) dificultam a progressão do fogo.

Também numa publicação sua acompanhada por fotografias intitulada Bidoeiro, a árvore bombeiro! Fernandes diz: O fogo entra no bidoal e normalmente arde assim, por manchas e com chama muito curta, extinguindo-se. É um efeito combinado da quebra de vento e aumento da humidade mas principalmente da folhada, com carga muito baixa e razoavelmente compacta (para uma folhosa) e nesta época já algo decomposta.

Recentemente, Fernandes disse a vários órgãos da comunicação social que para além dos vidoeiros (bidoeiros ou bétulas), os carvalhos e os castanheiros estão entre as principais árvores bombeiras pelas mesmas razões já mencionadas, acrescentando que não há ali muito alimento para o fogo e, frequentemente, os incêndios ou param por si só, extinguindo-se ao entrar nas manchas, ou ardem com pouquíssima intensidade sem causar danos às árvores (...) para zonas com "piores" condições de solo há "sempre" espécies que embora ardam com maior facilidade conseguem recuperar, sendo o caso do sobreiro.

Ainda num outro comentário numa rede social, que relacionava as áreas ardidas entre espécies, Fernandes diz: Acredito que a área ardida de carvalhal diminuísse substancialmente com uma ocupação maior. A fragmentação e pouca extensão das manchas actuais propicia que ardam, até porque estão usualmente rodeadas pelo que mais arde (matos) e localizadas nas regiões do país que mais ardem. (...) nota por exemplo que a maior mancha de carvalho, na serra da Nogueira, tem-se mantido incólume e nunca ardeu desde que foi plantada a não ser nas orlas. Num estudo publicado em 2010, Fernandes et al conclui que os bosques de folhosas e de resinosas de montanha modificam as características e a severidade do fogo, contribuindo para a redução da área ardida e a resiliência ao fogo.

Ao contrário, num artigo de 2010, intitulado Florestas diferentes, fogos diferentes, o investigador da UTAD diz a respeito do eucalipto: A enorme representatividade territorial de tipos de vegetação muito vulneráveis ao fogo — pinhal bravo, eucaliptal e matos — potencia incêndios de grande dimensão cujos impactes ambientais e socioeconómicos são bem conhecidos. (...) Plantações de pinho e eucalipto têm folhagem rica em compostos facilmente inflamáveis e produzem manta morta e detritos lenhosos de decomposição lenta, o que leva à sua acumulação. Os povoamentos jovens são particularmente vulneráveis, mesmo quando a vegetação arbustiva é pouco expressiva, uma vez que a continuidade vertical existente permite que o fogo se transmita facilmente à copa das árvores.

A casca dos eucaliptos, acumulada na base das árvores ou ainda presa ao tronco, é frequentemente projectada em combustão dando origem a focos secundários de incêndio que comprometem a eficácia de qualquer corta-fogo.

Assim, a substituição de espécies autóctones por monoculturas de eucalipto e pinheiro-bravo, que se tem verificado nas últimas décadas, com especial incidência para o Eucalyptus globulus, tem potenciado o problema dos fogos florestais.

Tanto a ciência, como a sabedoria popular dizem que os bosques constituídos por carvalhos adultos têm um comportamento bastante diferente perante o fogo do que um eucaliptal. Não se pode negar este facto. Em complemento, a biodiversidade de um bosque autóctone e os serviços ecossistémicos que proporciona são bens que a economia tradicional não inclui.

De igual modo, as externalidades ambientais negativas da monocultura do eucalipto também não estão sendo contabilizadas. São conhecidos os problemas ecológicos, a fraca biodiversidade, o esgotamento dos solos e o impacto nos recursos hídricos que a cultura intensiva acarreta. Por exemplo: (O eucalipto) tem importantes consequências ecológicas, uma vez que a regeneração cresce rapidamente e pode dominar facilmente as comunidades de plantas nativas em fases iniciais da sucessão ecológica após o abandono das terras.

O abandono das plantações ocorre principalmente após o último corte ou após incêndio (Coord. Joaquim Silva [CEABN InBIO] in: WILDGUM - Uma abordagem multi-escala para estudar a naturalização do eucalipto comum (Eucalyptus globulus Labill) em Portugal); O Eucalyptus segrega certas substâncias que afetam e impedem o crescimento das plantas que estão ao redor (Valverde Valdes, Teresa Cano Santana, Zeno, 2005), com impactes significativos na biodiversidade.

A modificação da floresta autóctone, nomeadamente através da plantação de monoculturas de eucalipto em áreas extensas, tem-se reflectido num empobrecimento dos solos, provocando o confinamento das salamandras às margens dos ribeiros. Foi já demonstrado que as salamandras evitam a manta morta de folhas de eucalipto devido à diminuição de presas e ao efeito tóxico das substâncias das suas folhas (Vences, 1993).

Este tipo de alteração causa, também, modificações do microhabitat, que se traduzem numa acentuada diminuição da diversidade de macroinvertebrados aquáticos e, concomitantemente, num empobrecimento dos recursos alimentares disponíveis (Lima, 1995).

O Conselho de Plantas Invasoras da Califórnia (Cal-IPC) considera o eucalipto um problema de gravidade média, devido à sua rápida disseminação e sua capacidade em fazer deslocar as comunidades vegetais e animais nativas. Em contrapartida, são muitos os estudos realizados na Península Ibérica que mostram a existência de maior biodiversidade das florestas nativas comparativamente às explorações de eucalipto (e.g., Proença et al, 2010; Calviño-Cancela et al, 2012; Calviño-Cancela et al, 2013; Cruz, 2014; Cruz et al, 2015).

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