quarta-feira, 19 de maio de 2010

Texto de Hermann Hesse: “Árvores”

Foto por Gigliola Spaziano- millenary olive tree in Greece

As árvores são os pregadores de fala mais penetrante. Eu as reverencio por viverem em tribos, famílias, em florestas e bosques. E ainda mais as reverencio por se manterem de pé sozinhas. São como pessoas solitárias. Não como eremitas que se escondem de algumas fraquezas, mas como grandes e solitários homens como Beethoven e Nietzsche. Em seus mais altos ramos, o mundo farfalha.
Suas raízes descansam no infinito, mas elas não se perdem de si mesmas ali, elas lutam com todas as forças de suas vidas por uma coisa apenas: preencher a si mesmas em acordo com suas leis, construindo e erguendo suas próprias formas que melhor representem o que elas verdadeiramente são.
Nada é mais sagrado, nada é mais exemplar que uma bela e forte árvore.
Quando uma árvore é cortada e revela seu tronco nu e cortado ao sol, alguém pode ler sua história no luminoso e inscrito disco do seu tronco: nos anéis, seus anos, suas cicatrizes, todos os seus esforços, todos os seus sofrimentos, todas as suas doenças, toda a felicidade e prosperidade ali, verdadeiramente escritas, tempos de escassez entremeados nos tempos fartos, os ataques que suportou e as tempestades a que resistiu. E todo o jovem fazendeiro sabe que a mais rara e nobre madeira, tem os anéis mais apertados, que a altura das montanhas e seus permanentes perigos, no que têm de mais indestrutível e forte, dão as condições ideais para o seu crescimento.

Árvores são santuários: quem quer que saiba falar com elas, ouvi-las, pode aprender a verdade. Elas não pregam lições e preceitos. Elas pregam, sem temer particularidades, as antigas leis da vida.
Uma árvore diz: um grão está escondido em mim, uma faísca, um pensamento, eu sou vida, da vida eterna. A tentativa e o risco da mãe eterna me conceber é única, única na textura e veias da minha pele, única no menor brincar das folhas nos meus ramos, única na menor das cicatrizes na minha casca. Eu fui feita para dar forma e revelar o eterno no menor dos meus mais especiais detalhes.
Uma árvore diz: minha força é confiável. Eu não sei nada sobre os meus pais, não sei nada sobre as centenas de crianças que todo ano saltam de mim. Eu trago à vida, os segredos contidos nas minhas sementes à sua mais última finalidade e não me importo com nada mais. Confio que Deus está em mim. Confio que meu trabalho é sagrado. Tudo o que vem desta confiança, eu vivo.
Quando somos atacados e não podemos mais afirmar nossas vidas, então uma árvore tem algo a nos dizer: Acalme-se! Acalme-se! Olhe pra mim! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Estes são pensamentos infantis… Seu Lar não é aqui ou lá. Seu Lar está dentro de você ou não está em nenhum lugar.
Meu coração anseia soltar suas lágrimas quando ouço o farfalhar nas árvores à janela durante a noite. Se alguém ouvi-las silenciosamente por um bom tempo, o anseio revela seu grão – sua essência, e seu significado. Isso não é tanto uma maneira de fugir do sofrimento de alguém, ainda que pareça. Isso é o anseio por um lar, pela memória da mãe, por novas metáforas da vida. Isso leva ao lar. Cada jornada conduz de volta ao lar, cada passo é um nascimento, cada passo é uma morte, cada sepulcro é uma mãe.
Então, a árvore farfalha à noite quando nos colocamos desconfortavelmente diante dos nossos pensamentos infantis. Árvores têm duradouros pensamentos, duradouros e restauradores respirares, e tão duradouras suas vidas quanto são as nossas. Elas são mais sábias do que nós somos, até que comecemos a ouvi-las. Mas quando aprendemos a ouvir as árvores, então, a brevidade, a rapidez, a inocência precipitada dos nossos pensamentos encontrarão incomparável alegria. Quem quer que aprenda a ouvir as árvores, acaba querendo ser como as árvores: não irão querer ser outra coisa senão o que realmente são. Aí está o Lar. Aí está a felicidade.

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