quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Esperança, Perseverança e Felicidade: O Poder Feminino


 
A 3600 metros acima do nível do mar, na aridez da Puna, um grupo de mulheres indígenas deu à luz a organização mais fértil dos últimos tempos. A ONG Warmi Sayajsunqo - em quechua: "mulheres perseverantes" - criou um modelo de desenvolvimento com os valores dos Povos Indígenas. A partir de Abra Pampa (Jujuy) abarca 3600 sócios em 79 comunidades indígenas do alto planalto. Administra empresas do século XXI e um sistema bancário excepcional. Hoje luta por uma gestão dos seus recursos naturais. A sua líder, Rosario Quispe, foi até convidada pela Universidade de Harvard para contar como o fizeram.[Fonte: IM magazine]
 
 
"Menina, que combustível é este W? É muito mau?", pergunta um homem, curioso e preocupado, frente ao enorme W que é o logótipo dos fornecedores de gasolina.
A estação de serviço de Abra Pampa é uma das últimas do lado argentino, antes de chegar à Bolívia. A menina que atesta gasolina chama-se Alberta Llampa e, como os kollas das povoações indígenas do alto planalto, tem a pele da cor da chicha (bebida à base de milho), o cabelo muito negro e macio. 36 anos, sétimo ano de escolaridade e sete filhos, todos na escola. Alberta não se cansa de explicar aos clientes da estação de serviço o que peritos em ciências sociais e economistas analisam como o fenómeno mais fértil da puna argentina.
"É um combustível normal. Pusemos W como nome do fornecedor porque é uma empresa comunitária da Warmi Sayajsunqo, a organização proprietária. O nome significa mulheres perseverantes", diz Albertina cobrindo os olhos enormes com a mão para se proteger do sol que não perdoa.
Na puna, a mais de 3600 metros de altura, a natureza é extrema. A beleza abrupta dos montes com os seus ventres inchados de minerais, os dias quentes e noites geladas, o vento feroz e terra seca, feita de pó sobre pó... Nesta Sibéria sul-americana, como a chamavam, as leis sociais reproduziram a crueza do meio ambiente e a crise económica argentina já aí tinha entrado em força mesmo antes das conhecidas manifestações populares de 2001. Mas as mulheres da Warmi desafiaram as leis que dizem que a puna é um deserto ermo, estéril, atrasado. Dispõem de um leque de empresas comunitárias e do século XXI: cybercafé, estação de serviço, restaurante, criação de chinchilas, curtidor, estábulo e um sistema bancário excepcional.
Tanto a origem, como as mulheres que teceram este modelo de desenvolvimento, têm de ser procuradas em Abra Pampa, uma cidade de 14 000 habitantes, onde qualquer pessoa que não seja da etnia kollas é gringo e chama a atenção. Cidade simples: uma praça, um mercado, uma câmara municipal, uma residencial, um punhado de escolas, três ou quatro restaurantes e muitas ONGs. O fervor, ou a necessidade de se agruparem, apareceu nos anos 90, quando as minas da zona - cobre, chumbo, zinco, estanho - encerraram. Milhares de operários tiveram que sair em busca de emprego e habitação, entre eles, o senhor Alfredo, o marido da senhora Rosario Andrada de Quispe, fundadora e presidente da Warmi.
Durante anos, o senhor Alfredo e a senhora Rosario, com os seus sete filhos, viveram nessas povoações que nascem e morrem com a actividade mineira. Fechava uma e mudavam-se para outra que acabava de abrir. Até que se fez noite e não houve mineração no alto planalto argentino. A paridade de câmbio que igualava o dólar ao peso baixou a rentabilidade e terminou com a actividade (na altura).
"Não tínhamos para onde ir", diz Dona Rosario.
Refugiou-se em Abra Pampa, onde a sua mãe tinha uma casa. Já tinha sido empregada doméstica e vendedora ambulante. "Tive a sorte de conseguir trabalho num projecto de promoção de mulheres". Meteu-se nesses caminhos que conduzem a aldeias pequenas e esquecidas. Falou com imensas mulheres e soube que, na puna, elas ficam sozinhas. Até há pouco, os que queriam trabalhar tinham que partir. Para o tabaco, para a cana-de-açúcar, para a mina. A elas cabia colocarem-se de pé e levantar a colheita. "Vi tanta miséria... Soube que, se continuássemos assim, iríamos morrer de fome. Era preciso pensar em algo para sobreviver e começámos a reunir-nos em minha casa", diz Rosario.
