sexta-feira, 5 de maio de 2017

Em defesa dos peçonhentos: o caso das processionárias

Todos os anos, por esta altura, multiplicam-se as notícias sobre a questão das processionárias, com um aparente incremento de ano para ano. Cheguei a ler, há algumas semanas, um artigo de uma associação de defesa do ambiente que as apelidava de “praga”. Outros institutos públicos parecem reger-se pela mesma bitola da ignorância e desconhecimento, partilhando métodos de controlo, lançando alertas e, de um modo geral, contribuindo para a demonização de um animal que é totalmente inofensivo se for deixado em paz.
À medida que o centro das nossas cidades é votado ao abandono, as urbanizações vão alastrando para a periferia ocupando as hortas e os pinhais que, nos nossos dias, já parecem coisa do século passado. Nas aldeias o cenário não é muito diferente. As hortas dos nossos avós, abandonadas à sua sorte, são cada vez mais apelativas para novos projetos urbanísticos de todos aqueles que procuram uma “ruralidade moderna”. Tudo isto tem um custo. Poderia aqui falar sobre os erros de ordenamento do território, ou do ineficaz aproveitamento dos solos, mas este post tem outro propósito.
Tudo isto tem um custo, repito. Antes da chegada dos novos inquilinos, estes espaços eram o lar e refúgio de outros habitantes. Aves, pequenos mamíferos, répteis e um sem número de insetos, habitam estes espaços votados ao abandono. Entretanto, chegam as vivendas e as urbanizações. As árvores são displicentemente derrubadas e os refúgios naturais desaparecem. Nas novas casas, os novos proprietários, ex-citadinos, vivendo agora paredes-meias com um mundo rural a definhar, mostram choque e surpresa: “ai, que horror, uma lagartixa, salamandra, serpente, sapo, lagarto, gafanhoto, entrou-me casa adentro”.
E, se há alguma condescendência para com os bicharocos mais simpáticos, o mesmo não se pode dizer em relação àqueles, infelizes, cujas caraterísticas naturais os tornam repelentes aos olhos humanos que apenas sabem olhar sem ver.
As processionárias-dos-pinheiros, Thaumetopoea pityocampa (Denis & Schiffermüller, 1775) são borboletas noturnas da família Notodontidae. Durante a sua fase larvar, vivem em ninhos comunitários construídos no topo dos pinheiros ou dos cedros, as únicas plantas de que se alimentam. Com a chegada do inverno, já bem alimentadas, as lagartas abandonam os pinheiros em grupo, numa perfeita fila indiana (daí o seu nome comum) em direção ao solo. Nesta fase, mais visíveis e sujeitas aos ataques dos predadores, as larvas desenvolveram um meio de defesa bastante eficaz: tornam-se urticantes.

Uma vez no chão, logo procuram um local com solo propício para escavar. Ocultas debaixo da terra, as lagartas irão transformar-se em crisálidas e, na primavera seguinte, estas darão lugar às borboletas adultas.
Porquê tanto alarido?
Parece haver duas queixas recorrentes: os problemas nas escolas e os problemas com os animais domésticos. Em qualquer destes casos, as processionárias são o bode-expiatório mais a jeito, ainda que sejam o menor dos culpados.
Começo por questionar a presença de árvores de grande porte, como os pinheiros, no recinto das escolas. Será mesmo a árvore mais apropriada? Muito bem, vamos supor que são o melhor que se pode arranjar ou que são árvores insubstituíveis. Onde quer que haja pinheiros, é certo que irão aparecer processionárias. Trata-se de uma espécie autóctone, amplamente distribuída, e dificilmente se consegue evitá-la. Será que a sua demonização e perseguição sem tréguas é o caminho mais lógico a seguir? (Não aprendemos nada com os erros do passado?) Não caberá às escolas, independentemente do nível de ensino, educar os seus alunos? Parece-me que o passo mais lógico seria esse: ensinar a manter uma distância de respeito, explicando o porquê e as consequências. Passei a minha infância rodeado de pinheiros, conheço as processionárias desde sempre e, uma vez que os meus pais me ensinaram a nunca lhes tocar, nunca tive qualquer problema. Não acredito que as novas gerações sejam menos aptas a aprender, se houver quem lhes queira ensinar.
Os animais domésticos, por não terem no seu meio natural um contacto com esta espécie, nunca aprenderam a evitá-la. A curiosidade leva-os a investigar demasiado perto, com consequências que se podem revelar trágicas. Em primeiro lugar, a segurança dos animais é responsabilidade dos seus proprietários. Se estamos na época das processionárias, se mora numa zona com pinheiros, não deixe os seus animais à solta. Nunca. Se existem pinheiros muito próximos de sua casa, se os ninhos das processionárias são visíveis, mantenha o espaço onde tem os animais debaixo de olho. Como já referi, assim que descem da sua árvore as lagartas procuram um local onde escavar. Caso desçam num pavimento de cimento, de azulejos ou de alcatrão, irão deambular ao acaso até atingirem um solo mais suave.
São as nossas falhas no ordenamento do território, seja ele urbano ou florestal, que propiciam a proximidade das processionárias ao Homem. À já referida ocupação progressiva do meio natural, alie-se a plantação desenfreada de monoculturas de pinheiro-bravo, o corte sistemático, quase doentio, dos matos e a aniquilação do sub-bosque natural, reduzindo os locais de refúgio e, com eles, os predadores naturais das processionárias. A falta de áreas semi-naturais, de transição entre as zonas florestais e as zonas urbanas, leva-nos a floresta para dentro de casa, com tudo o que isso tem de bom e de mau.
Borboleta processionária
No seu estado adulto, as processionárias são borboletas discretas e inofensivas.
Enquanto houver pinheiros, haverá processionárias. Não me assustam as campanhas mais ou menos irrisórias para o seu controlo. Preocupa-me, isso sim, a sua utilização como imagem de marca de uma natureza má e suja. Isso revela o quanto nos estamos a afastar do mundo natural. Sonhamos com uma natureza amestrada, limpa e esterilizada. Artificial!
Durante um curto espaço de tempo temos a oportunidade de observar o espetáculo das procissões destas lagartas. E é um espetáculo digno de se ver para aqueles que consigam olhar para além da “peçonha” e do “nojo”. É caso para aproveitar e apreciar. Não para fugir!

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