terça-feira, 5 de julho de 2011

A cidade sustentável- entevista a José Carlos Ferreira

Respeito pela estrutura natural e pela cultura e a aposta na redução das emissões de carbono são essenciais para a sustentabilidade de uma cidade.  in JNeg, 2007

José Carlos Ferreira, 41 anos, docente do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, explica que uma área metropolitana sustentável tem de respeitar o território nas suas componentes natural e cultural. 
O que é uma cidade sustentável? O que tem ela de melhor que as outras?
Uma cidade sustentável é aquela que supre todas as necessidades do homem em termos de habitat, abrigo, alimentação, condições de trabalho e que respeita o ecossistema onde está instalada, ou seja o ambiente onde se encontra.
Quais são os melhores exemplos que conhece de cidades sustentáveis?
O mais próximo de uma cidade sustentável, na Europa, é Barcelona. Era uma cidade industrial bastante degradada, à qual tem sido devolvido um certo ambiente natural ao longo dos últimos 40 anos. Nela há exemplos de introdução do verde, de zonas de circulação da água e do ar. A própria população tem feito o trabalho de replantação e criação de espaços verdes, que inclui a ligação por corredores verdes entre o centro compacto da cidade e as áreas envolventes. Simultaneamente resolveu outras questões fundamentais para uma cidade ser considerada sustentável. Reduziu o consumo energético através da instalação de casas mais sustentáveis e apostou na mobilidade sustentável. Para isso melhorou os transportes colectivos e os interfaces entre ele.

Também houve grande aposta na educação. Há cerca de 15 anos foi iniciado um programa para convencer os mais jovens a usarem transportes mais amigos do ambiente, como o skate ou a bicicleta e foram feitos corredores para isso. Ou seja, as pessoas hoje podem ir para o seu trabalho de transporte público, utilizando uma bicicleta, um skate ou a pé. Barcelona colocou, por exemplo, um ponto de bicicletas em cada esquina e proporciona um passe mensal. Por isso, não há desculpa para não se andar de bicicleta.

Barcelona está, assim, num caminho em que aposta na redução drástica do consumo energético, na mobilidade sustentável e no retorno à natureza.

O que é necessário à biodiversidade de uma cidade?
Para além do jardim com relva, podemos ter, por exemplo, uma horta. A produção local de alimentos pode contribuir para o aumento da biodiversidade. Porque melhora os aspectos físicos dos solos, contribuindo para aumentar a circulação da água, ar e nutrientes e, ao mesmo tempo, permite que o espaço seja produtivo. Nele as pessoas podem recrear-se e suprir algumas das suas necessidades alimentares.

Este é um exemplo de uma tendência que tem vindo a crescer em cidades como Paris, com uma experiência grande nesta área. Na região metropolitana do Porto, a Lipor , o serviço intermunicipalizado de gestão de resíduos, disponibiliza um conjunto grande de hortas sociais, cuja lista de espera é de centenas de pessoas. Ou seja, há uma nova oportunidade de trazer biodiversidade através das hortas urbanas, pela utilização de espécies autóctones adaptadas às cidades.

O que é uma cidade verde?
É uma cidade que aposta na redução clara de produção de carbono. Isto passa pela alteração do sistema de mobilidade actual, assente no transporte individual, pela redução do consumo energético e pela introdução de espécies vegetais. A introdução de uma cortina arbórea numa rua, adaptada ao clima da cidade, permite a introdução de algumas espécies de pássaros e outras, baixar a temperatura e aumentar a humidade no verão. A cidade será assim mais verde, e reduzirá, em simultâneo, as suas emissões de carbono. No Inverno, se forem de folha caduca, as árvores ficam despidas e deixam passar a luz, o que faz aumentar o aquecimento.

Quais são os melhores exemplos que conhece?
Eu não conheço nenhuma cidade que considere verde, mas sim pequenas partes delas. Paris começa a ter uma boa componente de corredores verdes, utilizando os antigos canais que ligam à zona rural e antigas linhas de comboio desactivas e transformadas em passeios. Nova Iorque tem a High Line, em Manhantan, uma linha de comboio desactivada sobreelevada, que é hoje um jardim contínuo mantido por voluntários. A cidade que mais me surpreendeu foi Curitiba. É a que realmente se aproxima mais de uma cidade verde porque apostou na melhoria de tudo.

Na mobilidade, introduzindo corredores específicos para a circulação de autocarros e garantindo que saem e chegam a horas e têm boa frequência. Na melhoria do habitat das pessoas, nomeadamente dos mais pobres, com a construção de melhoramento arruamentos, de abastecimento de águas, etc.. Mas também na criação de parques ao longo de linhas de água que estavam abandonadas e no reaproveitamento de pedreiras para criar centros de aumento de biodiversidade, com espaços verdes, lagos e pontos de atracção para a cidade. É um verdadeiro sistema, todo articulado, de acessibilidade e espaços verdes.

O que se passa com a Área Metropolitana de Lisboa (AML)?
Na AML não há uma verdadeira cultura de cidade. A sua expansão histórica foi feita através da construção de grandes áreas suburbanas, afectas a áreas que fornecem trabalho, como Lisboa, e Almada e Barreiro até há pouco tempo. São áreas extensivas de expansão urbana, onde ainda há a ideia de se habitar em vivendas. Mas não é sustentável todos termos uma casa com quintal, sobretudo quando temos de utilizar um transporte individual para nos deslocarmos.

Por causa da sua forma de expansão, a AML precisa de regularizar todas as manchas urbanas desestruturadas e criar áreas policêntricas para que as pessoas não tenham de se deslocar tanto. Também tem de ordenar a acessibilidade aos grandes centros urbanos. É preciso não esquecer, aqui, que a AML tem valores naturais muito importantes quando comparada com outras áreas metropolitanas europeias.

Tem uma zona costeira bastante equilibrada, por exemplo no litoral de Almada, Sesimbra e Setúbal e parques naturais pelo meio da cidade, em Sintra, no Tejo, Sado e Arrábida. Há muitas áreas interessantes do ponto de vista natural num raio de 20 quilómetros do centro da urbe, o que lhe dá grande vantagem.


1 comentário:

Miquito Mendes. disse...

Muito interessante esta explicação, parabéns!