segunda-feira, 18 de julho de 2011

As agonias de um ex-líder - Mário Soares

Declarações em 1987
A Bial é "exemplar", de acordo com  Mário Soares nesta crónica de 2008- e ironia das ironias temos de facto um País entregue aos fármacos e à McDonald (quantos cafés antigos das nossas cidades desapareceram com isso)- mas a MARCA PORTUGAL, a verdadeira certificação dos produtos alimentares e pesqueiros que deviam estar prontos aquando dos fundos europeus e a indefinição de quais os bens alimentares regionais vendáveis para os "mercados" faliu (se azeite, se o figo, se a amêndoa, se os chouriços, se os pastéis de Belém, se os doces conventuais, se a sardinha, etc)...faliu redondamente e aplicaram-se massivamente os fundos europeus para uma sociedade de serviços e de consumo, do automóvel privado, da segunda casa e das compras nos hiper e centros comerciais, mais tarde chegando ao império dos transitários, desferroviação de Portugal e Freeports e privatizações sucessivas e graduais de sectores chave da nossa economia a GALP, a EDP, as ÁGUAS de PORTUGAL e a PT (com lucros para poucos, mesmo muito poucos)...primeiro com a descapitalização provocada pela adesão à própria CEE - agora UE (através do BCE) e duplamente com o acordo da Troika- culpado(s)?

Diário de Notícias, 22 de Julho de 2008 (artigo de 2008)

1 . Não vale a pena criticar Bush. Tornou-se um lugar-comum. Mas vale a pena insistir: o neoliberalismo, como ideologia e modelo da chamada "democracia liberal", esgotou-se. Está a conduzir o Ocidente - e talvez o mundo - a uma crise do capitalismo pior do que a de 1929.
Vale a pena, porque muitos políticos, intelectuais e economistas, embora reconheçam a crise, que aí está a instalar-se, ainda pensam poder resolvê-la sem abandonar o modelo neoliberal, que afirma o primado do mercado sobre tudo o resto. O que representa uma contradição insanável. Porque foi este modelo economicista, anti-social e anti-ambiental, que nos conduziu aonde estamos.
O Courrier Internacional, no número que chegou a Lisboa sábado passado, anuncia em grandes letras na primeira página: "O regresso de Marx." E, em subtítulo, escreve: "Como o século XXI repõe na actualidade o pensador do capitalismo." Com efeito, 2008 celebra o 190.º aniversário de Karl Marx e os 160 anos da publicação do Manifesto Comunista.
Depois do colapso do comunismo, em 1989-91, parecia que o mercado seria o centro do mundo e a sua bússola. Chegou a confundir-se mercado e democracia. Contudo, o capitalismo financeiro, especulativo e dito de casino, do séc. XXI, e o descalabro a que está a conduzir o Ocidente - e as desigualdades e exclusões sociais que provoca - suscitam uma nova reflexão sobre a obra de Marx, a que, aliás, o politicólogo francês Jacques Attali procedeu há três anos num livro intitulado Karl Marx ou l'esprit du Monde, 2005, e a que os alteromundialistas, à falta de melhor, hoje se agarram...
Seja, porém, como for - e o futuro próximo o dirá - à "democracia liberal" terá de suceder a democracia social e ambiental, com uma grande preocupação distributiva e socialmente inclusiva. Se quisermos evitar revoltas graves e violentas, senão revoluções... Um caminho que passa pelo regresso em força aos valores éticos, ao respeito pelos Direitos Humanos, pela Lei, pelo Direito Internacional, pelo diálogo multicultural e inter-religioso, pelo respeito pelo outro e pelo direito à diferença, pela solidariedade e, sobretudo, pela paz.
Porque não é o mercado - não obstante a sua importância para assegurar a liberdade individual - nem, muito menos, a economia que conduzem o mundo. São as ideias. Como há mais de um século escrevia o grande Antero de Quental, fundador do Partido Socialista, em 1875...

2.Um exemplo empresarial, que é importante que os portugueses conheçam. Em tempo de pessimismo generalizado, faz bem ao ego português visitar uma instituição tão importante e prestigiada como a Bial, que tem sido uma empresa familiar, há 84 anos, e que há anos é dirigida pelo dr. Luís Portela, neto do fundador. Luís Portela conferiu-lhe uma dimensão internacional, estando os Laboratórios Bial presentes em vários países da Europa, como Espanha, Itália, Chipre e Malta, na América Latina e nas Caraíbas, como a República Dominicana, o Haiti, o Panamá, a Guatemala, as Honduras, o Equador, a Costa Rica, a Nicarágua e a Venezuela, na Ásia, Hong-Kong e Macau, e em África, em múltiplos países, não só de expressão portuguesa, como também de fala francesa.
64% dos trabalhadores da Bial têm formação universitária, são licenciados, mestres e 21 doutorados. 60% residem em Portugal e 40% nos outros países onde há delegações da Bial, com destaque para Espanha (Bilbau). Factura 150 milhões de euros por ano. Mas o mais importante - e original desta empresa -, o que lhe dá mais prestígio e a torna única no sector, é o trabalho de investigação na área de novos medicamentos que realiza, com reputados investigadores nacionais e estrangeiros que vivem no Porto- russos, ingleses, húngaros e de outras nacionalidades - dirigidos por um professor português da Universidade do Porto e em contacto permanente com universidades e institutos especializados nas mesmas matérias, portugueses e estrangeiros. 30% dos recursos da Bial são reinvestidos em investigação.
É assim que tem alguns fármacos reconhecidos internacionalmente como pioneiros, em áreas como as doenças neurológicas (anti-epilepsia e anti-Parkinson), os antibióticos, os anti-inflamatórios e os anti-anémicos (para as grávidas).
A Bial tem 700 funcionários espalhados pelas suas delegações e tem seis medicamentos patenteados em todo o mundo.
Tive o gosto de visitar, demoradamente, a Bial, na passada semana, as suas instalações moderníssimas e verdadeiramente impecáveis. Criou uma Fundação Bial "ao serviço da ciência, da evolução e do conhecimento" e atribui um prémio de Medicina, de 150 mil euros, um dos maiores prémios de Medicina da Europa. Tive a grande honra, há cerca de 16 anos, de entregar esse prémio à grande investigadora e querida amiga Maria de Sousa. E confere ainda bolsas de investigação científica na área das neurociências, que têm vindo a apoiar várias centenas de investigadores de diversos países: Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Brasil, Canadá, Chipre, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Hungria, Islândia, Israel, Japão, Noruega, Portugal, Reino Unido, Rússia, Suécia e Suíça. Esta breve enunciação dá bem a dimensão internacional do projecto Bial, hoje conhecido e respeitado em todo o mundo. Organiza, além disso, um "Simpósio Aquém e Além do Cérebro", um espaço de debate que reúne os bolseiros da Fundação Bial e a comunidade científica internacional.
Os pessimistas que tanto se comprazem, por masoquismo, a dizer mal de Portugal, num bota-abaixo permanente, fazia-lhes bem ao espírito conhecer e ponderar exemplos como este que aqui, modestamente, lhes apresento.

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