As mulheres foram chegando com os seus filhos às costas. Não tinham com quem deixá-los: penduravam-nos ao peito em panos de cores resplandecentes em contraste com a paleta mineral da paisagem. Juntavam trocos entre elas, compravam lã e teciam artesanato. Poucas sabiam tecer, desde que os seus maridos tinham ido para as minas, tinham esquecido os lavores aprendidos em meninas, com mães e avós, enquanto pastoreavam o gado.
- Quando começámos eu ia a Villazón (Bolívia) comprar lã e telas. As raparigas cosiam, cortavam. Começaram a convidar-nos para encontros em Buenos Aires. Para levar mercadoria passávamos noites sem dormir. Em 1995, lembrámo-nos de formar a Warmi. Eu dizia: tem que ser algo diferente. Trabalhei antes na Igreja, com os padres da OCLADE (Organização Claretiana para o Desenvolvimento), mas sentia que ali havia um tecto. Pusemos o nome Warmi Sayajsunqo, que na língua quechua de nossos avós significa mulher perseverante.
De então para hoje as mulheres da Warmi deram um salto. Quando começaram queriam recuperar duas coisas: os artefactos da sua etnia e a saúde. Muitas kollas estavam a morrer devido ao cancro do colo do útero. Apareceram artigos nos meios de comunicação e apareceu também Stephan Schmidheiny, presidente da Fundação Avina, que quis conhecer Dona Rosario. Este senhor, um empresário sueco apaixonado pela América Latina, disse-lhe que pedisse um desejo.
"Gostaria que o meu povo pudesse viver de trabalho digno, com a sua identidade e cultura, que não houvesse escravos de ninguém, como no tempo dos nossos avós".  
Schmidheiny deu-lhe o financiamento. Com esse dinheiro a Warmi equipou um grupo que percorreu as comunidades indígenas às quais não chegam nem os políticos quando estão em campanha. Nesses casarios de adobe, as famílias contaram como viviam e as suas ideias para o futuro. Em 2001, já as comunidades indígenas associadas à Warmi levantavam-se com um Programa de Desenvolvimento Indígena extremamente bem-sucedido. Cerca de 60 povoações de Jujuy estavam ligadas através de um sistema de microcrédito. Já não eram apenas mulheres, mas sim cerca de 3600 famílias. Este banco entregou mais de 1 400 000 pesos em 2000 empréstimos.
A organização é auto-sustentável graças às suas empresas e faz alianças estratégicas. O dinheiro é gerido pelos tesoureiros de cada comunidade e deve participar sempre pelo menos uma mulher. "De vez em quando, alguém se atrasa com o pagamento, mas não há um incobrável", diz Florinda Condori, tesoureira da administração central.
Para além do banco, estão as sua próprias empresas e as que ajudam a pôr em marcha com financiamento e formação. Como a de Sal Puna, nas mãos da comunidade de Cerro Negro, uma das mais rentáveis. O tema comum que as atravessa continua a ser a terra em todas as suas dimensões. Sob os seus sapatos gastos por esse solo pedregoso e inóspito, está a chave de tudo. A titularidade dos terrenos que habitam desde tempos imemoriais é uma ferida que continua aberta, e pela qual lutam corpo a corpo. O meio ambiente é outra batalha quotidiana. Ontem foi o cancro do colo do útero. Hoje é o chumbo que contamina o sangue dos seus filhos.
Tudo isto conta Dona Rosario sem largar o telemóvel pequeno e prateado que a acompanha para onde vá, tal como o seu chapéu negro. Em Fevereiro de 2007 esteve na Universidade de Harvard, convidada a contar a experiência da Warmi na Conferência Internacional Bridge Builders. Diz que admira Evo Morales. Viajou para a Bolívia para o ver tomar posse e emocionou-se. Já a convidaram a participar na política, mas ela diz "sirvo mais ao meu povo aqui onde estou".

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